Estupro e assassinato brutal de jovem reacende mobilização na Argentina

Manifestantes tomam as ruas de Buenos Aires em protesto contra a violência contra a mulher, em 3 de junho de 2015 (Afp)

O caso de Lucía Pérez, que aos 16 anos foi drogada, violentada e empalada até a morte, reacendeu a revolta na Argentina, com mobilizações contra a violência sexista que leva uma mulher a ser morta a cada 36 horas.

O brutal assassinato de Lucía motivou a convocação de uma “Greve de mulheres” para esta quarta-feira (18). Ao anoitecer, será realizada a quinta mobilização do ano contra mortes violentas como a de Pérez, assim como a precarização social e no mercado de trabalho de muitas mulheres.

Trata-se de um dia de protesto convocado por 50 organizações, através de redes sociais, que implicará uma hora de paralisação das mulheres com “apitos” em locais públicos.

Depois, marcharão para o centro de Buenos Aires, onde pedem que as participantes usem roupas pretas e repitam os lemas “Nem uma a menos” e “Nós nos queremos vivas”.

Adolescente de Mar del Plata, 400 km ao sul da capital, Lucía foi drogada, violentada e empalada pelo ânus, o que lhe causou uma dor tão insuportável que ela sofreu uma parada cardíaca. Também foi forçada a usar cocaína antes das agressões para impedir que pudesse se defender, revelou a promotora encarregada do caso, María Isabel Sánchez.

Segundo a reconstituição dos fatos, Lucía conheceu os dois detidos – Matías Farías (23) e Juan Pablo Offidiani (41) – um dia antes de morrer, com a única finalidade de comprar um cigarro de maconha junto com uma amiga.

“Sei que não é muito profissional dizer isso, mas sou mãe, mulher e vi mil coisas durante minha carreira, mas nunca nada igual a essa conjunção de fatos aberrantes”, disse a promotora Sánchez.

O crime foi cometido em 8 de Outubro.

Os supostos autores eram conhecidos traficantes que vendiam maconha perto do colégio frequentado por Lucía, segundo as investigações.

Depois do crime, deram banho em Lucía e levaram-na para um hospital, onde disseram que tinha sofrido uma overdose.

Os médicos constataram lesões anais, indicadoras de ato sexual violento. “Não introduziram nela apenas membros viris”, disse Sánchez.

Lucía estava com “o nariz roxo de tanta cocaína que a obrigaram a cheirar”, disse o pai da moça, Guillermo Pérez.

Ao lado da mãe da vítima, Marta Montero, ele liderou uma passeata no sábado (15) que mobilizou milhares de pessoas em Mar del Plata. Os pais imploram que os detidos não sejam libertados.

“Não podemos entender tamanha barbárie. É impossível de entender”, lamentou a mãe.

O crime de Lucía chocou pelos detalhes macabros. Não conseguiu evitar, porém, que em quase dez dias ocorressem pelo menos outros quatro assassinatos de mulheres por seus maridos, ou ex-companheiros.

A advogada Sabrina Cartabia, da associação civil Rede de Mulheres e integrante do colectivo “Nem uma a menos”, disse à AFP que as múltiplas manifestações não conseguiram se materializar em políticas públicas capazes de proteger a vida e a dignidade das mulheres.

No entanto, há uma década, uma mulher maltratada demorava em média seis anos para denunciar sua situação.

“Hoje, essa média diminuiu para um ano”, apontou.

A “Greve de Mulheres” desta quarta-feira também busca “dar visibilidade” ao fato de que, segundo as estatísticas, a mulher é mais vulnerável ao desemprego e à informalidade.

“Em um contexto de precariedade, sem acesso à autonomia económica e com filhos, é muito mais difícil superar a violência doméstica”, exemplificou Cartabia.

Em meio às dificuldades económicas, pelas quais a Argentina atravessa, o país registra uma taxa de desemprego de 9,3%. “Mas, no caso das mulheres, já beira os 12%”, afirmou, com base em cifras da Rede de Mulheres.

Entre os 30% de trabalhadores sem carteira assinada, grande número é de mulheres, as quais carecem de direitos como licença-maternidade, subsídios por filho, ou férias.

O Registo Nacional de Feminicídios, da Corte Suprema de Justiça, indicou que, em 2015, houve 235 mulheres assassinadas, uma a cada 36 horas. (Afp)

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