Péssima notícia para Trump: latinos e negros votam em massa nos EUA

O candidato republicano à presidência americana, Donald Trump (Afp)

Os americanos negros e de origem latina estão comparecendo em massa às urnas para as eleições presidenciais, um sinal de alerta para o sonho de Donald Trump de chegar à Casa Branca.

O magnata nova-iorquino de 70 anos disse ao eleitorado afro-americano que “não tem nada a perder” com ele e afirmou que os hispânicos “amam” suas ideias. Mas uma votação esmagadora das minorias pode favorecer sua rival Hillary Clinton, de acordo com as pesquisas.

Para alguns o voto destes grupos é tanto a favor da democrata como contrário a Trump.

“Penso que vai ser um Hitler de 2016”, disse à AFP a activista democrata Adriana Martínez, uma venezuelana naturalizada há dois anos. A jovem de 26 anos compara a ascensão do magnata com a de Hugo Chávez, cujas políticas populistas a levaram, ao lado de sua mãe, a deixar seu país natal há 15 anos.

Martínez trabalha em Washington mas votou na Florida – muitos estados permitem a votação antes do dia da eleição. O estado é vital no quebra-cabeças do pleito de terça-feira e é o local onde os latinos representam 18% do eleitorado.

Na Florida, o comparecimento às urnas dos latinos (565.000) dobrou em relação a 2012 na votação antecipada, de acordo com cientistas políticos e com uma consultoria que bases de dados sobre eleitores, a Catalist, citada pelo canal CNN.

– Em Nevada, números “excepcionais” –

Em Nevada, onde 17,2% dos eleitores são hispânicos, a imprensa local regista longas filas de espera nas áreas latinas de Las Vegas, no que o director de campanha de Hillary Clinton, Robby Mook, chamou no sábado de números “excepcionais”.

“Há um efeito Trump na orientação partidária: os latinos estão rejeitando em sua grande maioria Donald Trump e o Partido Republicano, votando pelo Partido Democrata em índices mais elevados e comparecendo em peso às urnas”, disse à AFP Adrián Pantoja, analista da Latino Decisions, em referência às pesquisas.

Nunca tantos latinos – 27,3 milhões, quatro milhões a mais que em 2012; 12% do eleitorado nacional – estiveram registados para votar nos Estados Unidos, segundo o Pew Research Center (PRC).

Os analistas consideram que devem optar por Hillary Clinton, especialmente porque Trump acusou os imigrantes mexicanos sem documentos de serem estupradores e narcotraficantes, ao mesmo tempo que prometeu construir um muro e expulsar 11 milhões de pessoas que vivem clandestinamente nos Estados Unidos.

De acordo com uma pesquisa do PRC divulgada em 11 de outubro, 58% dos latinos registados para votar no país apoiam Clinton, contra apenas 19% favoráveis a Trump.

E uma elevada participação em estados como a Florida poderia catapultar uma vitória de Clinton em uma disputa apertada pela Casa Branca que mantém o mundo em suspense.

– Apelo de Obama –

Ao lado dos latinos, o voto dos negros foi fundamental nas duas vitórias de Barack Obama.

Mas quando a votação antecipada teve início há duas semanas nos Estados Unidos, a participação do eleitorado afro-americano era baixa.

Isto mudou, no entanto, depois que Obama e a primeira-dama Michelle fizeram apelos aos eleitores negros a favor de Clinton, que também recebeu o apoio em comícios de estrelas Beyoncé e Jay-Z.

“Nos últimos dias, vimos a participação dos negros explodir, com mais afro-americanos votando antes, pessoalmente, que em 2012”, disse à AFP Daniel Smith, professor da Universidade da Florida que registar a participação eleitoral.

Um total de 777.000 negros já votaram na Florida, de acordo com Smith.

Mas o presidente do Partido Republicano, Reince Priebus, rejeita qualquer tipo de projecção ao afirmar que “há limites no que o voto antecipado diz”.

– O gigante vai despertar? –

Apesar dos latinos representarem a principal minoria do país, o comparecimento do grupo às urnas é considerado historicamente baixo.

Alguns questionam se, ante o discurso anti-imigração de Trump, milhões de latinos se registaram para votar pela primeira vez ou pagaram pelo procedimento para obter a cidadania.

Sete anos depois da naturalização como americana, a guatemalteca Esperanza Cruz depositou seu primeiro voto na urna, parte pelo apoio de Hillary Clinton aos programas de ajuda a mães, parte pelo temor das deportações de Trump.

“Tenho medo. Eu já sou cidadã, mas as demais pessoas para onde irão?”, questiona em entrevista à AFP.

“Mas não existem estatísticas suficientes para projectar uma tendência nacional”, afirma Pantoja.

Um estudo divulgado em outubro pelo jornal USA Today observou 50 condados com as maiores populações de latinos em 10 estados chaves e detectou que o aumento do número de eleitores em 2016 reflecte apenas o aumento populacional.

“Há mais hispânicos a cada ano. Há uma taxa maior de aumento por causa de Trump? Não parece”, disse à AFP Mark Hugo López, director de pesquisas sobre latinos do PRC.

A pergunta que fica é se desafiarão a história e votarão em um nível acima do normal, de quase 13 milhões.

“Caso superem 15 milhões seria inusual e um efeito Trump”, conclui López. (Afp)

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