Negar a vida depois de 100 transfusões de sangue

(DR)

No Dia Mundial de Consciencialização sobre a Anemia Falciforme, O PAÍS dá à estampa a história de José, o jovem que depois de lutar contra a doença e ter testemunhado a morte de três amigos pelas mesmas razões, perdeu a esperança de viver. Já fez mais de 100 transfusões de sangue e sente que já não tem mais forças para lutar

Foi-lhe diagnosticado a doença aos 6 anos de idade, em 1989, depois de fortes complicações de saúde, cujas razões eram desconhecidas pelos seus pais. No Hospital Josina Machel, em Luanda, os médicos descobriram que José Caputo é portador da célula de Anemia Falciforme, doença que lhe foi hereditariamente transmitida pelo pai.

A partir desta data, a vida do pequeno Zé mudou completamente, passando boa parte do tempo em diversas unidades de Saúde, ora internado, ora atrás dos fármacos que lhe permitissem viver como qualquer pessoa normal, o que nunca foi possível dada as crises que passou a ter.

As recaídas constantes levaram-no a fazer mais de 100 transfusões de sangue, segundo contou a este jornal, tendo feito dele um visitante assíduo dos hospitais.

“Já perdi a conta de quantas vezes fiz transfusões. O meu corpo já está cansado e acho que já não adianta insistir. Por esta razão, tenho pedido a Deus para me meter a descansar de uma vez …estou cansado”, lamentava ele com um semblante carregado de angústia e acrescentou: “Toda a gente no bairro sabe que quando não estou em casa fui ao hospital. Aliás, o hospital já é praticamente a minha segunda casa”. Um dia antes de conversar com os repórteres deste jornal, José recusou fazer mais uma transfusão de sangue que lhe tinha sido orientado por um dos médicos do Hospital Pediátrico, David Bernardino.

Abandono escolar

Abandonou a escola quando frequentava a 6ª classe, numa das instituições públicas do município do Cazenga. Pouca gente o visitava e diz-se que alguns amigos se afastaram dele por causa do preconceito que têm da doença.

Mas quem o visita encontra-o sempre com um retrato fotográfico onde está com mais cinco amigos, três dos quais José foi testemunha da sua morte na cama do hospital, por causa da Anemia Falciforme. No ano passado morreu Dione, o amigo que tinha a melhor posição social entre os seis e que prestava mais ajuda ao grupo, graças à proximidade que tinha com o antigo Ministro da Saúde, José Van-Dunem. “Não sabemos qual era o grau de parentesco que ele tinha com o Ministro.

Mas ele ligava e era atendido a qualquer momento e nos ajudava sempre que podia e quando ele morreu as nossas dificuldades aumentaram”, contou. Hoje, com 34 anos, o nosso interlocutor disse que aguarda apenas pelo momento em que se vai juntar aos seus três amigos por se sentir bastante debilitado e não registar nenhuma evolução no seu estado de saúde mesmo com as sucessivas transfusões sanguíneas.

José diz que se sente mal por estar a viver ainda sob responsabilidade da sua mãe e não ter conseguido avançar com os estudos nem constituir família à semelhança dos seus outros três irmãos. Luciana Caputo, a mãe, é quem mais ouve as lamentações do filho e diz que em diversas situações bateu portas para que o filho tivesse acompanhamento num hospital fora de Angola, mas sempre lhe foram colocadas barreiras em virtude da idade do filho.

Apesar de reconhecer que na condição do seu filho estão centenas de jovens do país, dona Feliciana mantém a esperança de ver o filho a ser tratado num local em que o tratamento lhe possa proporcionar uma melhor qualidade de vida. (O País)

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