No Irão, ser eleito é só a primeira batalha de um presidente

(Hassan Rouhani é um ativista de uma família tradicional que se opôs ao Xá do Irão)

Não importa quem vença a eleição uma coisa é quase certa: o presidente terá uma experiência exaustiva trabalhando com o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. A eleição é só a primeira batalha. A seguinte se desenvolve lentamente, muitas vezes em segredo, e não pode ser vencida. Em todo caso, termina com amargura, ressentimento e desconfiança mútua entre os dois homens mais poderosos do país.

Uma eleição presidencial é o desafio mais óbvio para a autoridade de Khamenei. É a única vez em que o povo pode expressar, em uníssono, a sua opinião sobre a direcção que o país deve tomar. Um presidente tem que ganhar apoio popular — ele é a escolha do povo. O líder supremo pode dar a palavra final em todos os assuntos estatais, mas não é um “avatar” da soberania popular.

O próprio Khamenei foi presidente do Irão nos 80, antes que a Assembleia dos Especialistas — grupo de mais de 80 clérigos encarregados de escolher e supervisionar o líder supremo — o lançasse ao posto onde se encontra, após a morte de Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica. Assim, ele entende o poder que o presidente exerce.

Desde então, ele e outros presidentes desenvolveram uma abordagem às vezes cooperativa. Em outras nem tanto. Nos primeiros anos da liderança de Khamenei, a informação era divulgada apenas através de canais controlados pelo Estado, que retratavam o “establishment” islâmico como totalmente unificado. Agora, com o acesso à informação muito mais ampla e rápida em todo o país, apesar das proibições oficiais, os cidadãos comuns estão muito mais conscientes das fissuras que existem na opinião pública e no governo. Quando o sucesso de um presidente se tornou mais mensurável, Khamenei viu sua posição ameaçada.

Essa dinâmica vem se repetindo. Mohammad Khatami, eleito com quase 70% dos votos em 1997, introduziu reformas sociais dentro das regras e regulamentos do sistema, sempre respeitando a autoridade de Khamenei. O líder inicialmente o apoiou. Mas, quando o seu primeiro mandato terminou, Khamenei aumentou as críticas à política de Khatami de expandir liberdades sociais, consideradas anti-revolucionárias pela linha-dura. Khatami conseguiu a reeleição em 2001, mas Khamenei atrasou a posse por disputas entre facções políticas. E anos depois de o presidente ter deixado o cargo, o Judiciário conservador do Irão proibiu a mídia estatal de transmitir imagens, ou mesmo de mencionar o nome de Khatami, indiscutivelmente a figura mais referenciada na história do regime.

Depois veio Mahmoud Ahmadinejad. Ganhou o primeiro mandato em 2005, com uma plataforma que soava mais de acordo com o tradicionalismo iraniano com o qual o líder supremo é conhecido. Então, em 2011, Ahmadinejad tentou aumentar os seus próprios poderes presidenciais, obrigando o ministro da Inteligência a renunciar, uma medida que Khamenei não aprovou. Depois disso, o líder supremo distanciou-se do presidente. Figuras próximas a ele começaram a se referir ao círculo interno de Ahmadinejad como uma “corrente desviante” que tentava minar o governo clerical. O apelido pegou, e embora Ahmadinejad nunca tenha enfrentado acusações criminais, vários membros do seu Gabinete foram presos.

A vitória de Rouhani, em 2013 — com mais da metade dos votos numa disputa com seis candidatos — foi considerada uma reprimenda às políticas de Khamenei, que levaram a anos de isolamento internacional e sanções económicas. O acordo nuclear é a maior conquista diplomática na História de quase quatro décadas da República Islâmica. Agora, Rouhani está focado em expandir liberdades civis e de expressão e no fim das prisões políticas. As relações são ainda relativamente cordiais, mas o padrão sugere que é só uma questão de tempo até que eles se desgastem.

Mesmo os aliados de Khamenei não escapam às pressões que levam os líderes a entrarem em conflito. Seu amigo próximo Ali Akbar Hashemi Rafsanjani ganhou a eleição para presidente, cargo que ocupou de 1989 a 1997. Ele foi fundamental para a nomeação de Khamenei como líder supremo. Era uma época conturbada. A guerra de oito anos com o Iraque, que matou centenas de milhares de iranianos, acabava de terminar, e os dois homens trabalharam para reconstruir o país.

Foi um raro período de unidade política, mas não durou. Os dois começaram a ver o futuro do país de forma diferente: Rafsanjani apoiou os esforços para consertar as relações com o Ocidente e desenvolver a economia do Irão — posições que assumiu até a sua morte, este ano. Mas Khamenei queria que o Irão fosse uma poderosa força entre as nações islâmicas, um contrapeso aos reinos árabes do Golfo Pérsico.

— O debate que começou na década de 1990 entre Khamenei e Rafsanjani ainda continua hoje — explica Mehrzad Boroujerdi, cientista político da Universidade de Syracuse.

No cerne da luta de Khamenei com os presidentes está o futuro da República Islâmica. Será que o país manterá as suas raízes ideológicas e permanecerá insular e desconectado do mundo? Ou se abrirá às relações internacionais, aumentando o comércio e permitindo mais liberdades pessoais para seus cidadãos? Este último ponto é aparentemente o desejo do povo, que, quando decide votar em eleições locais e nacionais, escolhe os candidatos moderados em vez dos mais duros — pelo menos três dos quatro presidentes que seguiram Khamenei provam isso. Khamenei não quer comprometer os ideais da revolução. Mas o partidarismo eleitoral e mesmo as divisões entre a classe política sugerem que ele não foi capaz de reavivar o zelo revolucionário. (Jornal Extra)

por Jason Rezaian*, do ‘Washington Post’ – O Globo. Ex-correspondente em Teerão, onde ficou detido por 500 dias

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