Mitterrand em mais de mil cartas de amor

Mazarine Pingeot-Mitterrand e a mãe, Anne Pingeot, no funeral de François Mitterrand, em 1996 (FOTO: PHILIPPE WOJAZER/REUTERS)

No dia 13 chega às livrarias francesas um volume com 1218 cartas que o antigo Presidente francês escreveu a Anne Pingeot, a mulher com quem viveu um amor clandestino durante mais de 30 anos.

Um dos grandes estadistas do século XX na intimidade, escrevendo, apaixonado, à mulher da sua vida: “Quando te encontrei percebi logo que ia partir numa longa viagem”, diz-lhe em Novembro de 1964. “Lá, para onde vou, sei ao menos que tu estarás sempre. Abençoo o teu rosto, minha luz. Jamais haverá uma noite absoluta para mim. A solidão da morte será menos solidão. Anne, meu amor.”

Durante mais de 30 anos, François Mitterrand (1916-1996), antigo Presidente francês (1981-1995), teve uma relação extra-conjugal com a historiadora de arte Anne Pingeot, com quem viria a ter uma filha, Mazarine. Uma relação que permaneceu secreta.

Agora, Pingeot, 73 anos, conservadora honorária do Museu D’Orsay, resolveu que era tempo de publicar as mais de mil cartas que Mitterrand lhe escreveu. Lettres à Anne (1962-1995), o volume de 1280 páginas que a editora Gallimard faz chegar às livrarias a 13 de Outubro, está já a agitar os franceses.

Excertos das cartas publicados na quarta-feira na revista L’Obs, que inclui ainda fotografias inéditas, e no jornal Le Figaro (esta quinta-feira) tiveram eco em vários meios de comunicação e já lançaram o debate sobre o direito à privacidade dos políticos. Um debate em que a antiga amante do Presidente certamente não participará, pelo menos publicamente.

Anne Pingeot, que passou um ano a transcrever e a anotar as centenas de cartas e poemas agora editados, já anunciou que não participará em qualquer iniciativa de promoção do livro que já se antecipa um best-seller.

Fiel à sua habitual discrição, a mesma que lhe permitiu viver um amor proibido longe dos holofotes durante mais de três décadas, a historiadora de arte justificou a amigos próximos o timing desta publicação dizendo, segundo a agência AFP e a edição francesa do jornal online Huffington Post, que ela já não pode magoar ninguém – François Mitterrand morreu há 20 anos e Danielle, a mulher com quem ele casou em 1944,  há cinco.

“Era este o momento”, disse o jornalista Philip Short, autor de um livro sobre Mitterrand que saiu em 2015 (Portrait d’un Ambigu), citado pela AFP. “Durante anos, Anne tolerou mal as versões não autorizadas da sua vida que circulavam. Quis, sem dúvida, dar a sua versão da verdade.”

Diz quem as leu, como o escritor e jornalista Jérôme Garcin, da L’Obs, que as cartas revelam um homem apaixonado, um companheiro atento e um leitor voraz, que não deixa de lado as suas obrigações políticas nem as preocupações de Estado.

A Pingeot, Mitterrand conta como lhe correm os dias longe dela, o que pode incluir reuniões com líderes mundiais e episódios dos bastidores do Eliseu, a Pingeot admite fraquezas e inseguranças. “Pus uma fotografia tua à minha frente no escritório”, escreve-lhe em Maio de 1964. “Acabo de te deixar. Acabo de acender o candeeiro da minha vigília (um cavalo veneziano em cobre  serve de suporte e o abat-jour, cor de mel, é de um tecido forte).

Penso em ti com tal ternura que é impossível que, neste momento, o teu coração não o saiba. Tenho o coração e a consciência mais livres, mais tranquilos desde que te falei. De mim para ti tudo é dito. E não me arrependo, mesmo que isso te assuste. […] Se optares pelo caminho que te conduz a mim, só a morte me afastará.

Se tomares outro caminho, o meu orgulho e a minha alegria, com a minha dor pelo meio, estarão no facto de ter preservado a integridade daquela que amo. Terei ganho ao menos o afecto da tua alma, Anne querida, que vale bem todas as renúncias.”

Anne Pingeot e François Mitterrand apaixonaram-se no começo dos anos 1960, quando o político francês tinha 46 anos e ela 19. Diz quem o conheceu, entre eles biógrafos e amigos próximos, que Pingeot não era apenas a sua amante, era a mulher da sua vida.

Esta relação intensa, de grande cumplicidade, só se tornou pública em 1994, quando a revista Paris Match publicou fotografias do então Presidente da República a sair de um restaurante parisiense com a filha de ambos, Mazarine, nascida 20 anos antes. Um escândalo mediático.

É precisamente a Mazarine, hoje uma escritora de 41 anos, que se dirige uma das cartas que Anne quis ver publicadas: “Mazarine, querida, escrevo pela primeira vez este nome. Sinto-me intimidado perante esta nova personagem sobre a Terra que és tu. Tu dormes. Tu sonhas. […] Mais tarde vais conhecer-me.

Cresce, mas não demasiado depressa. […] Anne é a mamã. Verás que não podíamos ter escolhido melhor, tu e eu.”
“Sou feliz por tua causa”
O volume da Gallimard reúne aquilo que o Figaro define como uma “correspondência prodigiosa” – na quantidade, na qualidade, na diversidade – em que o antigo Presidente revela o seu talento para a escrita em arroubos líricos de um entusiasmo que por vezes parece juvenil e considerações políticas.

É Mitterrand quem diz que Pingeot despertou nele sentimentos que desconhecia, é Mitterrand quem admite sentir necessidade de lhe contar tudo, é Mitterrand quem confessa que, até a encontrar, construíra um muro à sua volta para se proteger, criando um espaço onde a alegria e a paz nunca o visitaram: “Sim, preciso muito de ti, minha Anne. Sim, sou feliz por tua causa. E não tenho se não um desejo: dar-te o equivalente ao que recebo. Estar ao serviço da tua vida.”

Uma das cartas, em Setembro de 1965, é escrita quando Mitterrand acaba de fazer saber que é candidato à presidência da república. Nela fala-lhe dos momentos “intensos”, por vezes “dramáticos”, das últimas horas.

Para depois voltar a um registo que só a eles diz respeito: “Sabes que penso em ti e que é maravilhosamente útil que exista este amor Anne-François? Adoro-te Anne e anseio pelos teus braços, pelos teus lábios, pela tua ternura, pela tua paz. Anne, meu amor, até amanhã. Amo-te.”

Em 1995, três meses antes de morrer, diz na última carta que a sua felicidade continua a estar em poder pensar nela, em poder amá-la: “E eis que não sei mais o que fazer de mim, o meu tempo está a acabar. Uma verdadeira conspiração!

Mas eu sairei deste estado bizarro, ridículo e pitoresco. É muito difícil saber que uso devemos dar à vida. O resto é mais fácil porque basta tomar decisões. […] Tu sempre me deste mais. Tu foste a minha possibilidade de vida. Como não te amar?”

No volume não há qualquer missiva de Anne Pingeot para Mitterrand. Esse arquivo não é seu. O que há são cartas e cartas em que se vê um homem entre a sua vida política e a intimidade, entre os seus deveres públicos e os seus desejos privados, procurando equilibrar uns e outros, mesmo quando isso parece impossível:  “É uma vaga de fundo, meu amor, ela arrasta-nos, separa-nos, e eu grito, grito, tu ouves-me  no meio do tumulto, tu amas-me, eu sou desesperadamente teu […]. Amar-te-ei até ao meu fim, e se tens razão ao acreditar em Deus, amar-te-ei até ao fim dos tempos.”

Para quem quiser uma leitura mais contextualizada de Lettres à Anne talvez não faça mal “ouvir” Anne Pingeot nas páginas da biografia de Mitterrand que o jornalista Philip Short, correspondente da BBC em Paris, lançou em 2015.

Nela fala muitas vezes em como foram anos “duros”, com muitas promessas de vida em comum sempre por cumprir. Mitterrand, a quem atribuíram várias relações fora do casamento, nunca deixou Danielle. Pingeot acreditou muitas vezes que o faria. (publico)

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COMENTÁRIOS

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  1. ana cristina

    consultora , Lisboa

    se tenho saudades do tempo dos “grandes estadistas” e de um tempo em que um presidente da república francesa tinha visão e usava na perfeição o imperfeito do conjuntivo, não tenho saudades do tempo dos amores clandestinos em nome da honorabilidade necessária para ser eleito. desde Mitterrand, os franceses já tiveram vários presidentes divorciados, separados e até em violenta crise conjugal sob os olhares do país e não veio daí mal ao mundo.

     

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