Fillon deve ser pedra no sapato da Frente Nacional

François Fillon (Reuters)

Candidato tido como extremamente conservador representará Os Republicanos na corrida à presidência francesa. Apesar de propostas económicas liberais, inclinação para a direita de Fillon deve atrapalhar Le Pen.

O partido Os Republicanos, da França, caminha para a direita: com François Fillon, eleitores escolheram um candidato presidencial que é considerado extremamente conservador. O ex-primeiro-ministro já anunciou sua intenção de trazer a família de volta ao coração da política.

Fillon é contrário à adopção de crianças por casais homossexuais. Ele quer um limite para a admissão de refugiados, que o acesso de estrangeiros ao sistema social do país seja dificultado e que comunidades muçulmanas e mesquitas sejam controladas pelo Estado. Além disso, o republicano defende uma renacionalização dos currículos escolares.

O programa político de Fillon pode se tornar um problema para o partido Frente Nacional. O ex-primeiro-ministro de 62 anos apela para emoções semelhantes às da extrema direita: preocupação com alienação e perda de identidade, além de medo do terrorismo e da criminalidade.

“Durante muito tempo, a Frente Nacional foi a única força política que assumiu estes medos dos franceses”, afirma Henrik Uterwedde, pesquisador do Instituto Franco-Alemão em Ludwigsburg. “E agora há um político que encara esses medos com uma linguagem diferente e dá aos eleitores uma proposta política.”

Especialmente nas zonas rurais da França, onde as tradições têm muito valor, o declarado católico Fillon têm apelo com suas propostas de políticas familiares e sociais. Ele é apoiado por grupos católicos tradicionais, que há anos mobilizam massas para manifestações contra o casamento gay.

Na campanha interna do partido, Fillon viajou a aldeias e pequenas cidades francesas localizadas exactamente em regiões descritas pela presidente da Frente Nacional, Marine Le Pen, como a “França esquecida” e das quais ela se vê como a representante dos interesses.

“Fillon conseguiu pontuar num reduto no qual Le Pen também faz campanha”, disse o líder do grupo parlamentar franco-alemão no Bundestag (Parlamento alemão), Andreas Jung, em entrevista à estação estatal de rádio RBB. “Ele não defende um distanciamento parisiense, mas sim um enraizamento na província. Fillon está comprometido com os valores tradicionais como a família. Por isso, pode-se esperar que ele não só derrote Le Pen como fique na liderança logo no primeiro turno.”

“O candidato mais perigoso para a Frente Nacional”

A Frente Nacional, portanto, não está nem um pouco entusiasmada com a nomeação do conservador Fillon. “Ele nos coloca diante de um problema de estratégia”, admitiu a sobrinha da líder do partido, Marion Maréchal Le Pen, recentemente a jornalistas. “Ele é o candidato mais perigoso para a Frente Nacional.” Institutos de pesquisa dão razão a ela. Sondagens recentes apontam Fillon como favorito na eleição presidencial em maio do ano que vem.

No entanto, Fillon certamente não ganhará o pleito sem esforços. A Frente Nacional retrata o candidato conservador como um membro do establishment e, desta forma, tenta conquistar os votos dos politicamente oprimidos. Especialmente os planos económicos liberais de Fillon encontram resistência.

Fillon quer abolir a semana de 35 horas de trabalho e elevar para 65 anos a idade de aposentadoria. Ele também quer cortar 500 mil postos de trabalho no setor público e reformar as leis trabalhistas. Fillon é considerado um admirador da ex-premiê britânica Margareth Tatcher.

“Questões de política econômica liberal são sempre fortemente contestadas na França”, afirma Uterwedde. “Os opositores de Fillon denunciam aquilo que na França é chamado de ‘ultraliberalismo’.” Este é um dos piores insultos na política francesa, segundo o especialista.

Propostas também para a esquerda

Fillon planeja aumentar o imposto sobre o valor agregado em dois pontos percentuais. Isso afetaria, principalmente, as pessoas de baixa renda. E exatamente essa faixa da população é cortejada pela Frente Nacional com um programa que é considerado economicamente mais à esquerda. O partido de extrema direita conduz claramente um curso antiglobalização, pretendendo desligar a economia francesa de países estrangeiros e deixar a União Europeia (UE).

Por isso, a Frente Nacional já tenta apresentar Fillon como um símbolo de um capitalismo ultraliberal e sem lei. “François Fillon quer ir além daquilo que insta a UE em termos de austeridade e liberalismo”, escreveu David Rachline, gerente de campanha de Marine Le Pen, no Twitter.

Um risco para o candidato dos republicanos é que o curso econômico liberal proposto por ele desencoraje eleitores de esquerda a votar nele para evitar a vitória de Le Pen.

“Desde já, Fillon terá de apresentar propostas – também a eleitores que estão mais próximos do centro, aqueles um pouco mais moderados”, diz Uterwedde. “E, o mais tardar no segundo turno, ele terá de oferecer algo aos eleitores de esquerda.” (DW)

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