Samora Machel estava “corretíssimo” em relação às causas da guerra

(Reuters)

O primeiro Presidente moçambicano, Samora Machel, estava “corretíssimo” ao definir a guerra civil moçambicana como “guerra de desestabilização” movida do exterior, disse em entrevista à Lusa o antigo chefe de Estado Joaquim Chissano.

“O Presidente Samora estava muito correto, corretíssimo: o fator era mesmo um fator externo”, afirmou Chissano sobre o facto de Machel ter considerado a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que moveu uma guerra de 16 anos, uma criação de forças exteriores e não um movimento genuinamente moçambicano.

Chissano apontou o exemplo do primeiro secretário-geral da Renamo, Orlando Cristina, assinalando que o mesmo tinha sido enviado pela PIDE, antiga polícia política portuguesa, para ações de desestabilização da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), quando o movimento ainda se preparava para lançar a luta armada contra a dominação colonial, em 1964.

“Orlando Cristina é um exemplo vivo, porque veio a aparecer como líder da Renamo. Antes de [Afonso] Dhlakama ser líder da Renamo, antes de [André] Matsangaíssa ser líder da Renamo, houve um Orlando Cristina e outros que fugiram daqui para a África do Sul”, defendeu Joaquim Chissano, sucessor de Machel, após a sua morte, em 1986.

“Estávamos alertados disso tudo, de como age o inimigo. O Presidente também falou e escreveu sobre como age o inimigo. O Presidente Samora Machel não estava a dizer coisas por acaso, é do conhecimento profundo das causas do aparecimento das causas de guerra de desestabilização”, frisou Joaquim Chissano, que também foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique durante os 11 anos de independência.

De acordo com Chissano, o regime colonial português procurou sempre formas de inviabilizar a independência de Moçambique, chegando inclusive a criar partidos fictícios em vésperas da independência de Moçambique e a propor a organização de um referendo.

Chissano sublinhou que a Renamo é criação de colaboradores do regime colonial português e dos serviços de segurança da antiga Rodésia (atual Zimbabué), que, que depois passaram a tutela do movimento para o regime do “apartheid” da África do Sul.

“Tivemos que adiar as [primeiras] eleições [multipartidárias], que deviam ter tido lugar em 1993, para dar tempo, para que a própria Renamo se organizasse como partido político”, acrescentou o antigo chefe de Estado moçambicano.

O entendimento pela Frelimo de que a Renamo era um instrumento de desestabilização de Moçambique movida a partir do exterior levou o Governo moçambicano, na altura chefiado por Samora Machel, a assinar o Acordo de Nkomati em 1984, para obrigar o regime do “apartheid” na África do Sul a cessar o apoio ao movimento já liderado por Afonso Dhlakama, após a morte de André Matsangaíssa.

Em troca, a Frelimo comprometia-se a expulsar de Maputo os militantes do Congresso Nacional Africano (ANC), que na altura lutava contra o “apartheid”.

Apesar da assinatura do Acordo de Nkomati, a guerra em Moçambique não parou, conhecendo inclusive um recrudescimento, tendo cessado em 1992 com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma.

O primeiro Presidente moçambicano morreu num desastre de aviação a 19 de outubro de 1986 em Mbuzinini, na África do Sul, quando viajava entre a Zâmbia e Maputo.

As autoridades moçambicanas mantêm até hoje a versão de que o avião foi derrubado intencionalmente pela África do Sul. (Noticias ao Minuto)

por Lusa

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