Portugal comprou 524 toneladas de carne sob suspeita no Brasil

(REUTERS/UESLEI MARCELINO)

As investigações à inspecção sanitária na comercialização de carne no Brasil levou a União Europeia, a Coreia do Sul e um dos seus maiores parceiros comerciais, a China, a restringir as importações de produtos bovinos e avícolas.

A crise vivida em Portugal e o regresso de muitos brasileiros ao seu país de origem terá parte da justificação, mas a verdade é que o país comprou em 2016 menos de metade do valor da carne de vaca e aves ao Brasil do que em 2010. Em volume, o valor no ano passado foi quase um quinto do registado seis anos antes.

Portugal importou de forma directa, em 2016, 524.519 quilos de carne do Brasil, equivalentes a 3,44 milhões de euros, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) – 2,29 milhões de euros (equivalente a 284.812 quilos) de carne de bovino congelada, a que se soma 1,02 milhões de euros (284.812 quilos) de carne fresca ou refrigerada de vaca e 85,1 mil euros de carne fresca, refrigerada ou congelada de aves (52.008 quilos). Há seis anos, as importações directas de Portugal de carne bovina e de aves eram de 8,88 milhões de euros em valor e de 2.360.170 quilos. Portugal, segundo o INE, não importou de forma directa, entre 2010 e 2016, outro tipo de carnes daquele país, nomeadamente de suíno.

Para provar que a carne não é fraca, Temer fez um churrasco diplomático
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A carne importada por Portugal ao Brasil é distribuída no canal alimentar – na rede de super e hipermercados – mas entra também na rede Horeca (hotéis, restaurante e cafés) presentes no país. Quem o diz é a BRF, uma das empresas identificada na investigação da polícia brasileira, que detectou casos de fraude, adulteração de produtos e validades e alegado suborno de inspectores sanitários no Brasil. A BRF, que será alegamente uma das envolvidas e que já veio refutar as suspeitas de corrupção e de qualidade inapropriada dos seus produtos, menciona Portugal no seu relatório e contas de 2015, como um dos países em que fornece a área de “food service” (mercado de alimentação fora do lar), com a marca Sadia.

Uma carne que está agora sob suspeita, pela investigação levada a cabo nos últimos dois anos pela polícia brasileira, envolvendo alegado suborno de inspectores agrícolas daquele país, permitindo o comércio de carne em condições impróprias para consumo.

Ao PÚBLICO, fonte oficial da ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica respondeu que “em Portugal o organismo competente no âmbito da verificação do cumprimento” das “regras e exigências comunitárias” a que está sujeita a “importação de géneros alimentícios de origem animal para Portugal, como membro da UE”, bem como “o organismo competente pela fiscalização” nos “controlos veterinários a serem efectuados nos Postos de Inspecção Fronteiriços” dos Estados-membros da União, no caso de Portugal “é a Direcção Geral de Alimentação e Veterinária”, remetendo explicações para este organismo.

O PÚBLICO tentou obter uma reacção do Ministério da Agricultura, que tutela a DGAV, do Observatório dos Mercados Agrícolas e das Importações Agro-alimentares e da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), sem resposta até à hora de edição desta notícia.

UE vai suspender importações de empresas envolvidas no escândalo de carne no Brasil
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Quem não tem a menor dúvida que as suspeitas agora lançadas à carne com origem no Brasil irá ter implicações no consumo nacional é Rui Rosa Dias. O professor do IPAM – Instituto Português de Administração de Marketing, especialista em Economia Agrária, recorda que já aquando do caso das “vacas loucas”, o consumo de carne de vaca recuou 30%, a favor dos produtos de porco e aves em território nacional. E se é certo que Portugal não necessita de comprar carne de porco ao Brasil, a verdade é, que desta vez, a carne de aves está incluída na investigação da polícia brasileira – “colateralmente, os efeitos têm potencial de uma bola de neve”, afirma. Para inverter toda a situação, e com o sector cárnico português ainda a sofrer com os efeitos do embargo russo a alguns produtos, o país teria de empreender, rapidamente, aquilo que chama um “proteccionismo positivo”, valorizando os pontos fortes da cadeia de valor nacional. Até lá, defende o especialista, o ministério da Agricultura devia emitir uma mensagem a tranquilizar os consumidores nacionais. Rui Rosa Dias advoga mesmo a retirada da carne alvo de suspeita do mercado.

A carne é fraca
O que Portugal compra ao Brasil é uma gota no oceano de um dos maiores exportadores mundiais de carne, que em 2016 vendeu fora de portas 12,4 mil milhões de dólares (11,54 mil milhões de euros ao câmbio actual) – 6,9 mil milhões de dólares em aves e 5,5 mil milhões de dólares em carne de vaca. Um sector que está, desde este fim-de-semana, sob pressão, depois de ser conhecido que a Polícia Federal do Brasil, após dois anos de investigação – designada por “Carne fraca” – e buscas em seis estados brasileiros obteve provas, segundo a Reuters, de que algumas empresas pagaram a inspectores sanitários para ocultar condições de insalubridade nas unidades de processamento. Estão a ser investigados 33 funcionários do ministério da agricultura daquela país.

Em causa estarão também a alegada utilização de aditivos químicos para melhorar o aspecto da carne, falsificação de etiquetas sobre prazos de validade e a inclusão de componentes não autorizados para consumo humano na produção de enchidos. Segundo os dados do governo de Brasília, 4.837 unidades frigoríficas foram inspeccionadas, estando alegadamente 22 empresas envolvidas.

Duas das empresas já identificadas, das maiores do sector, foram as brasileiras BRF e a JBS, que esta segunda-feira chegaram a desvalorizar 10% na bolsa de São Paulo, arrastando o índice Bovespa. O escândalo, “pode ser suficiente para temporariamente pôr em causa a aceitação mundial à proteína [produzida] no Brasil”, considerou o analista Victor Saragiotto do Credit Suisse Securities. (Público)

por Isabel Aveiro

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