Porque não alimentar com Haddad o zumbi petista – e outros mortos-vivos

(DR)

O PT é um cara esquisitão. Evidentemente o PT é um partido, não um cara – mas a expressão de seu psiquismo coletivo é tão psicanalizável que de vez em quando se parece mais com uma personalidade una. E das mais transparentes. Consideremos a eleição para prefeito de São Paulo.

Haddad, que parecia totalmente fora do páreo até alguns dias atrás, está tentando surfar uma onda similar à que o levou ao mandato em 2013. Aquela foi a campanha do “Amor sim, Russomanno não”, da “Praça Rosa” e do “Existe amor em SP”. Eu fui um dos malas que ajudou a conceber isso aí – hoje estou no campo oposto.

Mas não penso que na época fosse descabido. Lembremos que a votação seria no fim de 2012. Ou seja, antes das manifestações de 2013. Falar de uma possível renovação do PT ainda estava no horizonte político (inclusive porque o grau de aparelhamento e corrupção do partido ainda não tinha sido exposto pela Lava Jato; apenas pelo processo do Mensalão, o que parecia indicar, digamos, um câncer político localizado e eventualmente controlável).

Na verdade, tive com o jornalista André Forastieri um diálogo em que eu afirmava que a eleição de Haddad seria a plataforma para a posterior saída do candidato do partido – e ele respondia que Haddad jamais trairia a confiança e o investimento de Lula. Ainda que eu não estivesse errado no diagnóstico (quase profético) dessa necessidade de ruptura, na prática ele é que estava certo.

Mas veio 2013, o PT não entendeu nada e, ainda por cima, foi tudo menos amoroso (na crescente disposição para reprimir manifestações à esquerda – chegando ao absurdo da lei antiterrorismo e da repressão em geral contra o movimento anticopa). Haddad foi particularmente poltrão na questão dos vinte centavos, quando parecia atrelado às políticas do governador Alckmin por uma submissão quase filial (tem uma teoria conspiratória que não vem ao caso, mas que é suficientemente engraçada para ser mencionada, a de que Alckmin estava introduzindo Haddad na maçonaria por essa época, e por isso a polidez conciliatória aparentemente descabida com o governador).

A reeleição de Dilma em 2014, marcada por uma atitude chantagista e mentirosa, em cujo centro esteve a desconstrução de Marina Silva, uma ex-petista, foi o que nos trouxe a este momento. Eu já tentei explorar em vários textos o que significou e o que esteve por trás da saída de Marina do PT, e da entronização de Dilma como sucessora – para resumir em uma frase, a escolha definitiva entre corrupção (Belo Monte) e dignidade (preservação).

Não custa lembrar que, se o PT tivesse permitido um segundo turno entre Dilma e Marina, a história seria totalmente outra, mesmo que Dilma vencesse. A desconstrução de Aécio e de sua agenda, por duas mulheres “de esquerda”, se ele não fosse ao segundo turno, seria suficiente para reescrever nossa história recente (eu tratava disso em outubro de 2012)

Aí é que chego à questão da psicanálise do “cara petista”. Primeiro, faço questão de defini-lo como homem e, especificamente, como homem mimado e mimizento, para desconstruir essa falácia de que a derrubada de Dilma foi um ato de machismo, ou só um ato de machismo. Obviamente os masculinistas quereriam derrubar Dilma; mas só eles não dariam conta disso.

O problema é que, nesses 16 anos, o PT foi se tornando mais e mais agressivo com a assim chamada esquerda, e conciliador com a assim chamada direita. Não preciso discorrer de novo sobre todos os fartos exemplos dessa conciliação, desde a conivência com todas as bancadas fisiológicas até o acordo espúrio com o agronegócio assassino de índios e lacrador da natureza, materializado na “primeira amiga” de Dilma, a senadora Kátia Abreu. E, claro, o abandono de agendas feministas centrais, como a autodeterminação reprodutiva (direito ao aborto).

Mas fica óbvio que a obsessão petista, por assim dizer, é com o “irmão mais cheiroso” (o PSDB), e com suas “mulheres traidoras” (Marina, Erundina, Marta). E de novo, na eleição para a prefeitura de São Paulo, esse psiquismo rancoroso, que no fundo é bem mais frágil do que parece, fica à vontade para deitar e rolar.

No que se articula o crescimento de Haddad nos últimos dias? Muito precisamente em três pontos. Começando pela escolha de quem é o “inimigo” político predileto. No caso, a ex-prefeita Marta Suplicy. Já vimos isso na reeleição de Dilma: a campanha e o eleitorado petista tomados por um rancor de seita meio irracional, mais voltado a quem abandonou o partido do que ao que seria o território político oposto de fato: particularmente o PSDB. (No caso de São Paulo, também Russomanno e seu pavoroso PRB, o partido do bispo Edir Macedo, surgido na base do governo petista. O mesmo do candidato bispo Crivella no Rio).

O segundo ponto: poupar Dória. Claro que há a questão estratégica, de que Dória parece consolidado no primeiro lugar, e a disputa se dá pela segunda vaga no primeiro turno. Mas um partido dito de esquerda teria a obrigação de fazer a disputa ideológica, não só a estratégica. Disputa da qual Erundina – a outra ex-petista e ex-prefeita –, não se furta nunca (mesmo que com um ou outro erro de leitura, ao embarcar na narrativa do “golpe”).

Erundina, aos 81 anos, parece ainda em melhor forma do que quando foi prefeita da cidade, há 27 anos. Incorporou uma espécie de dignidade ancestral que está além e acima de seus esquerdismos, alguns datados (Demétrio Magnoli faz, neste texto, uma análise interessante sobre o embate internacional de duas visões de esquerda que se reproduz no país). Erundina, que se recusou a ser vice de Haddad pelo acordo retratado na foto que encabeça este texto. Quanto a ela, a campanha petista adotou um sórdido chamado à sua desistência – para “unir as esquerdas” (coisa de que o PT só lembra eloquentemente quando está a perigo).

Esse fogo em cima de Marta e Erundina, e o descaso para com o discurso abertamente predador de Dória (um fulano que tem um negócio minúsculo mas zilionário em verbas de anunciantes, a revista Caviar, e cuja real atividade, não-produtiva, é a articulação empresarial na Lide – grupo de “lideres empresariais” que controlam 52% do PIB, segundo eles mesmos), trazem uma certeza e um risco.

A certeza é a de que era mais fácil do que parecia a aposta de Alckmin: a de que destronaria a ala ideológica clássica do PSDB de São Paulo (de FHC, Covas, Montoro, Serra etc), substituindo o DNA social-democrata do partido por seu alinhamento ultraconservador (o fator Opus Dei + empresariado). É, de novo, o PT trabalhando para reconstruir o PSDB (ou especificamente o pior do PSDB), como fez com Aécio na eleição presidencial.

O risco é o de que, se a população de São Paulo (a gente normal, não a bolha “lacradorx” das redes) surtasse junto e reelegesse Hadad, teríamos uma dilmização da cidade, conflagrando-a ao ponto da ingovernabilidade. O fio de razoabilidade histórica desta eleição, se não prevalecesse a força do marketing político, estaria exatamente no embate entre as duas ex-prefeitas e ex-petistas. Erundina, representando o campo dos trabalhadores e da esquerda sincera.

E Marta, com seu vice Andrea Matarazzo, representando a grana “benévola” de centro-esquerda. Esse diálogo acabou se dando de forma forçada: foi o trator pró-Dória de Alckmin que espirrou Matarazzo, candidato natural, para fora do PSDB. E as manobras de Lula para privar Marta de seu protagonismo no PT paulista, mais a absoluta incompatibilidade com Dilma, que empurraram Marta para fora do partido.

Mesmo assim, tardia e deslocadamente, Marta e Matarazzo juntos simbolizam a conversa que PT e PSDB deveriam ter tido há 15 anos – para poupar o país deste desastre. Marta fez um cálculo político ao preterir o PSB pelo PMDB: ela imaginou que estar no partido do futuro presidente (Temer), com Eduardo Cunha já cassado, representaria mais votos ganhos do que perdidos. Com a desmoralização do PT, não esperava ser demonizada.

Mas a neurose desse cara esquisitão, o PT, continua contaminando uma parte do eleitorado com sua narrativa paranoica de “golpe” (como se não fosse o próprio partido e suas escolhas duvidoas que tivessem armado a encrenca toda, que vemos estampada com eloquência na imagem acima). E faz o possível para manter a casa bagunçada – e sua disputa insana com o irmão mais cheiroso eternizada.

“Existe amor” coisa nenhuma. Existe é a necessidade política de arrancar o tubo político de Lula e do PT. Não para uma vitória da direita, mas precisamente o oposto: permitir que um debate racional ressurja à esquerda. A tentativa de reeleger Haddad é, muito simplesmente, não só a manutenção de sua pauta hipster (que pinta ciclovias e abre a avenida Paulista, mas é ecologicamente irresponsável e se recusa a conceder um parque Augusta já pago, ou a preservar um parque dos Búfalos e outras regiões de mananciais). Mas principalmente garantir a sobrevida do chantagismo social de Lula e do PT.

O tom cínico de Haddad dizendo para Marta “talvez tenha sido o Kassab que te aconselhou”, sendo que Gilberto Kassab era exatamente o aliado de Dilma para criar um partido neofisiológico que substituísse o PMDB, na ação que precipitou a inviabilização da ex-presidente, foi para mim o momento mais enojante do último debate (e essa não foi uma disputa nada fácil, dada a quantidade de absurdos disparados).

A referência a Kassab é porque o vice Matarazzo está no partido dele – mas o vice do próprio Haddad é o corrupto (e charlatão da autoajuda) Gabriel Chalita (veja foto). É a aposta em uma narrativa moralizante superficial, que se converte em uma quase-alucinação, enquanto por baixo o jogo sujo continua animadíssimo.

Berço do petismo, São Paulo deve ao Brasil a cabeça de Haddad em uma bandeja. Mas e quem vai ganhar? Como fica a cidade? Fica mais ou menos, como sempre. Se não for com Marta (porque Erundina está praticamente fora do páreo), realmente tanto faz. A assim chamada esquerda precisa de tempo para se repensar, e não turbinar esse derradeiro boneco petista. Haddad é o último de uma época, não o primeiro da próxima.

Porque Haddad poderia ter saído do PT – e não ter virado essa mistura indigesta entre práticas stalinistas e populistas, que não ultrapassam a metade do século passado, com alegações de século 21. Ele não o quis; ao contrário. Com fidelidade aparelhista, acolheu no secretariado o infame Alexandre Padilha, após o espancamento político que esse candidato levou na disputa para governador em 2014.

Se São Paulo se tornasse a última grande base do petismo – e com a perda de dezenas de milhares de cargos no nível federal –, não seria nada bonito imaginarmos o grau de aparelhamento a que a cidade seria levada. Não. Arranquemos o tubo. E desapeguemos do defunto petista. (Yahoo)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA