Em Hollywood, o maior golpe político veio do Irão

O Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por recebido por Firouz Naderi e Asghar Farhadi em nome de Asghar Farhadi (Observdor)

As indiretas e as piadas políticas não faltaram na 89ª cerimónia dos Óscares, que este ano foi apresentada por Jimmy Kimmel. Sem pisar o risco, o comediante fez questão de enviar algumas mensagens a Donald Trump (algumas delas mais do que diretamente), numa noite que acabou por ficar marcada por outros motivos — as mensagens de inclusão, deixadas por uma comunidade que pretende ser cada vez mais inclusiva, e o erro crasso de Warren Beatty, que levou a que o prémio de Melhor Filme fosse entregue ao elenco errado.
Farhadi: “A minha ausência é por respeito pelas pessoas do meu país”

Depois do discurso emocionante da atriz Viola Davis (que falou da importância de contar as histórias das “pessoas que sonharam alto e que nunca viram esses sonhos realizarem-se, das pessoas que amaram”), vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária, o galardão de Melhor Filme em Língua Estrangeira voltou a ser entregue ao iraniano Asghar Farhadi, que recebeu o mesmo prémio em 2012 com o filme “Uma Separação”.

O realizador de “O Vendedor” escolheu não comparecer na cerimónia “ao lado dos outros membros da comunidade cinematográfica” por “respeito pelas pessoas” do seu país e “dos outros seis que foram desrespeitados por uma lei desumana que proíbe a entrada de imigrantes nos Estados Unidos da América”. O seu discurso foi lido parcialmente pela astronauta irano-americana Anousheh Ansari.

“A minha ausência é por respeito pelas pessoas do meu país e pelas dos outros seis países que foram desrespeitadas por uma lei desumana que proíbe a entrada de imigrantes nos Estados Unidos da América. Divisões criam medo e guerras. Os realizadores podem usar as câmaras para quebrar estereótipos, para criar a empatia que precisamos”, referia o texto, disponível na íntegra (em inglês) aqui.

A astronauta surgiu em palco acompanhada pelo antigo cientista da NASA, Firouz Naderi, também de ascendência iraniana. Anousheh Ansari, que tinha deixado claro que não pretendia participar na cerimónia por causa das novas medidas anti-imigração de Donald Trump, já tinha anunciado que pretendia ser representado por cientistas irano-americanos.
Logo no arranque

A primeira indireta chegou logo na abertura do evento, depois de Justin Timberlake tem pisado o palco para cantar a música “Can’t Stop the Feeling!”, do filme de animação “Trolls” (nomeada para um Óscar). Admitindo que nunca tinha participado numa cerimónia dos Óscares, Kimmel começou por dizer que a entrega dos prémios da Academia estava a ser transmitida por mais de 200 países, que “agora nos odeiam”.

“O país está divido e precisamos de fazer qualquer coisa para nos unirmos”, afirmou o apresentador, deixando bem claro que não será ele o homem que irá “unir este país”. “Só há um ‘Braveheart’ nesta sala e ele também não nos vai unir”, disse, numa referência ao filme de 1995 realizado por Mel Gibson, que também tinha uma longa-metragem a concurso este domingo, “O Herói de Hacksaw Ridge” (incluindo na categoria de Melhor Realizador). “Estás ótimo, acho que a Cientologia te está a fazer bem!”, disse ainda Jimmy Kimmel, olhando diretamente para ele.

Depois de lançar uma piada a Matt Damon (com quem tem uma picardia há já vários anos), o apresentador pediu à audiência uma salva de palmas para Meryl Streep — porque “ela merece”. Em janeiro, Donald Trump acusou Streep — que estava nomeada este domingo para o 20º Óscar da sua carreira, que acabou por perder para Emma Stone — de ser sobrevalorizada depois do seu discurso nos Globos de Ouro, no qual defendeu que “quando alguém usa a sua posição de poder para amesquinhar os outros, todos perdemos”.

Apesar das indiretas lançadas por Kimmel, Donald Trump manteve-se em silêncio durante toda a noite (talvez por Matt Damon ter sido o verdadeiro alvo do comediante, com direito a ser calado pela orquestra e tudo). Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, já tinha avisado na quinta-feira que o Presidente não ia assistir à cerimónia porque tinha um jantar de governadores este domingo em Washington. E foi exatamente sobre esse jantar que Trump escreveu pela última vez no Twitter: “Grande jantar com Governadores esta noite em Washington. Muito para discutir, incluindo Saúde”, diz o tweet.

Preocupado com o Presidente norte-americano, Kimmel decidiu mandar-lhe uma mensagem. Em direto. Depois de lhe perguntar no Twitter se estava acordado, Jimmy Kimmel enivou-lhe a hashtag #Merylsayshi, que é como quem diz: “Meryl [Streep] diz olá”. Os dois tweets ganharam vários milhares de likes em apenas alguns segundos e houve até quem pedisse que a hashtag se tornasse no “assunto do momento”.

Uma cerimónia com (quase) todos e para todos

O primeiro prémio foi para Mahershala Ali, ator secundário em “Moonlight” que falou de apertar botões, da família e dos professores maravilhosos que teve ao longo da vida. O ator foi um dos vários profissionais afro-americanos a serem galardoados durante a noite, numa cerimónia que começou a ser apelidada nas redes sociais como “so black” (“tão negra”).

E a inclusão e diversidade foram mesmo as palavras de ordem, com vários vencedores a dedicarem os seus prémios àqueles que nem sempre têm visibilidade. O maquilhador italiano Alessandro Bertolazzi, um dos três profissionais galardoados com o Óscar de Melhor Caracterização pelo filme “Esquadrão Suicida”, dedicou o galardão a “todos os imigrantes”. Erza Delman, diretor e produtor do documentário “O.J.: Made in America”, ergueu o Óscar de Melhor Documentário em honra das vítimas Nicole Brown Simpson, Ron Goldman e de todos outros que sentiram na pele o racismo e a violência policial.

O ator mexicano Gael García Bernal, que apresentou as categorias de Melhor Curta de Animação e de Melhor Filme de Animação ao lado de Hailee Steinfeld, fez questão de dizer que, enquanto imigrante, era contra qualquer tipo de muro “que pretende separar-nos”. Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney, que levaram para casa prémio o Melhor Argumento Adaptado por “Moonlight”, falaram da importância de apoiar aqueles que pensam que não têm apoio e prestaram tributo a todos os miúdos e miúdas “negros e castanhos e transgénero que não se conseguem ver”.

Já perto do final, e pouco tempo antes de anunciar erradamente o grande vencedor da noite (que acabaria por ser “Moonlight” e não “La La Land” como inicialmente divulgado), Warren Beatty elogiou os nove filmes nomeados e o respeito por eles mostrado em relação à diversidade. A produtora Adele Romanski — que foi apanhada de surpresa pela repentina mudança de vencedores –, disse esperar que “aqueles que se sentem marginalizados se inspirem” em “Moonlight”, vencedor do Óscar de Melhor Filme.
Presidente da Academia deixou mensagem de inclusão

Antes da categoria de Melhor Edição Sonora (que foi entregue a “Primeiro Encontro”), Jimmy Kimmel apresentou uma presidente “que acredita na Ciência e na Arte, uma coisa rara nos dias que correm”. Cheryl Boone Isaacs falou da Academia, “uma comunidade” com várias décadas de história, “global, cheia de contadores de histórias, que está a tornar-se mais inclusiva e mais diversificada a cada dia que passa”. “Fico contente por fazer parte desta mudança e ver a cara dos nomeados deste ano”, afirmou a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

“A arte não tem barreiras, não tem uma única língua e não pertence a uma única fé. A arte transcende isto tudo. E como resultado, todos os artistas estão unidos por uma ligação poderosa e permanente”, disse Cheryl Boone Isaacs. Referindo-se a todos os filmes nomeados que, independentemente do seu país de origem, a presidente deixou claro que todos falam do mesmo — “da condição humana, sofrimento e paixões que todos partilhamos”. “Essa é a magia dos filmes que celebramos esta noite.” (Observador)

por Rita Cipriano

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