Guilherme Mogas: Trirumo tem na forja primeira fábrica de alumínio do país “Temos estudos de viabilidade para fazer fábrica de produção local”

(Foto: D.R.)

A Trirumo, empresa vocacionada no fabrico e comercialização de sistemas para caixilharia de alumínio, tem em carteira a construção da primeira fábrica de alumínio do país. A revelação é do seu sócio-gerente, Guilherme Mogas, em declarações a Rádio Mais, no espaço Grande Entrevista.

Guilherme Mogas, gestor da empresa líder do mercado de sistemas caixilharia de alumínios desde 1993, fala ainda, durante a entrevista, dos seus 20 anos de rádio e do seu lado inventor.

A Trirumo assume-se como líder do mercado de sistemas de caixilharia de alumínio em Angola. Como sustenta isso?

Somos os mais antigos, estamos no mercado há vinte e quatro anos. Essa nossa aventura no alumínio começou há vinte e quatro anos, depois de eu ter feito uma aventura, de 20 anos, na Rádio em Angola. Por isso que querem falar comigo sobre isso também. Há 24 anos começamos esse trajecto pelo alumínio, começando por montar um armazém de venda de alumínio. Tive uma curta passagem na serralharia de alumínio, mal saí da Rádio Nacional, fui convidado por uma pessoas expert em alumínio e montamos a primeira serralharia de alumínio, no pós independência que se chamava SERAL. Depois de dois anos parámos, eu e o meu sócio.

Como surge a Trirumo?

Aprendi um bocadinho sobre alumínio com o meu sócio. Quando montamos a Trirumo, dedicámonos ao alumínio, mas na vertente de matérias-primas para serralheiros. Quando tive a experiência da serralharia, uma das principais dificuldades que enfrentávamos era ter as matérias-primas para trabalhar. E aí vi uma oportunidade de negócio, para colmatar essa lacuna. E assim surgiu a Trirumo. Fomos dando instruções e formatando outras serralharia que foram abrindo ao longo dos tempos e nós sempre a fornecer os perfis de alumínio e os acessórios.

Como está estruturada a Trirumo? Agora é um grupo, não é?

A Trirumo começou em 1993, com um armazém só de alumínio, mas depois começamos a ver a necessidade de potencializar a gestão de stok e que poderíamos montar uma lacagem (pintura à pó dos perfis de alumínio) em Angola, que foi inaugurada em 2002, em Viana. Fizemos outra empresa para essa activdade, que passou-se a designar Tri-Alumínios. Com um único produto, que era o alumínio bruto, conseguíamos fornecer alumínio lacado das diversas cores, e foi o primeiro passo. O segundo… Mais tarde, como há outros tratamentos de perfis que não são lacados, que são os adonizados, resolvemos montar também anodizado, também em Viana. Isto já foi em 2006. Começamos a ter possibilidade de fornecer os produtos só com matéria-prima, que era o perfil em bruto, vários tratamentos, de acordo com as exigências dos arquitectos ou mestres-de-obras, a cor que mais desejavam. Aí fizemos uma diferença, em relação às pessoas que continuavam a importar. Conseguíamos em poucas horas, fornecer o que os clientes pediam.

Estamos a falar de um mercado onde o alumínio não é fabricado localmente. Como é possível manter o negócio, sobretudo nesta fase de crise cambial?

Normalmente importávamos o alumínio das fábricas portuguesas e os outros componentes químicos que participam nessa indústria de outros mercados externos. Acrescentávamos esse valor e fazíamos a comercialização, já do sistema todo. Juntávamos a isso as borrachas, os parafusos, as fechaduras e todo o resto material acessório, necessários para a produção de uma porta, uma janela, uma divisória ou fachada, e a central de vendas era a Trirumo. A seguir ao fim do conflito armado, o país transformou-se naquilo que se convencionou chamar “canteiro de obras”.

Qual é a capacidade que a Trirumo dispõe para responder à demanda do mercado?

A capacidade de resposta, de acordo com essa realidade que focou, de Angola ter sido transformada no canteiro de obras, como foi dito pelo Presidente da República, de facto isso veio a suceder, e fomos desenvolvendo a nossa capacidade de acordo com a demanda do momento. É por isso que depois da fábrica que montamos em Viana, montamos outra na Catumbela, abrimos vários armazéns. Só tínhamos um, agora temos quatro. E temos tendência em abrir mais unidades industriais. Quando fizemos a primeira fábrica em 2002, toda a gente dizia que devíamos estar malucos, porque já exige uma certa tecnologia para se fazer essa indústria. Mesmo os nossos fornecedores de Portugal questionavam da nossa capacidade técnica de fazer essa fábrica. Inicialmente tivemos alguns constrangimentos, mas demos à volta com os meios locais existentes na altura.

Que são os principais clientes da Trirumo?

O principal cliente é o serralheiro. E os serralheiros vão desde o biscateiro aos mais sofisticados.

Que engenharia o senhor usa para contornar os constrangimentos decorrentes da crise cambial, dado que grande parte do material que usa é importado?

Como diz-se: “nos tempos das avacás gordas” apostamos em Angola e na nossa empresa e fomos crescendo. Quando a crise apareceu tínhamos em armazém cerca de 500 a 700 toneladas de alumínio para vender. Só isso é uma grande almofada. Portanto, não somos daqueles empresários que no fim do ano fazem a divisão do lucro e levam tudo das empresas. Foi como dinheiro ganho que reinvestimos e nos transformamos nessa empresa com um certo significado no contexto angolano. Por um lado por isso, tínhamos reservas, por outro lado, tínhamos a idoneidade e prestígio quer dos nossos fornecedores quer dos nossos colaboradores.

Teve de despedir algum trabalhador por força da crise?

No total, temos cerca de 200 trabalhadores directos. A nossa grande preocupação não são esses, são principalmente os empregos indirectos que a Trirumo gera. Como sabe, trabalhamos com dezenas de serralharias e essa é a nossa grande preocupação. Em termos de consciência social temos de ter sempre isso presente: ao não termos material, podemos provocar a derrocadas dessas serralharias e com isso grande índice de desemprego. Tirando um ou outro reajuste que fizemos, directamente não tivemos uma redução muito grande de postos de trabalho.

A concorrência preocupa-o?

Já tivemos muitos desafios. Muitos players que diziam que nos iam derrubar, mas sobrevivemos e estamos aqui, mantemos a nossa grandeza, com alguns constrangimentos, mas a nossa empresa foi rentável nesses dois anos de crise e não temos com que nos queixar.

Que diferença faria a existência de uma fábrica de alumínio no país?

Temos um projecto aprovado pelo Ministério da Indústria, temos terreno e um mercado. É nessa direcção que segue o desenvolvimento das empresas. É bom inventar, mas é bom também ouvir as experiências dos outros países. Tenho muita curiosidade, sempre que me desloco aos outros países, saber qual foi a história do alumínio nesses países. E é coincidente com a nossa história. Começaram de jusante a montante. Estamos no caminho certo. Temos um projecto, só não avançamos porque achamos que não era oportuno porque vivemos dos nossos próprios lucros.

Não gostamos de ficar a dever aos bancos, temos uma postura de honestidade que não nos permite dar um passo maior que a perna. Temos estudos de viabilidade para fazer uma fábrica de produção local e nesses estudos, porque não há que inventar coisas, achamos que não estávamos em condições em termos de receptividade das tonelagens mínimas de uma fábrica, senão ficamos com dificuldades de rentabilizar economicamente as unidades. Quando estive na rádio, inauguramos um centro infantil e foi um dia de muita euforia, foi um dia de música. No discurso que fiz disse: “meus senhores, estamos aqui todos alegres, mas o problema começa agora. Temos sempre a ilusão que os problemas acabam com as inaugurações. Os problemas começam com as inaugurações”. Portanto, uma unidade fabril dessas apresenta um tipo de problema que é o da montagem e das soluções técnicas, mas o problema da rentabilidade económica começa a com a inauguração da unidade. É essa visão do futuro que é preciso ser feita.

Qual é o horizonte temporal, à luz de tudo o que apresentou?

Estamos num momento atípico de Angola, temos de ter todas as cautelas. Podemos montar uma unidade industrial muito bonitinha, tecnologicamente bem feitinha, mas depois não temos a matéria-prima para pôr a fábrica a funcionar.

Podemos considerar que a crise travou o avanço do projecto?

Fizemos um compasso de espera. Ou seja, estamos à espera de ver como isso se vai desenvolver. Porque não tem cabimento, num altura em que está-se a fechar montes de unidades industriais e comerciais e nós estarmos a abrir uma fábrica. Não podemos fazer o papel daquela mãe que vai ver o filho desfilar na tropa e diz: “o meu filho é único que vai com o passo certo”, e o filho dela é que ia com o passo errado. Temos de ver bem e analisar bem os projectos futuros. Já demonstramos que somos atrevidos e ousados, mas não podemos ter opções inconscientes.

Quais são os grandes desafios da Trirumo para os próximos cincos anos?

Manter essa inovação que temos tido até agora, ter os clientes satisfeitos e continuarmos a ser ousados, mas não suicidas.

A sua outra faceta está ligada a rádio. Como o senhor saiu da rádio para o alumínio?

É uma boa pergunta, essa. E é uma história com E e não com H. Algures num semáforo, na cidade de Luanda, estava eu à espera que passasse para o verde e estacionou um carro ao lado do meu, de uma pessoa amiga e disse: “sei que vais sair da rádio”, ainda nem tinha saído da rádio. –“Quero falar contigo, podíamos montar uma serralharia de alumínio”. Ele sim era especialista em alumínio. Nos sentamos e foi assim que me dediquei ao alumínio.

Estamos a falar de que ano?

Isso entre 1991 e 92, quando saí da Rádio Nacional de Angola.

Como é que vai parar à rádio?

Por necessidade material. Eu era estudante na escola industrial de Luanda, tinha como colegas, algumas pessoas famosas aqui da nossa sociedade, como Paulo Kassoma, Nandó, Nito Teixeira, Lucrécio de Jesus e de Brito Martins da Cruz e de muitos outros. Não era de uma família abastada e tinha dificuldades financeiras, então de arranjei uma maneira, indicado pelo Lucrécio, – que estava a fazer biscato na rádio, partilhámos essa necessidade e foi assim que entrei para a rádio, para continuar a custear os meus estudos. E entrei como sonoplasta, vulgo DJ, hoje.

Quando ouve a rádio hoje o que mais lhe agrada e o que lhe faz ruído aos ouvidos?

Depende da emissora que estiver a ouvir. Oiço tudo, sou um maníaco, porque durante anos tinha um rádio portátil que andava comigo para todo o lado e sabia as frequências todas das rádios. Ainda sei, até hoje as frequências todas da Rádio Nacional e daquelas que estão a nascer. Portanto, há umas que me agradam e outras que me desagradam mesmo.

Fale-nos do seu lado inventor…

Há muitas coisas do pós independência que se iniciaram na Rádio Nacional de Angola. Recordo, por exemplo, o ping-pong. Se o pingpong tem a massificação que tem hoje em Angola, os primeiros campeonatos foram feitos no hall da Rádio Nacional. O xadrez idem. Tínhamos campeonatos permanentes de xadrez na Rádio Nacional, principalmente nos dias 5 de outubro, dia da Rádio. Como fiz parte da associação portuguesa de inventores, antes do 25 de Abril, também tive a obrigação moral de fazer a passagem desse testemunho. Incentivei a criação de um núcleo de inventores no laboratório da Rádio Nacional, que nasceram de lá várias pessoas. O Hélder Silva foi fruto disso.

Sobre as suas patentes…

Sobre patentes minhas são um bocado complicadas. Ainda neste momento tenho uma patente com a universidade de Coimbra para desenvolver protótipos de combate a incêndios, uma nova abordagem, que poderá ser uma revolução no apagar de incêndio, mas estamos a trabalhar numa correia, porque entre registar patentes e desenvolver as várias nuances nos estudos é uma luta contra o tempo para não sermos ultrapassados. Porque as patentes demoram muito tempo a serem registadas. E até lá, tivemos de afazer uma série de compromissos de sigilo com a universidade de Coimbra, para que não divulgasse e que não fizesse vazar, mas é muito difícil, a equipa é muito numerosa, são os melhores alunos da universidade que estão a trabalhar nisso.

Há 35 anos o senhor fez uma descoberta sobre sistemas anti-colisão…

Quando há 35 anos escrevi isso as pessoas não acreditavam que iria acontecer isso, mas foi um raciocínio muito simples. Quando nos aproximamos daquelas portas que abrem automaticamente, é como utilizar isso, mas com outros fins. Tive essa visão há 35 anos e registei. Mas as patentes têm uma vigência e depois caem no domínio público. E essa caiu no domínio público. O carro que a minha filha usa, em Portugal, tem esse sistema, que se chama full cruise control. Põe-se a velocidade e o carro na autoestrada vai àquela velocidade e se sente um obstáculo reduz a velocidade e evite uma eventual colisão.

Quando passa o obstáculo, aumenta para a velocidade anterior. Quando pensei isso disseram- me que pensava coisas irrealizáveis. Na altura era capaz de ser irrealizável, mas agora… A outra foi do anti encadeamento. Nos carros que tem lá um pequeno A, no interruptor das luzes. Alguém teve de inventar esse A do automático. Tive a visão que mais tarde ou mais cedo ia haver essa comutação automática dos faróis de máximos para mínimos e imaginei isso e tem perto de 40 anos essa patente. Ganhei uma medalha de ouro com essa patente num salão de automóvel. – A tal primeira medalha de ouro ganha por Angola no pós-independência. Agora, tirar proveito disso, estou a ter problema hoje. Já comecei a registar patentes em 1973. (opais)

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