A mãe de quatro filhos que lidera a revolta no norte de Marrocos

Nawal ao centro (Foto: Reuters)

Os protestos começaram há sete meses quando Mouhcine Fikri, um pescador de 31 anos, morreu esmagado dentro do camião do lixo na altura em que tentava recuperar a mercadoria que lhe tinha sido confiscada em Al-Hoceima. Foram engrossando e hoje em dia já se estendem a outras cidades, para além da região do Rif, no norte montanhoso de Marrocos. Os manifestantes marroquinos, muitos deles mulheres, jovens ou não, de véu islâmico ou não, reclamam melhores condições de vida, o fim da discriminação de que dizem ser alvo por parte de um Estado centralizado e a libertação de todos os activistas presos. Segundo as autoridades haverá até agora 86 detidos e, de acordo com as ONG, 130, nota o site da rádio francesa RFI. Um dos detidos é o líder do movimento Hirak, Nasser Zefzafi, de 39 anos, que foi preso a 30 de maio e aguarda agora julgamento em Casablanca. Mas a sua detenção não enfraqueceu as manifestações e rapidamente surgiu nova liderança: Nawal Benaissa, de 36 anos, casada e mãe de quatro filhos.

Demarcando-se dos jovens que protagonizaram episódios de violência com a polícia, Benaissa garantiu, na sua primeira acção, que o movimento que encabeça não é a favor de actos violentos. “Os que atiram pedras ou recorrem à violência não são dos nossos”, garantiu, quando dos confrontos com a polícia antimotim já resultaram vários feridos. Mãe de família, explica o que a move no Facebook: “Nasci e cresci nesta terra do Rif mergulhada na corrupção, na marginalização e na injustiça. Participei em todas as manifestações pacíficas porque reivindico os meus direitos, os direitos à saúde, à educação e ao trabalho”, afirma a activista que nunca acabou o bacharelato por falta de recursos. Também ela chegou a ser interpelada pela polícia, mas saiu em liberdade após interrogatório. “Não me esconderei mesmo que isso signifique que me vão prender”, garante, apesar de estar consciente da dor que isso causaria ao marido, “aos pais adorados e filhos queridos”.

Os detractores do Al-Hirak Al-Shaabi – Movimento Popular – acusam o movimento de ter ambições independentistas, dado o historial que a região tem. Porém, Benaissa nega que isso seja verdade. Apesar de alguns dos manifestantes terem sido vistos com bandeiras da República do Rif (proclamada por Mohammed Abdelkrim al-Khattabi no ano de 1921), a activista não fala em separatismo nem em reivindicações culturais e linguísticas como poderia ser o uso do berbere em vez do árabe. “O Rif gosta do rei e o rei gosta do Rif”, costuma dizer nas suas entrevistas, referindo-se a Mohammed VI, nota um artigo do El Confidencial. O actual monarca tem tido uma abordagem mais suave para a região, ao contrário do que acontecia nos tempos do seu pai Hassan II.

No mesmo sentido falam alguns dos seus apoiantes. “Nós não somos separatistas, nós pertencemos ao Estado marroquino, nós amamos o nosso rei”, gritavam os manifestantes na semana passada na cidade de Al-Hoceima, segundo uma reportagem do Libération. Morad, de 33 anos, explica que está desempregado há um ano e porque razão apoia os protestos. “As nossas reivindicações são apenas socioeconómicas: exigimos hospitais, empresas, locais de culto. O governo não nos dá trabalho, cultiva a política da fome”. Lofti, cozinheiro num snack bar, não foi à manifestação mas diz compreender as razões do protesto: “Estas pessoas não são extremistas, nem são islamitas. São pessoas normais, que querem uma vida digna”.

Segundo a ONU, Marrocos será o primeiro produtor mundial de haxixe e a região do Rif é aquela onde se produz o canábis. Densamente povoada, é uma das mais pobres e com uma taxa de desemprego jovem da ordem dos 21%. Quando começou a Primavera Árabe, em 2011, Mohammed VI prometeu reformas e conseguiu que a onda de contestação e revolta não chegasse ao país. Agora fez saber, por Emmanuel Macron, o presidente francês, o qual recebeu na quarta-feira, que está preocupado com a situação no Rif. “O rei considera legítimo que haja manifestações. Ele deseja acalmar a situação respondendo às premissas destes movimentos e dando mais atenção à região”, garantiu Macron aos jornalistas. (Diário de Notícias)

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