Vida longa, Gil, e boatos, fora daqui!

Caetano Veloso e Gilberto Gil, durante show. (Facebook)

Problemas de saúde do músico baiano vêm gerando uma onda de boatos sobre sua morte e deixando milhões de brasileiros em alerta: os grandes ídolos estão envelhecendo.

“Pessoal, o Gil está ótimo. Amanhã [quinta-feira] ele tem alta. Ele sabe que vocês estão aqui!”. A notícia que milhões de pessoas em todo o Brasil estavam ansiosas por ouvir sobre a saúde de Gilberto Gil foi dada por um dos médicos do hospital Sírio Libanês – onde ele estava internado desde a última sexta-feira para tratar de uma insuficiência renal – para umas 20 pessoas que cantavam suas músicas para “mandar um axé” ao cantor. “Viva Gilberto Gil! Saúde!”, gritavam, entre uma canção e outra, os fãs concentrados em frente ao hospital de São Paulo na tarde da última quarta-feira. O clima não era de tristeza e muito menos de despedida, mas sim de celebração. Gil, um dos precursores do movimento tropicalista nos anos 60, mudou a música brasileira e, em mais de 50 anos de carreira, incorporou diversos estilos em dezenas de discos. É um artista imortal.

O músico começou a ser internado em março deste ano devido a um quadro de hipertensão arterial. Voltou a ser hospitalizado semanas depois, dessa vez por causa de uma insuficiência renal. Desde então, notícias sobre internações vem se repetindo todos os meses. O susto maior veio durante a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, quando o músico baiano se apresentou no estádio do Maracanã ao lado de Caetano Veloso e de Annita com o rosto inchado, encurvado, pálido e mais magro do que o normal.

Não demorou para que os boatos começassem a pipocar nas redes. O auge foi na última semana, quando várias notícias falsas circularam pelas redes sociais e pelo WhatsApp anunciando a morte de Gil. Todas foram desmentidas, inclusive no próprio perfil do Facebook do músico, onde sua equipe de comunicação anunciou que ele estará pronto para subir ao palco com Caetano Veloso no próximo domingo no Rio, para o último show da turnê da dupla. “E pros boatos: fora daqui!”, escreveu, usando um verso de uma das suas canções mais conhecidas, Palco.

De todas as formas, o deterioro da saúde de Gilberto Gil acendeu uma luz amarela na cabeça do coletivo: os grandes ídolos da Música Popular Brasileira, que pareciam imortais, passaram dos 70 anos e em algum momento nos deixarão órfãos. Isso porque, embora a MPB – considerando o significado mais amplo dessa sigla – venha gerando novos ídolos (Marisa Monte, Céu, Criolo, Maria Gadú, Liniker, entre muitos outros), por diversas razões, ainda não produziu novos artistas que tragam certo consenso na sociedade. Se a política foi incapaz de gerar heróis nacionais – mas sim de polarizar a sociedade em diversos momentos da história –, coube a artistas como Chico, Caetano e o próprio Gil esse papel de unir e mobilizar várias gerações de brasileiros, independente de classes, origens e até preferência política.

Basta com ir a qualquer show de um desses artistas para comprovar essa capacidade de mobilização. Mas peguemos como exemplo o pequeno ato desta quarta em frente ao Sírio Libanês. Inicialmente organizado por garotas universitárias – que não viveram, obviamente, a década dourada da MPB –, o grupo também contou com a presença de aposentada, mãe com filho no colo, octogenário recém saído do hospital, médico, taxista… Todos ali eram diferentes um do outro. Em determinado momento, um senhor que morava nas redondezas, luzindo seu relógio Rolex e sapatos mocassim italiano, se aproximou de uma das jovens, de chinelo e meio hiponga, e disse: “Parabéns pelo ato. O Gil merece”. É um alívio ver algo assim em tempos de tanto nervosismo político.

Felizmente, o tratamento de Gil parece estar evoluindo de maneira satisfatória. Todas as suas internações, se esforçam em dizer, não indicam uma piora de seu estado de saúde; na verdade, fazem parte do tratamento e devem ocorrer mensalmente. Recentemente, ele admitiu que se sente muito melhor e que já voltou a fazer seus exercícios físicos diários. Também continua compondo: uma música para a sua bisneta divulgada nas redes emocionou seus fãs e, mais recentemente, mostrou uma música feita para a sua médica. Sua agenda de shows tampouco foi interrompida, com exceção de uma apresentação com Caetano Veloso em agosto no Rio que foi adiada devido às náuseas que os remédios lhe causam. Nesta quinta-feira, confirmando o que o médico havia dito no dia anterior, Gil deixou mais uma vez o hospital – com a promessa de que no domingo vai compensar seus fãs pelo show adiado.

Mas seja em seus concertos mais recentes ou em comentários nas redes sociais, as mensagens de apoio são constantes. “Vida longa, Gil!”, costumam escrever ou dizer seus fãs. “Sai do trabalho e resolvi dar uma passada aqui. Afinal, é o Gil”, disse um dos jovens que participou da celebração desta quarta em frente ao Sírio Libanês. Estacionou sua bicicleta, pegou o violão e tocou durante uma hora. “Agora preciso ir gente. Mas valeu, foi muito bom estar com vocês. Escuto o Gil desde pequeno… Ele é a história de todos nós”. (El Pais)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA