Assim seria a vida nos exoplanetas recém descobertos

Vista justo acima da superfície de um dos planetas no sistema Trappist-1 (ElPais)

Olhos que vêem no infravermelho e árvores com folhas bermejas podem ser algumas das adaptações cerca de uma anã vermelha.

Após a descoberta do novo sistema solar em torno da estrela Trappist-1 é preciso responder várias perguntas para confirmar se possuem vida e saber se algum dia os seres humanos poderão analisá-la. Embora algumas dessas incógnitas poderiam ser resolvidas em poucos anos, outras exigem tecnologias que possivelmente demorarão séculos para estarem disponíveis.

Comparados com nosso sistema solar, os planetas de Trappist-1 estão muito mais perto entre si e de sua estrela. “O planeta mais distante da estrela, h, está mais ou menos a um décimo da distância entre o Sol e Mercúrio”, explica José Caballero, pesquisador do Centro de Astrobiologia, perto de Madrid. Os planetas estão tão próximos que da superfície de um seria possível apreciar as nuvens e outros acidentes geográficos do outro a olho nu, de acordo com a NASA.

A grande dúvida sobre os sete planetas terrestres é se têm atmosfera. Esse envoltório de gases é essencial para gerar o efeito estufa, atenuar as temperaturas e permitir a existência de água líquida. Também é um escudo para a perigosa radiação ultravioleta que domina neste tipo de estrelas, conhecidas como anãs vermelhas.

É provável que os planetas descobertos sempre mostrem a mesma face para sua estrela, como a Lua para a Terra. Isto faz com que sejam mundos em que é eternamente de dia em um hemisfério e noite no outro. As diferenças de temperaturas seriam brutais e haveria uma meteorologia dominada por fortes ventos do lado ensolarado para o escuro, informa a NASA em um comunicado. Essa situação pode ser favorável para a vida. “Em estudos anteriores foram descobertos planetas-olho, onde existe um grande oceano de água líquida na parte iluminada e gelo no resto da superfície”, diz Ignasi Ribas, especialista em exoplanetas do Instituto de Ciências do Espaço (IEEC-CSIC), em Barcelona. Além disso, “a atmosfera permitiria redistribuir o calor e a energia que chega da estrela”, acrescenta.

Para Ribas, a questão fundamental é se os planetas conservaram um pouco da água que continham em sua formação. A Trappist-1 foi formada há pouco mais de 500 milhões de anos e, no passado, emitia muito mais calor e radiação. Os três planetas do sistema que hoje estão na chamada zona “habitável” teriam alcançado temperatura de ebulição há milhões de anos. Apenas se parte dessa água não evaporou é que pode existir vida neles, afirma Ribas.

Em qualquer caso, os possíveis habitantes desses planetas seriam muito diferentes dos existentes na Terra. A luz de Trappist-1 é infravermelha, por isso, se a vida evoluiu, terão olhos capazes de ver no infravermelho, folhas vermelhas para fazer fotossíntese e outras adaptações. “Os fótons da estrela têm energia muito baixa, assim o metabolismo desses seres vivos teria que ser muito mais lento do que o nosso”, mas sua existência é possível, diz Caballero. Na Terra, por exemplo, há bacterioclorofilas que usam a luz em um comprimento de onda parecido com a emitida por Trappist-1.

A NASA já está analisando quatro dos planetas, incluindo os três habitáveis, com o telescópio espacial infravermelho Swift, que vai tentar captar, se algum deles tem traços de hidrogénio, o elemento dominante no envoltório de gigantes gasosos como Neptuno. Enquanto isso, o telescópio espacial James Webb, que será lançado no próximo ano, poderá procurar água, metano, ozónio e oxigénio, gases que indicariam a presença de uma atmosfera parecida com a da Terra. Para confirmar as observações será preciso esperar a construção da nova geração dos maiores telescópios do mundo na próxima década.

Muito mais difícil será viajar até este sistema solar. As tecnologias de propulsão usadas pelas sondas espaciais actuais são muito lentas. Por exemplo, as poucas sondas que alcançaram os limites do nosso sistema solar demorariam “aproximadamente 30.000 anos para chegar à estrela mais próxima”, que está a 4,5 anos-luz de distância, diz Caballero. A Trappist-1 está a 40 anos-luz, o que levaria cerca de 300.000 anos.

Os seres alienígenas são os mais abundantes?

Se olharmos para os números, os planetas como a Terra e os seres vivos que o habitam podem ser uma raridade. Na Via Láctea, nossa galáxia, três de cada quatro estrelas são anãs vermelhas como Trappist-1. Até agora três sistemas solares tinham sido descobertos com sete planetas e um total de 10 mundos habitáveis. A nova descoberta quebra todos os recordes pois abriga o maior número de mundos terrestres e contém três habitáveis, diz Ribas. Não é que esses sistemas sejam pouco comuns, é que só recentemente os seres humanos tiveram a tecnologia necessária para encontrá-los. “Estima-se que essas estrelas de pouca massa possuem em média dois planetas rochosos, o que faz com que esses mundos sejam os mais abundantes”, diz Ribas. De acordo com Caballero, “se há 100 biliões de estrelas na Via Láctea, é possível que exista 80 biliões de sistemas solares” como o que foi apresentado ontem. E se houver vida neles, esse tipo de biologia seria o mais comum na galáxia. (ElPais)

por Nuño Domínguez

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