Konomia dya Kitanda: Emprego, subemprego e desemprego

JORGE LEÃO PERES Economista (Foto: D.R.)

Tudo começou com o equívoco gerado na aldeia, quando chegara a retumbante notícia de que o filho do mais velho Adão Domingos, o Domingos Adão, possuía cinco carros no processo na cidade grande, na cidade da Kianda, a mítica sereia, ícone, primeiro dos axiluandas, e depois foi subindo pelo morro da Maianga até aos limites infindáveis das urbanizações zangos e sequeles.

Como o rapaz progredira na vida, em apenas dois anos de “imigrante” já tinha uma frota de cinco carros, que até o seu caso de sucesso passou a constituir motivo de motivação, passe o pleonasmo, para outros garotos na aldeia, que matutavam o projecto de emigração, muitas vezes impulsionados pelos pais que sonhavam pelo destino idílico dos seus rebentos. Número de carros equivalente ao número de dedos da mão, era obra.

O equívoco ficou esclarecido quando se constatou que, na verdade, se tratavam de carros “de mão”, tombador fabricado artesanalmente em madeira e movido por energia humana, utilizados para transportar mercadorias entre os labirintos dos mercados, principalmente dos mercados informais. Apesar do equívoco, Domingos Adão conseguiu “ludibriar” as estatísticas sobre o desemprego, condição na qual se encontrava em termos oficiais.

As estatísticas em Angola sobre o desemprego (e por exclusão de parte, sobre o emprego) são de difícil mensuração devido fundamentalmente à fronteira difusa entre o sector formal e o sector informal, este por sinal bastante preponderante no país, e que tem constituído de alternativa “salvadora” para muitos agregados familiares acossados por falta de emprego, ou ainda, mesmo tendo emprego, recurso para a melhoria da renda familiar.

O censo populacional realizado de 16 a 31 de Maio de 2014, o primeiro realizado no pós-independência, o último foi em 1970 realizado no período colonial, apurou 25.789.024 habitantes como sendo o número da população residente em Angola, dos quais cerca de 27 por cento, portanto, quase um terço, reside em Luanda.Os dados do censo apontam ainda que a população angolana é extremamente jovem e que a esperança de vida subiu para 60 anos.

Estes elementos apontam logo para dois direccionamentos, uma base populacional com forte potencial (base jovem) e

uma maior longevidade da população, ou seja, uma base da pirâmide larga que se alonga no topo. Neste particular, a realidade é promissora, pois, quanto mais alta a pirâmide, significa maior a expectativa de vida e, consequentemente, melhor as condições de vida da população. Todavia, outros desafios se colocam em pirâmides etárias deste estilo ao nível da sua base intermédia.

A base da pirâmide representa o grupo jovem (até 14 anos), a área intermediária ou corpo representa o grupo adulto (entre 15 e 64 anos), e o topo ou ápice representa a população idosa (acima de 65 anos). Na faixa intermédia está o potencial económico do país, pois é nela que “reside” a população economicamente activa, e na base da pirâmide o potencial em ascensão (crianças e adolescentes em formação).

Portanto, a formulação de políticas de desenvolvimento,que se pretenda estruturante, deve ter em conta esta segmentação piramidal da população, ao nível da melhoria das condições de habitabilidade, saneamento e cuidados de saúde, assim como ao nível das políticas de educação e formação, que devem ser sólidas para potenciar os níveis de emprego e de empregabilidade dos cidadãos.

Fazendo um alinhamento com o ciclo de vida poupança, encontramos três etapas que coincidem com a segmentação da pirâmide demográfica. Na fase 1 (base) é a fase meramente de consumo (não há poupança), na fase 2 (corpo), a fase activa, há a “produção” de poupança, na perspectiva de que poupar para o futuro advém do desejo individual de manter um padrão estável de consumo ao longo do ciclo da vida. Na fase 3 (topo) ocorre quase sempre uma queda no rendimento do trabalho (reduzido a pensão de reforma), e por isso há o “consumo” da poupança gerada na fase activa da vida.

A condução da política económica deve estar centrada, principalmente, em quatro frentes: estabilidade de preços, crescimento económico, nível de emprego e solvabilidade externa da moeda.

Aumentar o nível de emprego, ou inversamente, reduzir o nível de desemprego é condição basilar para a melhoria das condições de vida da população.

A ciência económica tipifica três tipos de desempregos: o voluntário ou natural, o friccional e o involuntário ou estrutural.

O desemprego é considerado voluntário ou natural quando mesmo que o mercado esteja em equilíbrio, existam pessoas que não estejam a trabalhar. Nessa situação, há um número de pessoas sem emprego, mas a oferta e a procura por emprego estão em equilíbrio, ou seja, com a economia em estado de equilíbrio de pleno emprego.

O desemprego friccional é causado por dificuldades de equilíbrio de mercado. Em cada momento existe sempre um certo número de pessoas nesta situação: querem trabalhar (por isso estão desempregadas voluntariamente) e há emprego para elas, mas ainda não o encontraram. A causa principal reside nas imperfeições do mecanismo de ajustamento do mercado de trabalho, principalmente por falta de informação e desencontro entre os postos de trabalho e dos trabalhadores (problemas de obtenção de habitação).

Já o desemprego involuntário ou estrutural trata-se da situação em que há falta absoluta de postos de trabalho para as pessoas que queiram trabalhar pelo salário de mercado.

Por esse salário as pessoas estão dispostas a trabalhar e não trabalham porque não encontram emprego, e não encontram emprego porque não há. Este tipo de desemprego resulta das mudanças da estrutura da economia, por insuficiência da procura de bens e serviços, por exemplo, o surgimento de bens substitutos, e por insuficiência de investimento na combinação de factores produtivos, aqui enquadra-se o desemprego causado pelas novas tecnologias, como a informática e a robotização.

Para minimizar os efeitos do desemprego, o recurso tem sido o subemprego, que é um artifício que as pessoas encontram para obterem algum rendimento (normalmente no mercado informal), enquanto as curvas da oferta de força de trabalho (os trabalhadores) e da procura de força de trabalho (as empresas) não se cruzam. E foi o que

Domingos Adão, o filho do mais velho Adão Domingos, fez, ajustou-se às condições do mercado. E nisto reside o dilema do economista, quando pensa ter o exclusivo da solução vem a Kitanda (e os seus operadores) e ajustam-se às novas condições descativando a cláusula ceteris paribus (todo o resto constante).

Em se tratando de economia todos são especialistas, até os economistas, haja em vista a sua relação intrínseca com as questões da sobrevivência humana. Se se tratasse de abordagem gravitacional em torno da Teoria Geral da Relatividade, talvez poucos debitariam o seu palpite, porque no espaço-tempo curso,os efeitos da gravitação são integrados. (jornaldeeconomia)

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