Incidentes e abstenção marcam referendo na Costa do Marfim

(AP)

O referendo sobre a nova Constituição costa-marfinense, que este domingo chamou às urnas 6,3 milhões de eleitores, foi manchado por vários incidentes em assembleias de voto. Governo afirma que a votação correu “bem”.

Grupos de jovens interromperam a votação e vandalizaram assembleias de voto em dois bairros populares de Abidjan, em Gagnoa, a 270 quilómetros a oeste da capital e reduto do ex-Presidente Laurent Gbagbo, assim como noutras localidades.

O ministro do Interior, Hamed Bakayoko, referiu incidentes “em cerca de cem mesas de voto” num total de mais de 20 mil em todo o país, mas garantiu que, no geral, a votação correu “bem”.

“Esperamos que com a nova Constituição se resolva toda a confusão que houve em torno da presidência”, disse um eleitor de Abidjan, à saída de uma assembleia de voto.

A revisão constitucional prevê a criação do cargo de vice-presidente e de um Senado, com um terço dos seus membros nomeados pelo Presidente. O texto pretende também abolir a chamada cláusula “marfinense”, em vigor desde 2000, que estipula que ambos os pais de um candidato presidencial devem ter nascido na Costa do Marfim.

Uma questão de nacionalidade

A questão da identidade nacional contribuiu para a instabilidade na Costa do Marfim, que se viu a braços com um golpe de Estado em 1999, uma guerra civil em 2002 e um período de violência depois das eleições de 2010, quando o ex-Presidente Laurent Gbagbo se recusou a aceitar a derrota eleitoral e a deixar o poder.

A questão da nacionalidade foi levantada na altura como um obstáculo à candidatura do atual chefe de Estado, Alassane Ouattara, nascido na Costa do Marfim e filho de pai do Burkina Faso.

“É um virar de página da crise que surgiu da Constituição de 2000 e é essencial para o futuro do nosso país”, declarou este domingo (30.10) o Presidente, que agradeceu ainda aos cidadãos que foram às urnas e reiterou que a Constituição “é em prol da proteção e prosperidade de todos os costa-marfinenses, sem exceção, mas principalmente para a consolidação dos direitos políticos”.

Texto “monárquico e retrógado”

A oposição apelou ao boicote do referendo, acusando as autoridades de não consultarem nem a oposição nem a sociedade civil e de quererem passar o projeto “às escondidas” com uma campanha de sete dias e uma fraca difusão do texto que consideram “monárquico e retrógrado”. Críticos acusam Ouattara de criar o cargo de vice-presidente para preparar a sucessão depois de terminar o mandato, em 2020.

Uma pequena fatia dos pouco mais de seis milhões de eleitores compareceu nas urnas. Duas coligações da oposição dizem que a participação ficou entre os 3% e os 7%.

“Não houve muito entusiasmo por parte da população porque não houve uma boa comunicação sobre a proposta do novo texto constitucional, que não foi bem compreendido nem pela população nem pelos líderes de opinião, que normalmente dão indicações sobre o sentido de voto”, afirma o observador eleitoral costa-marfinense Paul Caves.

Os resultados do referendo constitucional devem ser conhecidos até esta terça-feira (01.11). (DW)

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