Manuel Vitoriano Sumbula: “Crescimento da economia está nas bebidas”

Manuel Victoriano Sumbula diz que a indústria de bebidas é das que mais se desenvolveu nos últimos dez anos. (Foto: D.R.)

O sector cresce 3 por cento ao ano e é responsável por cerca de 14 mil empregos directos e 45 mil indirectos num universo de 40 empresas a operar.

A indústria angolana de bebidas contribui com 4 por cento no produto interno bruto (PIB), segundo números do Instituto Nacional de Estatística (INE). Antes da Independência, a participação deste sector chegou a ser de 20 por cento e nos países que têm a industrialização como suporte dos processos de diversificação económica o seu peso relativo é de 25 por cento.

É esta meta que a Associação das Indústrias de Bebida de Angola (AIBA) quer atingir a curto e médio prazo, de acordo com o seu presidente, Manuel Sumbula.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal de Economia & Finanças, o gestor revela que a capacidade instalada desta indústria nacional é cerca de 70 por cento superior ao consumo total, que se estima ter sido de 2.679 milhões de litros durante 2014, tendo aumentado nos últimos dois anos, fruto da visão estratégica para o sector e com a exportação à vista.

Como se caracteriza hoje o sector de bebidas em Angola?

A indústria nacional de bebidas é das que mais se desenvolveu nas últimas décadas e tem condições para se tornar no segundo motor da economia angolana, a seguir ao sector petrolífero. O desenvolvimento passa, entre outras medidas, pela produção local de matérias-primas e de embalagens, pois há todo um leque de valências e especifica- ções que a maioria das pessoas não imagina: paletes, latas, as caricas, as rolhas, os rótulos, as tintas para os rótulos, enfim, um avanço grande, mas precisamos de mais, para igualar o nível geral da indústria, que ainda são importadas em quantidades que nos deixam dependentes.

Esta situação, com a crise cambial, tem provocado quebras na produção, levando a que as fábricas repensem linhas de produção e, consequentemente, a ter que despedir trabalhadores, mas o II semestre de 2016 representou um ponto de viragem, demonstrando que o mercado interno é maduro e exigente, com uma procura a subir exponencialmente, levando a um aumento da laboração para ir ao encontro dos pedidos. Durante uma entrevista apontou que a indústria de bebidas contribuiu com 4 por cento no produto interno bruto (PIB) até ao ano passado.

Com a crise económica e financeira que se regista este indicador poderá manter-se?

A indústria angolana contribui com quatro por cento no PIB, segundo números do INE. Antes da independência, a participação deste sector chegou a ser de 20 por cento e, nos países que têm a industrialização como suporte dos processos de diversificação económica, o seu peso relativo é de 25 por cento.

É esta a meta que queremos ajudar a atingir. Em 2016 tivemos claramente dois semestres com comportamentos diferentes. O primeiro, que espelhava o que 2015 vinha anunciando e que se revelou preocupante, com linhas de produção a terem que ser encerradas e trabalhadores a serem dispensados.

No segundo semestre, fruto já da sensibilização do Executivo, o sector viu atenuada ligeiramente a grave crise dos recursos cambiais no que tocava à matéria-prima que tinha que ser importada e o mercado, por razões endémicas, começou a consumir mais, exigindo mais produção, reabrindo linhas e levando ao aumento da contratação.

Ainda é cedo para responder se este indicador se manterá, pois o verdadeiro fecho de números só ocorrerá em Março/Abril, mas posso adiantar que o cenário que 2015 nos legou, inverteu-se seria e positivamente.

Nesta altura qual é a capacidade instalada de produção de bebidas no país? O sector cresce três por cento ao ano e é responsável por cerca de 14 mil postos de trabalho directos e 45 mil indirectos. O país tem mais de 40 empresas de bebidas entre cerveja, água e refrigerantes, sumos e néctares, vinhos e espirituosas, bem como embalagens, as quantidades produzidas já respondem às necessidades do mercado (três mil milhões de litros por ano).

A capacidade instalada é de 4.580 milhões de litros por ano. Esta capacidade permite abastecer as necessidades do mercado nacional e exportar, tornando-se numa fonte de rendimento nacional.

A produção nacional de bebidas já satisfaz o mercado nacional?

A capacidade instalada desta indústria nacional é cerca de 70 por cento superior ao consumo total, que se estima ter sido de 2.679 milhões de litros durante 2014.

Aumentou nestes dois últimos anos, fruto de se manter uma visão estratégica para o sector e com a exportação à vista. Angola, no sector das bebidas, satisfaz o mercado nacional e tem capacidade para exportar. Para nós, é um orgulho nacional, pois deve sê-lo para todos.

Quantas empresas estão registadas pela Associação de Indústrias de Bebidas de Angola (AIBA)?

A AIBA começou em 2014, com 12 membros fundadores, e logo após a sua proclamação esse número subiu para 22. Hoje, somos 33 empresas associadas e o nosso objectivo que representa já 90 por cento das empresas do sector, é termos os 100 por cento das empresas como associadas.

O mercado externo já recebe produção de bebida feita no país?

Recebe uma quota residual. Faz parte de uma política sectorial de exportação esta aproximação. Estamos a introduzir produtos em alguns mercados, não com o objectivo de fazer dinheiro, pois os mercados externos são altamente competitivos, mas para sermos, nesta altura, embaixadores de produtos “Made in Angola”, observando as reacções dos consumidores, mas queremos ser um sector com uma vertente de exportação forte e rentável, uma vez termos produto de qualidade.

Quais são as principais dificuldades com que o sector se debate nesta altura?

Temos dificuldades em matérias-primas e paralelamente a questão da moeda estrangeira para honrar os compromissos com os fornecedores e que abarca salários, peças sobressalentes, assistência técnica e naturalmente matéria para laborar, que começa a ter caminhos alternativos, fruto do compromisso do Executivo que reconhece ser este um sector desenvolvido que aposta no investimento nacional e nas pessoas.

Como é que vê o surgimento de novas fábricas, como é o caso da cerveja Tigra, Bela e Luandina, esta última que entra para o mercado ainda este ano?

Com um sentimento empresarial de orgulho. As novas fábricas e os novos produtos mostram que efectivamente este é um sector que estabeleceu uma estratégia de médio, longo prazo e que está a cumprir as metas e os objectivos, sem se deixar levar pelo ambiente psicológico dos revezes actuais.

O espírito empresarial não analisa o momento, mas uma série de factores e contribui para que a economia angolana encontre caminhos alternativos para crescer mais, melhor e de forma mais forte.

A abertura de fábricas, num contexto conservador, nunca existiria, mas se todos pensarmos assim, a nossa economia, como todas as economias, tenderiam para a extinção. E o mercado angolano é um mercado exigente, maduro e sobretudo um reflexo da Angola moderna.

Acha que a redução de importação de bebidas pode forçar ainda mais a entrada de investimentos estrangeiros no sector?

Não gosto da palavra forçar. Mas espero dos investidores, sejam nacionais, sejam estrangeiros, que olhem para esta nossa economia, analisem os números e sobretudo as necessidades e invistam, porque vale a pena.

A economia precisa de investidores comprometidos, e quem investir terá seguramente retornos. Investidores que ganhem é sinónimo de maior arrecadação tributária, pois surgem mais empregos, economia mais forte e sã. Ganhamos todos: o país, os empresários, mas sobretudo os consumidores.

Quais são os projectos da associação a fim de tornar o sector mais competitivo, sobretudo a nível da África Austral?

Gestor considera que a economia precisa de investidores comprometidos e que acreditem no retorno do seu capital. (Foto: D.R.)

A concorrência que se adivinha no âmbito da SADC, quanto à atracção do investimento estrangeiro, contribui ainda mais para justificar o esforço. Os países da região que não reunirem condições satisfatórias para a localização industrial acabarão, certamente, marginalizados, e nós estamos muito bem posicionados a vários níveis para sermos um pólo de exportação na SADC.

Temos também condições para exportar para a Europa, fruto dos canais privilegiados – laços políticos e culturais – com Portugal. A AIBA realizou recentemente uma visita de constatação em algumas fábricas do sector.

Que constrangimentos encontrou nelas e quais as medidas que foram tomadas?

As visitas tiveram uma importância muito grande, pois mostraram a Angola e aos empresários estrangeiros o que a AIBA sabe do seu sector: a grandeza, a aposta no futuro, a certeza de que somos uma das maiores forças empregadoras, que apostamos na formação das pessoas, no desenvolvimento local onde nos inserimos e que, em termos macro-económicos, somos um sector com um potencial imenso ainda por explorar.

A importância desta visita assenta no facto de termos tido a oportunidade de mostrar a todos, além da visão empresarial, a realidade. Os constrangimentos mais óbvios, porque qualquer empresário gostaria de viver num cenário ideal, são: o cambial, as matérias-primas importadas e algum incentivo à exportação e mesmo algum reconhecimento ao sector nacional via pauta aduaneira.

Mas há divisas para suportar o sector?

Estamos a ter o apoio do Executivo numa concertação muito útil de certificação dos associados, com vista a constatar os números de colaboradores, as necessidades de matéria-prima e a produção anual.

No que toca à matéria-prima, o sector está a visionar um “cluster” de produção nacional faseada, para diminuição da dependência de mercados estrangeiros e no que toca à pauta aduaneira, longe do proteccionismo, apenas gostávamos que se valorizasse o que de bom se produz no país, não facilitando a importação que coloca esses produtos ao mesmo nível de valores dos nacionais.

Mas estas visitas saldaram-se num êxito, sobretudo, num êxito nacional, pois é um motivo de satisfação para todos os angolanos sentirem que a sua economia está, neste sector, ao nível do que melhor se faz pelo mundo.

NÚMEROS DA AIBA

40 FÁBRICAS actuam no país nas categorias de cervejas, refrigerantes, sumos, águas de mesa, vinho e bebidas espirituosas e apelam o desenvolvimento dos sectores adjacentes que produzam latas, rótulos, embalagens e outros.

14 MIL POSTOS DE TRABALHO directos e 42.000 indirectos estão criados na indústria de bebidas que se afirma como sendo uma das mais desenvolvidas no país em termos de capacidade de produção e desenvolvimento técnico profissional nas diversas áreas.

4.430 MILHÕES DE LITROS corresponde a capacidade instalada nas fábricas do país nas seis principais categorias de bebidas e é cerca de 40 por cento superior à totalidade do consumo nacional tendo aumentado nos últimos dois anos fruto de uma visão estratégica.

2.628 MILHÕES DE LITROS é o consumo total no país graças à implementação de um sistema de quotas de importação para as categorias, cuja produção já satisfaz a procura aliado às soluções específicas, para o financiamento na indústria que se afirma competitiva.

33 EMPRESAS ASSOCIADAS é o número controlado pela Associação das Indústrias de Bebida de Angola (AIBA), constituída em Outubro de 2014, em Luanda, por inciativa de um conjunto de 12 produtores de bebida com o desafio de apoiar o sector no país. (jornaldeeconomia)

 

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