“Sou Vladimir Putin”: como a desinformação na media ocidental mutila vidas

(AFP 2016/ NICHOLAS KAMM)

A desinformação intencional efectuada por jornalistas habitualmente confiáveis e pela media tradicional pode impactar vidas humanas, como aconteceu com Bill Moran. Eis o que ele contou.

“O meu nome é Bill Moran, sou ex-autor e editor no escritório da Sputnik News em Washington. Nasci no Arizona, formei-me na Universidade de Georgetown e sou um simples homem de 29 anos que sempre tive a esperança secreta de me tornar jornalista da imprensa escrita.

Quando recebi a proposta de escrever para o site da agência em Fevereiro deste ano – o sonho realizou-se. Trabalhava muito, ia mesmo ao trabalho em meus dias de folga para estar seguro de que as matérias tinham a melhor qualidade possível. Este trabalho deu resultados – em Julho tornei-me editor de fim-de-semana no escritório em Washington.

Agora compreendo que o trabalho de que gostava tanto e que, na minha opinião, realizava bem já pertence ao passado.

No dia de Colombo (10) cometi um erro embaraçoso. Notei uma série de tweets que atribuíam palavras sobre o escândalo em Benghazi a Sidney Blumenthal. O documento original da WikiLeaks ao qual estava relacionado o artigo original era muito comprido – 75 páginas. Examinei o documento à pressa, mas não o li todo.

Por ser feriado, era o único funcionário no escritório em Washington. Escrevi 12 histórias no período de 12 horas e corrigi mais cinco matérias de dois autores que trabalhavam à distância.

Fazia tudo de forma rápida e fiz um erro por causa do qual ainda estou embaraçado. Saí para fumar um cigarro depois de colocar várias matérias nas redes sociais, depois dei uma mais olhada ao documento, compreendi que tinha feito um erro e removi a matéria.

Crianças no bairro destruído da cidade de Aleppo, Síria, Abril de 2016 © Sputnik/ Mikhail Voskresensky Mídia ocidental silencia assassinato de crianças em Aleppo pela Frente al-Nusra A história permaneceu no site das 3h23 até às 3h42 e ganhou 1,061 visualizações antes de ser removida – queria pedir desculpas aos leitores do fim-de-semana por ter cometido esta falha.

Agora sou Vladimir Putin. Pelos menos, é o que Kurt Eichenwald e a Newsweek pensam.

Eichenwald escreveu uma matéria publicada às 7h45 intitulada ‘Caro Donald Trump e Vladimir Putin, não sou Sidney Blumenthal’ em relação ao meu erro.

No seu artigo, ele escreve que se trata de ‘ainda mais uma prova’ da ciberguerra russa realizada pela agência ‘controlada pelo governo russo’ (que não é verdade, somente financiada) que alterou (este aspecto repete algumas vezes) documentos da WikiLeaks antes de passar informações para Donald Trump.

O problema é que Eichenwald, editor-chefe da revista Newsweek sabe que toda esta história não corresponde à verdade. Na terça-feira (11), contactei Eichenwald e os editores da Newsweek para informá-los sobre os erros no artigo e contar a história verdadeira. Também contactei Eichenwald no Twitter, explicando de forma cautelosa os detalhes, mas ele bloqueou a minha conta. Na quarta-feira (12), fui demitido. A minha colega criticou Eichenwald por me bloquear e não alterar o artigo.”

Entretanto, isso não é o fim da história de Bill Moran. Eichenwald realmente contactou-o oferecendo ajuda para encontrar um novo trabalho. Entretanto, depois de pensar, Moran decidiu não se vender e ignorar a verdade em troca de uma boa carreira. Eichenwald ofereceu a Moran tornar-se observador político da publicação New Republic.

Na conversa com Moran, Eichenwald disse que, se ele divulgasse as informações sobre tudo, isso arruinaria a sua carreira.

“O problema é que o novo emprego não transformará a ficção em fatos. Ele compreendeu a história de forma errónea. É tudo.”

Quanto aos outros erros cometidos pela Newsweek, a versão inicial do artigo dizia que a Sputnik removeu o artigo depois de ter visto que foi cometido um erro. A versão que foi divulgada mais tarde supôs que a publicação contactou a Sputnik antes de retirar a matéria. A versão actual diz que a Newsweek tentou contactar, mas Moran não recebeu nada parecido.

“Segundo, a publicação não é ‘controlada pelo Kremlin’. Não falo a Vlad [Vladimir Putin] todas as manhãs com uma chávena de café. A agência recebe financiamento do governo russo, mas ninguém nunca me disse o que escrever”, disse Moran.

E mais: a publicação não alterou o documento da WikiLeaks. A matéria mesmo tinha o link para o documento original.

Agora o jornalista vê o seu futuro sendo alvo de críticas perpétuas. Escreveu 813 matérias para a Sputnik e o único erro e informações incorrectas, intencionalmente publicadas na Newsweek, levaram a uma histeria.

Entretanto, depois de rever a situação a Sputnik ofereceu mais uma vez trabalho para Moran, mas ele recusou. (Sputnik)

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