Carta aberta de uma leitora ao Ministro da Justiça e dos Direitos Humanos

(Getty Images)

Caro Dr. Rui Mangueira,

Li a notícia que diz que todo e qualquer tipo de aborto será punido. No princípio achei que essa lei era aplicada num país de primeiro mundo com saneamento básico, com ensino gratuito em escolas com água e luz para todas as crianças. Um daqueles países em que as grávidas têm acompanhamento durante a gestação e no pós-parto. Onde existem sempre vacinas e os pais não estão preocupados em pedinchar a quem possa trazer da terra dos outros. Onde as famílias com filhos recebem abonos, onde as zungueiras não se prostituem com os filhos amarrados nas costas e elas de quatro que nem animais irracionais. Pensei que essa lei estava a ser emitida num país onde as jovens conseguem estudar e ter uma vida digna sem um papoite/Empresario/general a lhes ajudar em troca de conforto sexual. Países esses onde as crianças não morrem de cólera. Vendo bem poderia estar aqui a fazer mais enumerações mas vou parar porque acho que tudo o que ultrapassa uma folha A4 é desperdício de papel (estou a partir do princípio que vai imprimir para ler e reler).

Se há país onde as mulheres não têm motivos para festejar o 8 de Março, esse país é o nosso. Agora descubro que até os meus ovários são controlados por homens. Será que os homens que engravidam essas mulheres vão ser obrigados a sustentar os filhos? Vão ser pais presentes? Provavelmente não porque têm tantas mulheres que acabam por ser elas a fazer ambos os papéis. E uma lei a castigar esses homens? Isso é que era.

Quando os europeus começarem a vir a nossa terra parir os filhos, fazer compras, tratamentos de saúde, check-up, inscrever os filhos na escola, pedir asilo, aí sim faz sentido mulheres jovens e em idade reprodutiva sentarem para decidir como lidar com os abortos. Até lá por favor resolvam só os nossos problemas básicos (água, luz, saúde, educação, salários dignos para não termos de ser conforto sexual dos endinheirados).

É uma bênção engravidar e parir com segurança na terra do outro. Assim como abortar em segurança sempre que se justifique.

Quanto mais vejo mais saudades tenho do tempo em que dormia ao som da bala debaixo da cama. Nesse tempo eu tinha sonhos e acreditava num futuro melhor e mais justo para todos os angolanos e em especial para as angolanas.

Sem mais assunto de momento,

Uma angolana que tem de viver na terra do outro porque não quer sobreviver na terra dela.

(Artigo enviado a redacção do Portal de Angola com pedido de publicação)

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