Milhares de opositores marcham na Venezuela em meio a actos violentos

Opositores venezuelanos durante protesto, bloqueados pela Guarda Nacional, contra o governo de Nicolás Maduro, em Caracas, em 1º de Abril de 2017 (Afp)

Milhares de opositores venezuelanos exigiram nesta quinta-feira, em Caracas, a saída do poder do presidente Nicolás Maduro, durante uma marcha dispersada pela tropa de choque com bombas de gás lacrimogéneo na terceira semana de protestos violentos que deixam oito mortos.

Agentes anti-distúrbios e manifestantes se enfrentaram em uma intensa troca de bombas de gás lacrimogéneo, pedras e coquetéis molotov em Chacaíto, El Rosal e outros sectores em vias de acesso à autoestrada estratégica Francisco Fajardo, que terminou com vários feridos e afectados pelo gás.

Após conseguir dispersar o protesto, a polícia e a militarizada guarda nacional usaram veículos blindados que disparavam gás lacrimogéneo e jactos de água, chamados popularmente de rinoceronte e baleia, na direcção de um grupo de jovens que os enfrentavam com os rostos cobertos com lenços e gorros.

“Não me importa engolir gás, não me importa morrer, mas temos que sair desta merda de governo assassino e repressor”, disse à AFP Natasha Borges, de 17 anos, em meio ao caos.

Um helicóptero da polícia sobrevoava a área. Barricadas de lixo eram queimadas em diferentes pontos e algumas pessoas destruíram um outdoor para usar os restos de trincheira.

Gritavam palavras como “liberdade”, mas também insultos, como “malditos” e “covardes” aos policiais, protegidos com coletes, capacetes e escudos anti-distúrbios.

Em um episódio singular, um manifestante nu, usando apenas meias e ténis, caminhou em meio a uma nuvem de gás, subiu em um tanque militar, enquanto gritava: “Não atirem mais bombas”.

Os principais distúrbios foram registados em Caracas, embora também tenham sido reportados nas cidades de Maracaibo (noroeste), Valencia (centro) e San Cristóbal (oeste), um dia depois da mobilização multitudinária de quinta-feira, que deixou dois jovens e um militar mortos.

No fim da tarde, no leste de Caracas soavam panelaços, como encerramento deste dia de protestos.

Temos que ter coragem!

Os manifestantes opositores, que exigem eleições gerais, não conseguiram chegar ao centro de Caracas, reduto do chavismo, onde Maduro liderou na quarta-feira uma concentração em massa de seus seguidores e nesta quinta-feira participa de uma reunião na instalação militar Forte Tiuna, no oeste da capital.

“Há cansaço, mas temos que ter coragem. Eu estou disposto a sair às ruas todos os dias se for necessário”, declarou à AFP Aquiles Aldazoro, um universitário de 22 anos, que levava um cartaz escrito: “aquele que não se move não escuta o barulho de suas correntes”.

Segundo a ONG Foro Penal, além das vítimas fatais, dezenas ficaram feridos e, contando com os protestos anteriores, há mais de 500 presos.

“Quanto mais fortes forem os protestos, mais forte será a repressão”, declarou o analista Diego Moya-Ocampos, do centro IHS Markit Country Risk, em Londres.

A União Europeia condenou nesta quinta-feira os actos de violência e pediu uma “diminuição” do conflito. A Amnistia Internacional alertou para a “repressão” e o presidente argentino Mauricio Macri lamentou “que não tenham atendido o pedido da região de garantir uma jornada pacífica.

“Pedimos gestos concretos de todas as partes para reduzir a polarização e criar as condições necessárias para abordar os desafios do país em benefício do povo venezuelano”, afirmou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.

Eleições na mira

A onda de protestos começou em 1º de Abril, após as sentenças do máximo tribunal eleitoral, que retiraram a imunidade do Parlamento, único poder público controlado pela oposição.

Maduro, a quem a oposição acusa de afundar o país em uma das piores crises económica e política de sua história, assegura que os protestos buscam derrubá-lo com o apoio dos Estados Unidos e realizar uma intervenção militar na Venezuela.

Seu aliado, o presidente boliviano Evo Morales, acusou Washington de planear a derrubada de Maduro, cujo mandato termina em 2019.

Maduro diz querer logo a chegada das eleições para derrotar a oposição. As de governadores deveriam ter sido realizadas em 2016, mas foram suspensas e ainda não têm data. As de prefeito estão marcadas para este ano e as presidenciais para dezembro de 2018.

Segundo as pesquisas, sete em cada dez venezuelanos reprovam o governo, sufocados pela crise económica, com uma severa escassez de alimentos e remédios, e uma inflação – a mais alta do mundo – que o FMI estima em 720,5% para este ano.

“A estratégia do governo parece ser se manter no poder a qualquer custo e evitar que haja eleições, porque a crise o tornou bastante impopular”, opinou Moya-Ocampos.

A oposição afirma que a Maduro resta o apoio da cúpula da Força Armada, a quem deu enorme poder económico e militar e que recebeu em troca “lealdade incondicional”. (Afp)

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