A consciência de Correr contra a Fome

Juntos contra a Fome (Youtube)

As tragédias do mundo e as fatalidades com que nos confrontamos todos os dias e em diferentes domínios deveria fazer de todos nós humanos, melhores seres humanos se admitirmos conscientemente o principio que morreremos um dia e que afinal a nossa existência é frágil, é passageira. Talvez por isso todos os actos simbólicos acabam por ter a sua importância e relevância se estivermos também conscientes que a dor e o sofrimento do outro não nos pode ser indiferente. E nesta construção de solidariedade e fraternidade, devemos igualmente estar de coração aberto aos que sofrem no silêncio, aos que não têm acesso a quem decide para ouvir a sua dor, aos que no meio urbano e rural, lutam diariamente para suprir as suas necessidades básicas e ir de encontro ao primado do que está vertido na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Criar mecanismos humanistas e instituições cada vez mais humanizadas que dignifiquem quem sofre é um grande ponto de partida para fazer suprir e ultrapassar com fraternidade sentida e eficiente quem sofre. O panorama do mundo não é o melhor e isso não implica ter um olhar fatalista sobre a realidade que nos rodeia, mas sim um olhar realista, sério e digno para que de forma transversal possam ser ultrapassadas múltiplas dificuldades sociais e económicas na Cidade ou no Campo. A par disso, nas estruturas que formam e pensam as estratégias do Desenvolvimento Humano, ter as pessoas certas e com um perfil certo para estar ao lado e escutar com sabedoria e visão humanista quem sofre, quem passa fome, quem enfrenta um cancro, quem não tem um tecto ou quem já sem esperança escolhe o chão frio da rua para sentir o seu corpo. Como me referiu numa entrevista concedida Hélder Muteia, Representante da FAO em Portugal junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ” a luta contra a Fome não é apenas a luta contra a Fome. É também a luta contra a exclusão social, contra a falta de instrumentos e outros suportes que dignificam a condição humana. Passar Fome gera outras consequências e as causas são variadas. É preciso olhar para as mesmas com muita profundidade.” E é verdade o que disse Hélder Muteia. Se considerarmos por exemplo que o Direito à Alimentação, é um Direito Humano, como pode alimentar-se um pessoa em que lugar do mundo estiver se não tiver meios para alimentar-se? Como fazer ? E sobretudo como fazer quando assistimos a um desastroso Desperdício Alimentar em todo o mundo ? Por isso ” Correr Contra a Fome ” é também uma forma de correr contra a exclusão social, contra a desburocratização de múltiplas instituições que têm responsabilidades na área da Exclusão Social e na redução substantiva das assimetrias sociais. Segundo dados estatísticos da CPLP, no seio dos 9 Estados Membros, 22 milhões de pessoas passam Fome. Logo, esta é uma realidade que tem que ser invertida, combatida, fazer parte da agenda política do poder político, mas também de outros poderes paralelos que integram as Sociedades a nível local e global. Não podemos ignorar esta realidade. Não podemos ficar indiferentes a quem sofre. Já não bastam discursos longos. Em algumas circunstancias até são necessários para alertar, para despertar consciências adormecidas em gabinetes de muitas instituições. Mas depois da narrativa dircursiva, é importante agir. É necessário construir e fazer acontecer. Estabelecer pontes e criar alianças inteligentes que permitam no terreno superar o silêncio de quem não tem voz para fazer-se ouvir face ao seu sofrimento. E depois é necessário criar outras corridas. É correr contra aqueles, no plural ou no feminino que se servem do sofrimento dos outros para estar sempre ao cimo da tona e navegar sem inquietações. Afirmo isso pelo conhecimento concreto de muitas situações e que nada abonam a necessidade colectiva e individual de construir um mundo cada vez mais justo, mas igualitário, menos assimétrico. É preciso Correr Contra a Fome. É efectivamente. Mas é preciso Correr Contra o Cancro, Contra a Violência Infantil. Correr Contra o Bulliyng nas Escolas e no meio Laboral, é preciso Correr Contra o Racismo e a Xenofobia, é preciso Correr Contra a diferença de Género, é preciso Correr Contra todas as arbitrariedades, sejam elas quais forem, é preciso Correr contra a Corrupção, é preciso Correr contra a falta de Inteligência e valorizar o mérito do Conhecimento, da Sabedoria e o Humanismo. É preciso Correr contra quem não tem acesso à Educação e é fundamental, imperativo e determinante Correr Contra quem viola os Direitos Humanos no mais amplo sentido da sua significação em qualquer lugar do mundo. Ninguém escolhe nascer. Mas ninguém escolhe sofrer. Esta III Corrida ” JUNTOS CONTRA A FOME “, organizada pela Empresa ” In Totum “, com o apoio institucional da CPLP e da FAO e de outras entidades como o Instituto Português da Juventude e Desporto como a Câmara Municipal de Cascais marca o início de outros caminhos e nunca é demais lembrar que as Madrinhas e Padrinhos ( Embaixadores da Boa Vontade, embora não seja essa a designação )desta Campanha têm sido Rostos visíveis para que a mesma tenha o seu sucesso, lutando muitas vezes contra burocracias e pequenas faltas de compreensão, mas que no fundo ligaram-se à causa por convicção e sentimento. E muitos Artistas e Criativos diversos doaram as suas Obras para esta causa de forma genuína. E aqui, não Artistas maiores e menores. Há o significado, o gesto da Arte de doar e dar por sentir.

A Fome pode ser expressa de duas formas: aberta ou epidémica; e oculta ou endêmica.

A Fome aberta ocorre em períodos em que acontecem guerras em determinados lugares, desastres ecológicos ou pragas que comprometem drasticamente o fornecimento de alimentos e isso acarreta a morte de milhares de pessoas e de inocentes que estão alheios à cegueira da guerra e ao fomento de conflitos armados.

Actualmente esse tipo de Fome não tem ocorrido com tanta frequência, Mas se olharmos para o conflito na Síria e se pensarmos que de acordo com a FAO, 3,1 milhões de crianças morrem por ano, então há que repensar tudo e muitas políticas públicas. Embora existam vários organismos humanitários que fornecem alimentos às áreas afectadas por conflitos, a realidade concreta dos factos mostra-nos de forma nua e crua que é insuficiente.

A Fome oculta possui outra característica: é aquela que segundo vários especialistas em todo o globo definem que o indivíduo não ingere a quantidade mínima de calorias diárias e cujo resultado disso é a desnutrição ou subnutrição que assola 800 milhões de pessoas em todo mundo. Ora uma pessoa desnutrida nos mais elementares e essenciais nutrientes como sobreviver ? Como pode Correr Contra a Fome ? Como pode Correr contra as dificuldades da vida ? Não pode, senão existir o que eu afirmava anteriormente. São necessárias estruturas verdadeiramente humanizadas e com adequado perfil humano para lutar contra todas as Discriminações e fazer da existência humana e do Ser Humano, o campo da Dignidade e do Respeito Mútuo. Aliás, talvez fosse interessante e aqui deixo este apelo aos autarcas e intervenientes na construção das Cidades e de outros lugares habitáveis, porque não construir a Praça da Dignidade e do Respeito Mútuo? São necessários simbolismos concretos. É preciso quebrar muros e preconceitos. Tal como acabou o Apartheid na África do Sul, caiu o Muro de Berlim e os Campos de Concentração Nazis entre outros trágicos horrores praticados contra a Humanidade, é preciso repensar, repito, o mundo que habitamos e vivemos. Alguns leitores perguntarão: mas que ligação tem o Combate à Fome a estas outras analogias e referências? Deixo a resposta à interpretação dos mesmos e aberto a qualquer crítica.

A subnutrição fragiliza a saúde tornando a pessoa acessível a doenças. Os desafios são complexos. Houve uma diminuição relativa no mapa da Fome aplano mundial e ao nível dos Estados Membros da CPLP , mas a realidade ainda é alarmante. Há um longo caminho percorrer. Num círculo restrito de pessoas e instituições lancei o desafio de uma ideia minha entre outras para combater a Fome e falar dos Direitos Humanos que ” Dançar e Cantar a favor dos Direitos Humanos ” ou ” Dançar e Cantar Contra a Fome “. São desafios que lanço aos leitores e a quem queira juntar-se a esta minha ideia. Porque se o Desporto é um modo de reunir e sensibilizar multidões e públicos diferenciados para muitas nobres causas, a Cultura, a Música e as Artes, têm também a magia e o encanto de unir, reunir, fazer pensar e permitir reflectir sobre a Condição Humana. A bela Baía de Cascais pelas 10 horas da manhã começa a acolher as pessoas que se inscreveram neste evento, quer no domínio da ” Caminhada”, quer no domínio da Corrida. Espero que o mar acolha e leve aos outros Oceanos as vozes e as caminhadas e as corridas de cada participante, para que na força da união e da inteligência, unam-se esforços constantes por um mundo melhor, mais distributivo e mais justo. Não há verdadeiro e consistente Desenvolvimento Humano e Sustentável sem efectiva justiça social. Que o Hino da Campanha ” JUNTOS CONTRA A FOME ” se faça ouvir como previsto quando na apresentação pública desta III Corrida lancei o desafio aos seus promotores e Entidades envolvidas. Esse cântico simbólico e gravado por vários músicos faz parte deste desafio público e de uma ideia minha que é ” Dançar e Cantar Contra a Fome ” e “Dançar e Cantar a favor dos Direitos Humanos”. Porque o Direito à Alimentação, é um Direito Humano. E os Direitos Humanos não podem, nem devem ser esquecidos em circunstância alguma. Promover Sociedades inclusivas e de Tolerância é o caminho da construção presente e futura da Humanidade.

por Gabriel Baguet Jr, Jornalista/Escritor e Padrinho da Campanha ” JUNTOS CONTRA a FOME “, a convite da CPLP/FAO em exclusivo para o Portal de Angola

2 COMENTÁRIOS

  1. Extraordinário e pertinente artigo. Extraordinária e inteligente modo de analisar um assunto muito sério de múltiplas maneiras. Lutemos contra a fome e como diz o autor contra todas práticas que violem os Direitos Humanos. Pedro Assis Burnay

  2. A Fome não é combatida por interesses diversos. Artigos desta natureza ajudam a opinião pública a reflectir. Conheço o autor pelo que ouço no seu trabalho radiofónico e há anos que a qualidade do seu trabalho só mostra a sua competência e a sensibilidade para a abordagem destas temáticas tão preocupantes para todos nós. Já estou quase nos 70 anos e orgulha-me como angolano ler o Portal de Angola e ver filhos da nossa saudosa terra escrever com qualidade, com profundidade. Este nosso compatriota já merecia há muito tempo um Prémio de Jornalismo. Mas a alguns não interessa ser competente. Wladimir Cruz Nascimento, angolano residente em Faro. Viva Angola e Viva o Combate à Fome.

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