A língua que nos pariu

CELSO FILIPE Subdirector do Jornal de Negócios (Foto: D.R.)

Portugal fez-se nação por força da língua. Foi o galaico-português que traçou uma fronteira vertical num território, a Península Ibérica, onde a continuidade geográfica é evidente. A língua assumiu-se como instrumento de soberania, identidade e diferenciação face a Espanha.

Foi também por essa razão que Timor-Leste adoptou o português como língua oficial, quando se tornou um Estado soberano, em 2002. Timor-Leste recusou as outras duas hipóteses, o inglês e o tétum, para se afastar do perigo de uma nova forma de colonização, por via da língua.

Numa outra perspectiva, a China poderá até tornar-se a maior potência económica mundial, mas falhará sempre o fecho do círculo do poder porque o mandarim nunca se constituirá como um língua universal. Ou seja, a língua está longe de ser um assunto secundário no equilíbrio de forças à escala planetária.

A língua pode até aparecer um assunto etéreo, mas só na aparência. Foi pela língua que o cinema e a música dos falantes de inglês, sobretudo os Estados Unidos e a Inglaterra , se tornaram dominantes. Por isso, pode agora parecer extemporâneo classificar como perigosa a invasão de anglicismos que assola Portugal. Não é extemporâneo e é efectivamente um perigo, além de transmitir sinais de subserviência perante uma potência linguística, o inglês.

A situação é ainda preocupante porque estes anglicismos estão a ser incorporados pelas elites, as quais têm uma maior capacidade de os disseminar, e também pelos jovens, mais expostos à língua que manda nas novas tecnologias, o inglês. Depois existem os tristes casos de utilização dos anglicismos por mera parolice ou por preguiça de encontrar sinónimos em português, ou então pela combinação destes dois factores.

A língua que nos pariu em 1139 foi também aquela que deu a identidade a países como o Brasil, Angola e Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, possibilitando que o português seja hoje a quinta língua mais falada do mundo.

O uso de expressões inglesas, que podem parecer uma moda ou uma forma de universalizar a comunicação em determinados sectores, como o empresarial, é na prática uma cedência de soberania e um acto desnecessário de submissão. A língua que nos pariu, rica, dúctil e identitária, não merece tamanho destratamento. Até porque sem ela não existiria país.

P.S.: o título deste editorial é inspirado no livro “O português que nos pariu” da autoria da escritora e jornalista brasileira, Ângela Dutra de Menezes. (jornaldenegocios)

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