Petróleo vs desenvolvimento

RUI MALAQUIAS Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)

A crise económica mundial e a baixa do preço do barril de brent estão a conduzir a um processo de reflexão nacional no sentido em que fomos obrigados a ver a nossa economia como de facto ela deveria ter sido sempre desde os primórdios da nossa formação como Nação.

Um processo de desenvolvimento apoiado ao empresariado privado suportado e financiado por um sistema financeiro que fosse sustentável em que as empresas e as famílias tinham rendimentos superiores ao consumo e a poupança gerada resultava em investimento.

Por este motivo, é importante que o sistema financeiro seja o centro das atenções, e nunca o sector petrolífero como ainda tem sido, o petróleo, já não deve ser o principal indutor do desenvolvimento, mas sim o mercado e a forma como o sistema financeiro se cose, esta deverá ser a partir de agora a principal preocupação da nossa administração.

No primeiro parágrafo separamos a crise da subida do preço de brent porque ao contrário do que muito bom pensólogo afirma, um fenómeno não levou ao outro, pois há países que não dependem da venda do petróleo (até se beneficiam com a baixa de preço) que estão efectivamente em crise.

É muito importante que as grandes economias cresçam, não há nada de mal nisso, pois a economia mundial não se compadece com o sentimento do “caranguejismo” em que umas crescem à custa da queda de outras.

As economias grandes devem crescer ao ponto de terem de desmaterializar as suas fábricas para outras paragens, sendo que a concorrência é “vil” nos seus países de origem. Elas procuram outros mercados levando para lá a tecnologia e “know-how”, pois cabe aos países que as acolhem aproveitar convenientemente estes movimentos.

Olhemos para o exemplo chinês, que atraiu grandes investimentos ocidentais, com o chamariz dos baixos custos de mão-de-obra e daí nunca mais parou e, hoje, produz tudo o que precisa sem deixar nada a dever a ninguém.

Angola, por ser uma economia pequena, tem que apreender os melhores exemplos, enquadrá-los à nossa realidade territorial, histórica e populacional e conceber o seu próprio modelo de desenvolvimento, que nunca será igual a do português nem a do chinês, pois a elasticidade da nossa governação económica deve ser medida aqui, em olhar para o país e perceber que ele precisa e o que é mais vantajoso produzir internamente e o que é definitivamente mais vantajoso importar.

Temos de ter consciência que ainda que tenhamos produção interna, nunca iremos ter importações zero, vamos apenas produzir, o que fica mais em conta produzir internamente, pois nalguns bens teremos vantagens competitivas em relação aos outros. Para tal, a nossa combinação preço/ qualidade terá de ser melhor do que a dos nossos concorrentes.

O essencial é compreender que o nosso desenvolvimento deve ser sustentável, que depende das pessoas e não dos minerais. Temos de produzir para o consumo interno e externo e assim gerar recursos para que o sistema financeiro conveniente supervisionado pelo Estado volte a emprestar às famílias e às empresas, sendo estas últimas as criadoras de emprego que alimentam a arrecadação de impostos para o Estado.

Para nós, a crise económica é sinónimo da baixa do preço do brent, porque a economia não tem soluções de financiamento que não estejam ligadas ao petróleo e às divisas que aporta, bem como as empresas indirectamente petrolíferas (dependem totalmente do sector petrolífero) deixaram de conseguir manter dinheiro em suas contas bancárias.

O petróleo, claro está, é muito importante e deve ser usado para apressar o desenvolvimento sustentável que procuramos, pois ele permite que nos desenvolvamos com um nível de endividamento externo menor e também cria muitos empregos na sua própria indústria.

O petróleo tem que ser a muleta para o resto da economia. O que precisamos é forjar um modelo de desenvolvimento em que o petróleo é utilizado para financiar outros sectores, tornando-os sustentáveis e autónomos, sendo que a principal fonte de recursos para o Estado e para alimentação do sistema financeiro, seja o que a economia como um todo produzir para o mercado interno e exportar para que não se corte o fluxo de entrada de divisas. (jornaldeeconomia)

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