OPEP põe preço do petróleo a subir

(Foto: D.R.)

A OPEP vai retirar do mercado 1,2 milhões de barris por dia. Outro dos maiores produtores, a Rússia, vai colaborar. O preço do barril de petróleo poderá subir cerca de USD 5 e, apesar do corte na produção, Angola irá ganhar USD 5,3 milhões diariamente. Um alívio para as contas orçamentais.

O preço do petróleo deverá de novo voltar a subir, não para níveis comparáveis com os de 2013, mas para valores acima de USD 50. Pelo menos. É o que resulta do acordo hoje obtido pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que decidiu retirar do mercado 1,2 milhões de barris por dia à sua produção actual.

O anúncio por parte dos membros da organização de que esta voltaria à política de ‘cortes’ na produção foi feito, no meio de surpresa geral, em Argel, ao final da tarde de 28 de Setembro, após o malogro das conversações de Doha, Qatar, em que Arábia Saudita e Rússia não se entenderam quanto a medidas que, do lado da oferta, estabilizassem o mercado da matéria-prima, com o preço a oscilar, desde o encontro de Argel, entre USD 45 e USD 50, descendo mesmo abaixo de USD 45, mas registando uma média de USD 49, o que significa que a simples possibilidade da concretização de cortes na produção foi interiorizada pelos investidores.

O resultado da reunião de hoje, também ele, constitui uma meia surpresa, já que a generalidade dos analistas via 50% de hipóteses num fracasso, face ao afastamento de posições entre a Arábia Saudita e o Irão, países rivais no Golfo. Por outro lado, o Iraque, o segundo maior produtor da organização, reivindicava o estatuto de excepção de que havia beneficiado durante o anterior período de vigência de um ‘tecto’ fixado à produção dos membros da organização.

Trata-se de uma excelente notícia para Angola, dado que os analistas estimam que o preço do barril de petróleo, com a decisão de hoje, deverá subir, pelo menos USD 5, passando para um patamar de USD 55 no início de 2017. O Orçamento Geral do Estado para 2017 inscreve como valor de referência da receita petrolífera a captar o valor de referência de USD 46, assumindo uma atitude optimista face a este ano, em que o preço de referência orçamental do barril de crude foi próximo de USD 40.

Ganho de USD 5,3 milhões E em que medida o corte afectará a produção angolana? Segundo as contas do especialista em petróleo José Oliveira, Angola vai ter de cortar cerca de 70 mil barris por dia, o que corresponde a abdicar de USD 3,2 milhões. Contudo, com o aumento do preço do barril em USD 5, no cômputo das contas, o país passa a facturar USD 8,5 milhões com os barris de crude produzidos diariamente. O ganho é de USD 5,3 milhões. José Oliveira acrescenta que nos primeiros 6 meses o mercado manter-se-á fornecido, mas, a partir daí recorrerá aos stocks. Entretanto a produção norte-americana de xisto retomará, ainda que a um ritmo moderado’.

Trata-se de uma decisão histórica por parte da OPEP, a que Angola já presidiu, e restitui, reconhecem os analistas, a credibilidade Á Á a organização, que alinhada pela estratégia saudita de largar o ‘regime de quotas’ a favor de uma ‘guerra de preços’ que vergasse os concorrentes com produções mais caras, designadamente os produtores não convencionais norte-americanos, que obtêm petróleo a partir da injecção de areia no xisto.

Que deverão voltar! As o número de produções de xisto nos Estados Unidos, após o embate da quebra brutal dos preços da commodity em Janeiro, tem vindo a subir desde então. Está aberta uma nova página no grande jogo do petróleo: poderá levar como título: ‘o gato e o rato’. Existe, entre produtores, um equilíbrio difícil. A OPEP está viva, é verdade, mas como encarará a necessidade de novos cortes?

Fortemente castigadas pela quebra dos preços, as economias dos produtores de petróleo ou desaceleraram fortemente ou entraram em crise, apresentando défices fiscais, níveis de dívida pública e um aumento dos preços preocupante. Um castigo que atingiu tanto os países mais vulneráveis como os mais ricos e poderosos. A Arábia Saudita viu o seu défice orçamental subir a 13%, o maior entre os 20 países mais ricos do mundo, e o défice fiscal russo condiciona o crescimento da economia do país.

Ainda por cima, constituindo o saldo de um orçamento bianual assente num preço do barril de petróleo de USD 40. Vladimir Putin declarou-se disponível para um acordo com a OPEP que reequilibrasse o mercado e acrescentou mesmo, no meio de tensas polémicas entre sauditas e iranianos que a organização reunia todas as condições para tomar medidas, já que se acordara no princípio de ‘corte na produção’ para fazer subir o preço.

Já os sauditas se mostraram renitentes até à hora da decisão. Recusaram comparecer a uma reunião com outros grandes produtores, como a Rússia, antes de ‘arrumar a casa’ no seio da OPEP e dirimiram com os iranianos uma guerra quanto ao nível do corte a fazer pelos iranianos. Os sauditas queriam inicialmente que estes se comprometessem a não produzir mais que 3,7 milhões por dia, um tanto abaixo da meta que o país pretende atingir após se libertar das sanções ocidentais: 4 milhões de barris. Os iranianos, no fim das negociações ficaram mais próximos do seu objectivo: 3,9 milhões.

Se os países produtores exteriores à OPEP retirarem 600 mil barris diariamente do mercado, no conjunto, a oferta ficará muito próximo da procura, apenas 200 mil barris. Até que ponto esta viragem na política dos países produtores fará o preço do petróleo recuperar? Uma pergunta que continua de difícil resposta.

– O presidente da OPEP, o ministro da Energia do Qatar, Mohammed bin Saleh al-Sada anuncia o acordo Se os cortes forem concretizados o mercado ficará perto do equilíbrio. (OPAIS)

Por: Luís Faria

 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA