Nadir Tati busca inspiração nas musas angolanas para suas criações

Colecção da estilista Nadir Tati (Foto: Henri Celso)

Nadir Tati, uma criadora que se inspira, com frequência, na condição actual da mulher angolana, transportando toda uma história africana que passa por um processo de identidade e afirmação de um continente que acompanha cada vez mais o mundo, num processo de globalização, fala, em exclusivo à Angop, da moda, do dia-a-dia dos angolanos e da actual situação do país.

 colecção da Estilista Nadir Tati (Foto: Henri Celso)

colecção da Estilista Nadir Tati (Foto: Henri Celso)
Leia na íntegra a entrevista.

Por: Venceslau Mateus

Angop – Nadir, depois de ter feito furor no “Moda Lisboa”, surge agora com a colecção “Caminhos na Alma”. O que traz de novo nela?

Nadir Tati (NT) – “Caminhos da Alma” é uma colecção muito específica, porque, a cada ano que passa, me tenho tornado claramente numa pessoa mais atenta ao que ocorre ao redor de mim. É dedicada às pessoas, em geral, e aos jovens angolanos, em particular, uma vez que é cá onde estou, onde sinto todo um momento, um momento que não está a ser fácil para muitos, mas que mostra as variadas opções que temos para se poderem atingir os objectivos pretendidos em determinados domínios, nesta fase crítica em termos económicos.

Angop – Uma das principais características das suas obras é África. Porquê espelhar o continente berço na grande maioria delas?

NT – Sou uma criadora atenta ao que se passa no país e acredito que Angola está a passar por um momento extremamente importante para o nosso desenvolvimento, pois nos obriga a explorar todo um caminho. Estamos cada vez mais atentos à excelência e a trabalhar com excelência, de forma a podermos mostrar um produto muito bem feito, um trabalho digno e diferente, mas que mostre ao resto do mundo o que existe em termos de moda no país. Nesta fase crítica mundial, em particular em Angola, recorro, com maior frequência, aos países vizinhos, à busca de matéria-prima, o que leva a que o meu produto não fale só da nossa terra, mas também de um continente todo. Actualmente, não é possível falarmos de um país específico no mundo da moda, visto que todos os tecidos acabam por vir de várias fontes africanas. Estar no grupo criadores africanos reconhecido mundialmente é uma honra e uma honra ainda mais saborosa, porque levo o nome de Angola, meu país, ao mais alto pedestal do mundo da moda.

Angop – Mas, o que procura mostrar com as suas colecções?

NT – Nas minhas peças, os meus clientes encontram uma única assinatura, uma combinação entre África e o resto do mundo. Elas trazem toda uma história, um período que começou, aparentemente, difícil com todo o processo de guerra e de afirmação. E hoje estamos num momento que exige de nós mais organização.

As minhas colecções focam todos os pontos, pois toda uma confecção, todo um conceito é feito olhando para todos os processos sociais. Sou uma criadora angolana, modéstia à parte, com mais internacionalizações e nas minhas aparições pelo mundo procuro sempre levar Angola através delas. É verdade que não produzo só peças que estampam o produto angolano, em particular, e o africano, em geral, mas também a tendência mundial.

Angop – Tendo em conta o percurso no mundo da moda e os prémios conquistados, sente-se, profissionalmente, uma criadora realizada?

NT – Os objectivos de hoje são diferentes dos de ontem. Não poderei dizer realizada, pois o ser humano enquanto vive nunca termina nada, quer sempre mais e mais. Profissionalmente, já realizei alguns sonhos. Sou uma criadora com muitos prémios no mercado nacional e tenho um país que respeita e gosta do meu trabalho, um país que fica sempre atento quando ouve falar de Nadir Tati. Toda a gente me pára na rua, fala comigo de uma forma muito carinhosa. Mais do que os prémios que ganho é o reconhecimento que demonstra uma atenção especial a esta arte. As pessoas gostam de vestir bem. Se morrer hoje (risos), o meu nome ficará marcado na história da moda em Angola.

Angop – Que significa para Nadir fazer parte da elite da moda angolana e africana?

NT – Fazer parte da história da moda de Angola e acompanhar todo este processo de desenvolvimento é muito importante para mim. É claro que é difícil, mas não é impossível fazê-la. Podemos fazer mais e melhor, e este é o meu apelo a todas as pessoas que pensam que é quase impossível fazer moda em Angola, para que mostremos que é possível vestir os angolanos com aquilo que produzimos localmente. Cada vez mais, a produção nacional tem de funcionar. A crise actual mostra-nos, exactamente, o caminho que devemos seguir para diversificarmos as nossas opções e satisfazer os nossos clientes. Quando se fala de diversificação da economia, com aposta na agricultura, os criadores angolanos de moda devem, igualmente, pensar na forma como podem contribuir. Eu foquei as minhas criações, o meu pequeno contributo para a diversificação e criatividade, produzindo trabalhos que merecem e têm sido elogiados em todos os cantos por onde passo.

Angop – Que peso tem para si o facto de o seu produto ser alvo de olhares de coleccionadores e apreciadores da moda a nível mundial?

NT – O facto de estar em permanente contacto com o mundo da moda obriga-me a ser bastante criativa e original, elevando bem alto o nome de Angola, a moda angolana e a maneira de os angolanos se vestirem e falarem, essencialmente, aos jovens de outras paragens sobre a moda angolana e sobre o país em si. Carregar tudo isso tem sido difícil, mas nada é impossível e o resultado é vermos milhares de jovens que acreditam na moda, na qualidade do produto produzido na nossa terra e por angolanos que, por verem e conseguirem vestir roupa africana, se identificam com África. Hoje, esta identificação começa por funcionar na Europa.

Nos países por onde passo, há uma grande procura pelo meu trabalho, fazendo que as salas onde apresento as minhas colecções registem sempre casa cheia. Ver esta procura, ver um público estrangeiro interessar-se por produtos “made in” Angola e pela cultura angolana é o meu contributo à Nação, fazendo o elo e a ponte para que as pessoas falem, vejam e sintam Angola por meio das minhas criações. É satisfatório levar os estrangeiros a verem se existimos, que Angola e os angolanos também criam produtos de marca e com qualidade. Fico satisfeita com as recepções que tenho tido, factor que me motiva, uma vez que sinto que está a valer apenas o sacrifício e a aposta nesta arte.

Angop – Quando e porquê “mergulhou” no mundo da moda?

NT – Entrei para fazer a diferença e continuo a fazê-la. Não sou igual a ninguém. O difícil não é fazer, o difícil é ser diferente (….), pois, quando se faz algo, deve ser com diferença. Há muita gente que faz. A questão não é fazer, mas, sim, ser diferente. O meu trabalho é de transportar para o mundo toda uma história africana que passa por um processo de identidade e afirmação de um continente que acompanha cada vez mais o mundo num processo de globalização.

Sempre desenhei, gosto de desenhar e, acima de tudo, cresci a ver a minha mãe fazer a minha roupa. Fui crescendo e, quando comecei por produzir alguns modelos para amigas, surgiu alguém que sugeriu para mostrá-los num destes eventos de moda que são realizados em Angola. Desde aquele dia, nunca mais parei, até chegar onde estou hoje.

Angop – Que significa para Nadir vestir a Primeira-Dama, Ana Paula dos Santos?

NT – Vestir a Primeira-Dama é uma das tarefas mais fáceis que tenho. Primeiro porque me inspiro muito nela, por ser uma pessoa muito simples e, quando mais fácil for o cliente, mais fácil é trabalhar com ele. A Primeira-Dama gosta de roupa africana. Aprendo muito com ela e vice-versa. Conjugando os nossos gostos e as tendências mundiais, com muita troca de experiências e informação, torna-se num trabalho muito fácil. Tenho clientes muito mais difíceis e exigentes que Ana Paula dos Santos. É uma mulher que gosta de vestir bem, que gosta da moda angolana, que está atenta às tendências africanas e mundiais, tornando a minha tarefa mais fácil. É sempre uma honra acordar pensando que hoje vou dedicar um tempo para criar algo para uma pessoa como ela, que merece toda a atenção, todo o carinho, embora isso implique, muitas das vezes, ficar sem dormir muito. Em contrapartida, a satisfação de a vestir compensa o sacrifício que faço para criar as peças que ela usa e faz questão de exibir pelo mundo fora.

Angop – Que avaliação faz do mercado da moda em Angola?

NT – O mercado angolano está a crescer cada vez mais, apesar de algumas dificuldades, particularmente pela falta de uma indústria de apoio aos criadores, a fim de criarem e trabalharem ao mais alto nível. Mas também devo reconhecer que há um grupo muito grande, muitos criadores com vontade de fazer e que até têm possibilidade de actuar, porém não o fazem bem, pois não sabem subir a uma montanha (risos). A moda não é acordar e dizer que sou estilista ou criador. Acordámos, temos de pensar, temos de montar um plano de trabalho e, acima de tudo, devo também realçar que o talento joga papel muito grande. Se alguém não sabe desenhar, não entende de moda, não tem um estudo feito sobre a matéria, fica complicado navegar nesta arte.

É isso de que o mercado angolano precisa neste momento. Cada criador deve parar e pensar no que vai fazer de diferente, o que vai mostrar, visto que é aí onde as coisas não encaixam bem. Contudo, está-se a trabalhar e devem-se dar os parabéns às pessoas com vontade e motivação de fazer mais e melhor.

Angop – Nadir Tati é estilista, criminalista, uma coleccionadora apaixonada por arte e benfeitora. Como a moda liga estes pontos todos?

NT – Naturalmente. Eu gosto da moda, acordo, durmo, tomo o pequeno-almoço, lancho e janto a moda. Sempre fui uma mulher muito dinâmica e, por isso, não vejo muita diferença. A vivência em muitos países, e num nível de disciplina muito forte, leva-me a que seja muito disciplinada e rigorosa no que faço diariamente.

BIOGRAFIA

Nadir Tati é a mais reconhecida criadora de moda angolana. Formada em Criminologia, Consultoria de Imagem e Design de Moda, trabalhou anteriormente como manequim, profissão que despertou a sua grande paixão pelas artes e pela moda, em especial a africana.

Encontra inspiração na sua própria vida e na história de vida dos angolanos para desenhar as suas colecções. Nos últimos três anos consecutivos, ganhou o prémio de “Melhor Criadora”, no evento “Moda Luanda”. Em 2011 e 2012, foi também homenageada com o título “Diva da Moda” e, no ano seguinte, conquistou o prestigiado “Prémio Sirius”, pela sua excelência no ramo empresarial e por ter levado o nome de Angola a várias passerelles do mundo.

Defensora das tradições ou costumes africanos, Nadir Tati tem por principal objectivo elevar a moda angolana ao mesmo nível de outros países como Portugal, Estados Unidos, Alemanha, México, Bélgica, Macau, Espanha, África do Sul, Moçambique, Quénia, Togo, Tanzânia, que já acolheram e aplaudiram as suas criações. A sua jornada por estes estados dá a conhecer o seu processo criativo e ajuda-a a definir um perfil de cliente.

A estilista inspira-se, com frequência, na situação actual da mulher angolana no mundo, transportando toda uma história africana que passa por um processo de identidade e afirmação de um continente que acompanha cada vez mais o mundo num processo de globalização. (Angop)

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