Ressona? A radiofrequência pode tratar

(CCC)

O caminho começou por ser desimpedido com a ajuda do bisturi, mas hoje também se recorre à energia para cumprir essa tarefa. A radiofrequência é uma resposta para casos de roncopatia, ou seja, para quem ressona. A intenção mantém-se, seja com o bisturi ou com um elétrodo, um e outro são usados para desobstruir as vias aéreas superiores.

A radiofrequência é uma radiação que existe no espectro eletromagnético, gera calor com uma potência entre 10 e 18W e tem sido utilizada pela medicina nos últimos anos. A neurocirurgia, a urologia, a oftalmologia e a cardiologia, tal como a otorrinolaringologia, são algumas das especialidades médicas que recorrem a técnicas de tratamento com a aplicação desta energia. O tratamento da roncopatia é um dos exemplos de sucesso.

A aplicação da radiofrequência no tratamento do incómodo e nocivo ressonar é recomendada para os casos em que existe hipertrofia dos cornetos inferiores nasais, mas também no palato mole, base da língua e amígdalas palatinas. Através da indução de movimentos iónicos no tecido, a energia da radiofrequência produz um aumento do calor local, provocando uma lesão térmica que ocorre na mucosa profunda, sem alterar a superfície, mas cumprindo a sua missão de corrigir os obstáculos que obstroem as vias aéreas superiores e que provocam o ressonar.

Com uma energia que varia entre 400-500J e uma potência de 10 a 18W, a radiofrequência produz uma lesão térmica entre 2 a 4 mm, em torno do elétrodo. Contrariamente à cirurgia por laser ou eletrocauterização, que produzem temperaturas que podem chegar aos 800 graus centígrados, a radiofrequência utiliza uma potência bem menor e a temperatura gerada poderá chegar apenas aos 85 graus, contudo a desnaturalização dos tecidos acontece a 49,5 graus. Fatores que permitem que, neste tipo de intervenção, exista um maior controlo da lesão e um menor risco de destruição da mucosa adjacente ou necrose da arquitetura óssea do corneto. Secundariamente, o processo de cicatrização induz fibrose e retração da lesão, conduzindo por isso à diminuição do volume do obstáculo, melhorando as vias aéreas superiores.

A radiofrequência veio reduzir os riscos e/ou complicações cirúrgicas, bem como as sequelas pós-operatórias, não alterando, por exemplo, a mucosa nasal, nem, consequentemente, o transporte mucociliar. Por outro lado, nos doentes em que o obstáculo nasal se deve apenas à hipertrofia dos cornetos inferiores, o recurso à radiofrequência evita o desconfortável tamponamento nasal, uma vez que não há risco hemorrágico.

Genericamente, a radiofrequência é uma técnica bem tolerada e, em pacientes selecionados, pode ser aplicada apenas com anestesia local e em ambulatório. Contudo, o tratamento cirúrgico otorrinolaringológico é ainda uma opção para pacientes com síndroma de apneia/hipopneia obstrutiva do sono. É nosso entender que os procedimentos cirúrgicos devem ser indicados de forma criteriosa, baseando-se na gravidade da doença e nas alterações anatómicas das vias aéreas superiores e do esqueleto facial. (Centro Cirúrgico de Coimbra)

João Paulo Enes

(médico otorrinolaringologista)

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