SIDA chegou a Angola muito antes de ser identificada

(Foto: D.R.)

Epidemia. Estudo inédito revela papel central de emigrantes da ex-colónia portuguesa na expansão da epidemia no início do século.

Mergulhar em mapas e estatísticas do antigo Ministério das Colónias belga. Reunir uma equipa multidisciplinar e multinacional. Calibrar o relógio biológico. Somados todos os ingredientes, a conclusão foi inédita: os angolanos tiveram um papel de destaque na dispersão da epidemia de sida no continente africano no início do século XX, numa altura em que a doença ainda não tinha sido identificada.

Equipa multidisciplinar e multinacional coordenada pela portuguesa Ana Abecasis (terceira à esquerda) encontrou provas de que emigrantes angolanos participaram na expansão da sida (Foto: Marcos Borga)
Equipa multidisciplinar e multinacional coordenada pela portuguesa Ana Abecasis (terceira à esquerda) encontrou provas de que emigrantes angolanos participaram na expansão da sida
(Foto: Marcos Borga)

A conclusão consta do artigo “A contribuição de Angola na propagação inicial do HIV-1”, publicado este verão na revista científica “Infection, Genetics and Evolution”. A investigação, liderada pela médica portuguesa Ana Abecasis, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, situa na fronteira entre Angola e a República Democrática do Congo (RDC) o epicentro da disseminação do vírus da imunodeficiência adquirida (sida), apontando a origem da pandemia em 1906, em Kinshasa, antiga Leopoldeville, capital do então Congo Belga, e fixando 1924 como o ano da chegada do vírus a Luanda.

Estas datas, porém, não devem ser assumidas de forma absoluta. Os investigadores trabalharam com margens de erro e, como explica a investigadora, intervalos temporais que situam a chegada do vírus à capital angolana entre 1910 e 1940. O estudo abre também uma nova frente de expansão do VIH-1, para lá do percurso assumido pela ciência e que passava por Lubumbashi e Mbuji-Mayi — cidades da RDC — mas a partir de agora também por Luanda.

As conclusões foram suportadas pelas pesquisas nos Censos da Bélgica do início do século XX, documentação dos arquivos do antigo Ministério das Colónias, atual Ministério dos Negócios Estrangeiros belga. Coube a João Sousa vasculhar mapas e páginas com estatísticas centenárias. Há dez anos que este engenheiro de formação analisa dados demográficos e informações sobre incidências de muitas doenças, porque naquela época, como a sida não estava identificada, era confundida com tuberculose, pneumonias e linfomas vários.

Kinshasa aparece como o ponto zero da pandemia e Luanda, de acordo com o estudo, terá sido atingida ainda antes de Brazzaville, capital do Congo, ou Lubumbashi. Mas tão importante quanto a fixação temporal da entrada do vírus nestas cidades é perceber a quantidade de pessoas infetadas. E a resposta estará nos Censos do ex-Congo belga, que referem que chegaram a viver cerca de 2600 angolanos em Kinshasa, a maioria homens. O equivalente a 26,6% da população total em 1930, muito mais do que os trabalhadores de outros países africanos.

O movimento migratório de trabalhadores angolanos para o então Congo Belga começou no final do século XIX, de forma a responder ao intenso desenvolvimento de Kinshasa, onde a construção de grandes obras de infraestruturas como o porto fluvial do rio Congo ocuparam milhares de pessoas.
DARWIN, SEXO E SERINGAS
“O crescimento da população e as alterações sociais, por exemplo, como a disponibilidade de um maior número de parceiros sexuais e a administração de fármacos por via injetável com seringas não esterilizadas terão tido um grande impacto no início da epidemia”, alerta Ana Abecasis.

Questionada sobre a metodologia, Ana Abecasis explica que como “o genoma do vírus VIH adquire novas mutações muito rapidamente, a análise destas mutações, quando combinada com dados geotemporais, permite analisar a dispersão no espaço e no tempo”. E, para que se perceba como funciona uma investigação que caminha em direção ao passado, diz: “Assim como Darwin conseguia reconstruir a origem das espécies olhando para as características morfológicas, conseguimos reconstruir a origem das epidemias virais olhando para as mutações no genoma do vírus.” É o que se chama “calibrar o relógio biológico”.

Neste trabalho, os investigadores reuniram um conjunto de 900 genomas de VIH isolados de doentes da RDC, da República do Congo e de Angola, tendo a seguir desenvolvido “uma análise detalhada que nunca tinha sido efetuada anteriormente, que permitiu testar a hipótese de haver um envolvimento de Angola na expansão inicial da epidemia, o que nunca tinha sido abordado”, refere Ana Abecasis, para concluir: “Foi assim que conseguimos determinar que o VIH já circulava em Angola, pouco depois da origem da epidemia em Kinshasa.”

Mas por que nunca se olhou para Angola? A resposta da investigadora é cautelosa: “Estará relacionado com a escassez de dados genómicos do VIH de indivíduos oriundos de Angola e, provavelmente, porque se tem olhado sobretudo para Kinshasa, o centro populacional mais importante nessa altura.” Mas, ao Expresso, reconhece que talvez tivesse faltado “um olhar português”.

A equipa inclui ainda a colombiana Andrea-Clemencia Pineda-Peña, a quem coube redigir o artigo, o historiador e antropólogo Jorge Varanda, a bióloga belga especializada em bioinformática Anne-Mieke Vandamme, o também belga Kristof Theys, o norte-americano Thomas Leitner, os farmacêuticos portugueses Inês Bártolo e Nuno Taveira.

Na origem de tudo estiveram os chimpanzés, infetados há milhares de anos com o vírus inicial. O problema foi quando a enfermidade saiu do circuito animal em estado selvagem para a espécie humana. Mas sobre o ato fundador da epidemia apenas se podem colocar hipóteses. “Estudos anteriores apresentaram a questão da transmissão animal/humano e concluíram que terá ocorrido numa região remota do Sudeste dos Camarões, a partir da subespécie Pan troglodytes troglodytes infetados por um vírus muito parecido com o VIH, o vírus da imunodeficiência símia (VIS)”, explica Ana Abecasis.

A investigadora avança que “a transmissão terá ocorrido pelo contacto de humanos locais com sangue de chimpanzés infetados durante o tratamento de carne para consumo. Depois, o vírus ter-se-á adaptado ao hospedeiro humano, de uma forma que ainda não está bem esclarecida, dando origem ao VIH”. Kinshasa está a cerca de 700 quilómetros de onde foram encontrados os macacos infetados. Bastaram.
CRONOLOGIA
1884
Entre o final do século XIX e 1924, nos Camarões, terá ocorrido a transmissão animal/humano do VIH

1906
Data da origem da pandemia em Kinshasa, na altura denominada de Leopoldeville. A Luanda, a doença terá chegado 18 anos depois

1959
Primeiro caso documentado do que hoje se conhece como sida, num homem que morreu em Kinshasa

1981
O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, anuncia a existência de uma nova doença que afetaria os homossexuais com base num surto incomum de pneumonia que afetava o sistema imunitário. Nesta altura, o vírus já estava na Europa e no Haiti, além da África Central, onde existiram cerca de 100 mil casos

1983
Investigadores do Instituto Pasteur isolam o vírus VIH-1, a doença é estabelecida em populações heterossexuais da África central, sugerindo que será muito mais antiga e é identificado o primeiro caso em Portugal

1986
É acordada a denominação do vírus HIV: Vírus da Imunodeficiência Humana, na sigla em inglês

2016
Em 2015, estimava-se que 2,2% da população angolana estivesse infetada. Em todo o mundo, são mais de 75 milhões de pessoas
NÚMEROS
26,6%
é o pico do número de imigrantes angolanos em Kinshasa em 1930, o que permitiu a disseminação do vírus e a sua exportação para Angola

1924
Data estimada pelo estudo coordenado por Ana Abecassis para a chegada do vírus VIH-1 a Luanda. (expresso)

Por: Christina Martins

1 COMENTÁRIO

  1. Só para adiantar que como angolano entendo que é muito duvidoso esse estudo. Luanda entre 1910-1940 era uma cidade com muitos europeus que se relacionavam com mulheres negras e que se saiba nenhum óbito foi registado com causas desconhecidas de onde tenham surgidos outros mais mesmo na população negra com carácter de endemia ou pandemia, a não ser as doenças que eram consideradas sazonais. Por outra não havia grande mobilidade entre a população negra condicionada pelo colonialismo, não tinham livre circulação pelo território. O provável relacionamento entre congoleses e angolanos era fronteiriço, de fronteiras inventadas pelos europeus na Conferência de Berlim. A parte norte angolana que confinava com a parte congolesa, tinham respectivamente a denominação de Congo português (Angola) e Congo belga (a actual RDC). Nenhum especialista africano angolano ou congolês ou de outra origem ao que parece não participou no estudo da sra Dra Ana Abecasis. Quando me refiro a especialista africano, não coloco a questão da cor da pessoa, pois por certo há esses especialistas africanos e quer tenham a cor tiverem. Pesquisem mais e melhor e não se socorram das vossas credenciais para lançarem suspeitas entre populações africanas de estarem na origem e propagação do HIV-1 Sida, que só registou o primeiro caso em Angola em 1984 do século XX, muito depois de terem surgido casos nos EUA e em países europeus. Não se esqueça sra Dra e sua equipa deveriam perguntar aos Russos de onde surgiu esta epidemia. Nos tempos da ex-URSS diziam eles que tal vírus transitou para o ser humano a partir de desenvolvimento da estirpe em laboratórios militares dos EUA. Pergunte aos russos se ainda corroboram dessa mesma afirmação e com que bases a fundamentaram os cientistas da ex-URSS ou se era apenas propaganda fruto da guerra psicológica dentro da Guerra Fria que terminou em 1991 com a queda do muro de Berlim e fim da URSS. Tenho dito.

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