Quem é Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico na Síria?

(DR)

A Rússia diz ter abatido o líder do Estado Islâmico na Síria, Abu Bakr al-Baghdadi, um dos mais esquivos e brutais líderes jihadistas de sempre. Quem é Baghdadi e como chegou onde chegou?

Abu Bakr al-Baghdadi é o lider do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) na Síria. Há muito que é descrito pelas autoridades como o “inimigo n.º 1” na luta contra o EI, e informações sobre o seu paradeiro são muito valiosas. A Rússia está agora a investigar a possibilidade de o ter abatido num ataque aéreo conduzido no mês passado. Mas quem é este doutorado, “que evitava a violência” e que, em poucos anos, ascendeu ao topo do movimento jihadista no Médio Oriente?

Um rapaz “pacífico”

Crê-se que Abu Bakr al-Baghdadi terá nascido em Samarra, a norte de Bagdade, em 1971. Um rapaz “envergonhado”, um religioso devoto e um “homem que evitava a violência”, é assim que o descreveram os que com ele cresceram, numa entrevista ao Daily Telegraph. Relatórios das autoridades norte-americanas, datados do início do milénio, indicam que era um eclesiástico nessa cidade. Foi num pequeno quarto, adjacente a uma mesquita local, que terá morado durante mais de uma década, até à altura em que os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, e o capturaram em Faluja, em 2004.

Ahmedal-Dabash, o líder do Exército Islâmico do Iraque, deu uma descrição de Baghdadi que vai ao encontro às feitas pelos seus conterrâneos:

Eu estive com al-Baghdadi na Universidade Islâmica. Tirámos o mesmo curso, mas ele não era um amigo. Ele era calado e isolava-se. Passava muito tempo sozinho… Eu costumava conhecer todos os líderes (da insurgência) pessoalmente (…) Mas não conheci al-Baghdadi. Ele era insignificante. Ele costumava liderar as orações numa mesquita perto da minha zona. Ninguém reparava nele.”
Baghdadi terá um elevado nível de conhecimento académico em Estudos Islâmicos, da Universidade Saddam, em Bagdade. De acordo com a biografia que circulou pelos fóruns extremistas em 2013, será detentor de uma licenciatura, mestrado e doutoramento em Estudos Islâmicos pela Universidade Islâmica de Bagdade.

“O xeque invisível”

Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que al-Baghdadi deu a cara ou a voz publicamente. Depois de, em Março, ter sido noticiada, mais uma vez, a sua alegada morte (mais tarde desconfirmada pelo Pentágono), o líder jihadista quebrou um silêncio imposto durante meses. Numa mensagem áudio divulgada em maio, Baghdadi insta os muçulmanos de todo o mundo a emigrarem para o “Califado” proclamado pelo grupo na Síria e no Iraque.

A sua única vez (conhecida) à frente de uma câmara foi quando o Estado Islâmico tomou posse da cidade de Mossul, no norte do Iraque. Nas imagens, declamava um sermão no interior de uma mesquita. Até então, só existiam duas fotos autenticadas de al-Baghdadi. Sabe-se que fala muitas vezes de máscara, até aos seus próprios comandantes, o que lhe valeu a alcunha de “o xeque invisível”.

Mas al-Baghdadi tem bons motivos para se reservar desta maneira. Um dos seus antecessores, Abu Musab al-Zarqawi, que liderou um dos mais violentos grupos jihadistas no Iraque, foi um líder dado ao exibicionismo e às presenças públicas, tendo acabado morto num bombardeamento americano em 2006.

O califa pode parecer uma figura evasiva, mas o grupo que al-Baghdadi lidera consegue angariar milhares de novos militantes todos os anos, e tornou-se uma das milícias mais coesas e organizadas do Médio Oriente.

“Uma ameaça menor”

Alguns acreditam que al-Baghdadi já era um militante jihadista durante o regime de Saddam Hussein, outros sugerem que se radicalizou ao longo dos quatro anos que passou detido num campo norte-americano no sul do Iraque, onde muitos aliados e simpatizantes da al Qaeda eram mantidos.

Foi libertado entre 2008 e 2009, tendo sido classificado como uma “ameaça menor”. Bastou um ano para que chegasse ao topo dos comandos da al Qaeda no Iraque, num dos grupos que se viria a tornar o Estado Islâmico que hoje tão bem conhecemos.

Al-Baghdadi e os seus seguidores desafiam abertamente o líder da al Qaeda, Zawahiri, lo que significará que já detém mais prestígio do que este dentro dos grupos radicais islâmicos.

“Terrorista”

Al-Baghdadi tem reputação de ser um combatente altamente organizado e implacável, o que atrai militantes mais novos, confiantes na sua firma e rigorosa liderança alicerçada nos valores fundamentalistas. Um claro contraste com o programa de Zawahiri, que se tem afastado da violência e, até por vezes, condenando-a.

Os Estados Unidos nomearam al-Baghdadi como “terrorista” pela primeira vez em 2011 e ofereceram uma recompensa de 10 milhões de dólares (cerca de 7,3 milhões de euros) em troca de informações que levassem à sua captura ou morte. Esse valor entretanto já subiu para 25 milhões de dólares (22 milhões de euros).

Para além das dúvidas relativamente à sua verdadeira identidade, o seu paradeiro também é incerto, com apenas alguns relatórios a colocarem-no ocasionalmente em Raqqa, na Síria – a proclamada capital e principal base do EI.

Sobram por isso mais questões do que respostas sobre o líder de um dos mais perigosos grupos jihadistas de sempre.

Fica tudo em família

Decifrar a árvore geneológica de al-Baghdadi revela-se também um desafio uma vez que não há registos oficiais de casamento ou certidões de nascimento. Mas Abu Bakr al-Baghdadi casou, pelo menos, cinco vezes.

Dos cinco casamentos, não é certo quais continuam válidos – ou quais das mulheres continuam vivas. Duas dessas mulheres serão iraquianas e uma terceira de nacionalidade síria, de acordo com informação avançada pela Reuters.

Em 2015, al-Baghdadi casou com Diane Kruger, uma adolescente alemã que acabou depois por escapar ao grupo extremista. A união (ou captura) durou três meses.

Apesar destas notícias, o ministro do interior iraquiano diz que Baghdadi só teve (ou tem) duas mulheres: Asma Fawzi Mohammed al-Dulaimi e Israa A-Qaisi. Uma informação que contrasta com a versão da Fox News que, em 2016, avançou o nome de Saja al-Dulaima como a mulher mais poderosa da família al-Baghdadi.

É Saja (nomeada Sujidah em muitas fontes) que intriga as autoridades. Foi a única mulher de al-Baghdadi que já casou mais que uma vez e a única que viajava sozinha. Foi detida por dezenas de vezes, juntamente com os filhos, com objectivo de ser interrogada ou utilizada como moeda de troca. Saiu sempre em liberdade.

Saja tem uma rede familiar que se estende do Iraque à Síria: irmãos que combateram nas fileiras da al Qaeda e uma família que jurou lealdade ao EI. Sabe-se que casou com outro homem de nacionalidade palestiniana e que quer morar na Europa.

Foi capturada em 2014 pelas autoridades libanesas. Um ano depois foi libertada em troca de soldados que estavam capturados pela Frente al-Nusra na Síria – outro grupo extremista com ligações ao seio familiar al-Dulaima.

Se o histórico matrimonial já é complexo, quando falamos em filhos a história ainda é mais difusa. Nunca saberemos ao certo quantos filhos tem Baghdadi, com diferentes relatórios a dar conta de números diferentes.
De acordo com um repórter do The Telegraph, al-Baghdadi tem um filho de 14 ou 15 anos. A BBC dá conta de uma rapariga entre os 4 e 6 anos, detida com al-Dulaima em 2014, com o ADN de al-Baghdadi.

Quantas vezes consegue uma pessoa fugir à morte?

A resposta para queijinho é: seis.

Abu Bakr al-Baghdadi já foi dado como abatido, pelo menos, seis vezes. Em Março de 2015, ficou de tal forma ferido no seguimento de um bombardeamento aéreo que os principais líderes do EI reuniram para debater que o substituiria nos comandos do Califado – em resposta, os militantes prometeram vingar os ferimentos de al-Baghdadi.

Sobreviveu e, em Outubro do mesmo ano, a força aérea iraquiana declarou a sua morte. Veio-se a saber, mais tarde, que al-Baghdadi nem sequer estava perto do local do bombardeamento.

A 9 de Junho de 2016 foi novamente ferido num ataque aéreo norte-americano.

Dias depois, órgãos de comunicação por todo o Médio Oriente noticiaram a sua morte num outro ataque, este a 12 de Junho. Os Estados Unidos nunca confirmaram estas informações.

Em Outubro de 2016, al-Baghdadi e três líderes de topo foram envenenados e acabaram por resistir.

Agora, vêm a televisão estatal síria e as autoridades russas confirmar a possível morte de al-Baghdadi, a 28 de maio, num ataque apoiado pelos EUA. (Observador)

por João Costa

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