Dia Mundial da Alimentação: a realidade e o sonho

Gabriel Baguet Jr (Foto: Jorge Monteiro/Portal de Angola)

O número de pessoas que sofrem fome no mundo é inferior a 800 milhões pela primeira vez desde o início da divulgação das estatísticas, o que representa uma redução de quase 25% em 25 anos, anunciou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Há um caminho percorrido, mas há uma longa estrada para percorrer para que o combate à Fome, a Redução da Pobreza e a Segurança Alimentar e Nutricional possam chegar ao valor Zero. No Dia Mundial da Alimentação que hoje se celebra, a FAO assinala a data para comemorar a fundação da Organização em 1945, mas também para sensibilizar a opinião pública mundial e os decisores políticos à escala planetária para um panorama de dificuldades mundiais. Neste desafio, encontram as Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento, as Agências de todo o sistema da ONU com enfoque nas acções da UNICEF, da OMS e de outros organismos que têm a consciência que as políticas públicas na redução da Pobreza e no Combate à Fome, têm que ser mais eficazes, mais amplas e as estratégias a tomar terão que ser multidisciplinares e sentidas. Este combate tem que ser feito na base de fortes convicções e que não estejam apenas ligadas à decisão política ou diplomática. Sendo crucial a acção da classe política em todo o mundo, como a arte da diplomacia e as sociedades civis a nível global, importa também que as agendas da própria Comunicação Social à escala planetária tenham a noção e a dimensão exacta desta tragédia e nos seus alinhamentos televisivos, radiofónicos e ao nível também da Imprensa escrita, não esqueçam esta realidade. Não é uma crítica. Apenas o apelo a uma reflexão e que possamos todos ser agentes da mudança de mentalidades e de enfrentar com humanismo, pragmatismo e realismo, este dilema que bate todos os dias no coração e na alma de milhões de seres humanos. O mundo actual está confrontado com imensos e complexos desafios. Mas é por essa razão que em conjunto e de modo individual devemos olhar e sentir de forma transversal esta realidade quotidiana e pensar sem cinismo e hipocrisia que o drama da Fome e da Pobreza é um grave problema social, mas também económico, apenas acontece aos outros. De acordo com uma nota da FAO e que cito, ” neste dia são organizados eventos em mais de 150 países no mundo inteiro, tornando-o num dos mais celebrados do calendário nas Nações Unidas. Estes eventos promovem a consciência e a acção global em prol daqueles que sofrem de fome e apela à necessidade de garantir a segurança alimentar e uma dieta nutritiva para todos. O Dia Mundial da Alimentação representa também uma importante oportunidade para difundir uma mensagem categórica: podemos acabar com a fome na presente era e tornar-nos na Geração Fome Zero, mas é necessário que todos trabalhemos juntos para alcançar este objectivo.” Destes abrangentes princípios que a FAO enuncia e que são dignos de análise e preocupação, o Dia Mundial da Alimentação em Lisboa é celebrado no Jardim Botânico Tropical, com múltiplas actividades e Organizações que em parceria com a FAO Portugal junto da CPLP, tem desta esta manhã, a convergência de olhares e saberes diversos sobre o Combate à Pobreza, à Segurança Alimentar e Nutricional, à importância das Leguminosas, cujo Ano Internacional é o de 2016 e por isso, entre as históricas e centenárias palmeiras e Esculturas Africanas que figuram neste espaço museológico português, estão stands vários que mostram o que é feito, o que pode ser feito e o que está por fazer.

Para Hélder Muteia, Representante Permanente da FAO em Portugal junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ” o combate à Fome é uma realidade efectiva. Mas não basta ter apenas consciência dos factos. É preciso agir. Agir em nome de quem sofre.”. Por outro lado e na sequência deste pensamento de Hélder Muteia, importa também destacar que no Relatório sobre a Insegurança Alimentar no Mundo ( SOFI 2015 ) progresso foi particularmente notável na América Latina e na Ásia. A África subsaariana permanece em alerta vermelho, com 23,2% de sua população subalimentada.

O relatório de 2014 apontava que ainda havia cerca de 805 milhões de pessoas sem alimentos suficientes no planeta – um a cada nove habitantes do mundo.

A FAO, com sede em Roma, destaca que mais da metade dos países em desenvolvimento (72 de 129 países) alcançaram a Meta do Milénio de reduzir para metade a Fome entre os anos 2000 e 2015.

No entanto, a organização chama a atenção para a persistência das circunstâncias que dificultam a luta contra a Fome, como as catástrofes naturais, os conflitos, as mudança climáticas e as crises financeiras.

“A fome nos países que conhecem este tipo de situação é três vezes maior que em outros locais. Em 2012, quase 366 milhões de pessoas viviam neste tipo de contexto, das quais 129 milhões estavam subalimentadas”, explica o Relatório. Mas se esta evidência mostra claramente que há outros passos a dar, o Dia Mundial da Alimentação este ano também coincidiu com o Ano Internacional das Leguminosas e o tema escolhido para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura esta subordinado ao tema ” O Clima está mudando. A Alimentação e a Agricultura também.” Este relação triangular entre o Clima, a Alimentação e Agricultura mostra uma opção muito inteligente pelas consequências que as Alterações Climáticas têm na Alimentação e na Agricultura. Neste domínio importa referir que de acordo com a ONU, ” a Cimeira das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável em Mova-York em Setembro de 2015, 193 países comprometeram-se acabar com a pobreza e a fome, a proteger o planeta e a assegurar a prosperidade para todos. Cerca de seis meses depois , 177 membros da Convenção Quadro das Nações Unidas da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas reuniram-se em Nova-York para assinar o acordo de Paris sobre alterações climáticas, em que é reconhecida a importância da segurança alimentar. a meta global é alcançar a Fome Zero em 2030-uma meta ambiciosa que não pode ser alcançada sem abordar as mudanças climáticas. ” Oxalá que daqui por 30 anos este sonho se concretize. Terei eu 83 anos de idade se estiver vivo. Mas julgo que seria possível reduzir este tempo para menos de metade pois há meios financeiros e outros suportes que permitiriam chegar à Fome Zero antes de 2030. Mas neste artigo opto agora para não analisar de forma mais profunda esta questão e espero que desburocratizar o Desenvolvimento Humano constitua também uma garantia efectiva para quem precisa de ajuda. Relembro apenas que a 1 de Janeiro de 2016 entrou em vigor a resolução da Organização das Nações Unidas intitulada ” Transformar o nosso mundo: Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável”, constituída por 17 objectivos, desdobrados em 169 metas, que foi aprovada pelos líderes mundiais a 25 de Setembro de 2015, numa Cimeira que decorreu em Nova-Iorque. Novos desafios agora e no futuro implicarão por parte dos Estados Membros da ONU e de outras Organizações Internacionais, ter uma estratégia transversal que implique do Sector público e do Sector privado, mais e maior intervenção face a estes compromissos globais. Afinal a razão de ser destes organismos, alguns deles vocacionados para acções concretas e específicas em muitos domínios, resultam de existirem seres humanos em todo o planeta que justificam a sua existência funcional. Logo, a atitude terá que ser outra quando e de acordo com a FAO, por exemplo, morrem por ano, 3,1 milhões de crianças. É inaceitável. É inacreditável. Não é admissível. Mas como a esperança, diz o ditado, é a última a morrer, oxalá que a partir de 2017 e até ao final do ano de 2016 surjam outros indicadores e vontades no plano global para que os 17 Objectivos e as 169 metas transformem o “Mundo em nome dos Povos e do Planeta”, porque não há Estados abstractos.

A FAO e as demais agências da ONU que actuam na questão, como o Programa Mundial de Alimentos (PMA), alertam constantemente para a Insegurança Alimentar em países afectados por conflitos como Síria e Iraque, assim como o Mali, Iêmen, República Centro-Africana, República Democrática do Congo ou Sudão do Sul. Neste Dia Mundial da Alimentação, este tema correu o mundo e muitas foram as acções de sensibilização pública que permitiram realidades, projectos em curso e outras formas de olhar para o Clima, para a Alimentação e a Agricultura de outro modo, ficando-se em contacto com a Ciência, com a produção de alimentos biológicos, percebendo as necessidades nutricionais dos adolescentes, mulheres, homens, grávidas, lactantes e pessoa idosas e como duplicar a produtividade agrícola e reduzir sérias assimetrias sociais nos meios urbanos e rurais. No caso de Lisboa, o histórico Jardim Botânico Tropical, sediado em Lisboa, acolheu uma mostra plural do que está a ser feito, do que se pode fazer e como Universidades, Instituições públicas e privadas e agentes de vários domínios do saber e do conhecimento, podem ajudar a ONU, Governos e Organizações sub-regionais nesta concreta factualidade da Fome e da Pobreza. E neste âmbito, é importante realçar a parceria da Representação da FAO em Portugal junto da CPLP, da Universidade de Lisboa, do Instituto Superior de Agronomia, da Junta de Freguesia de Belém e de múltiplas instituições ligadas ao Ambiente, à Agricultura, à Cultura e à Ciência para uma jornada que começou logo de manhã e que estendeu-se até o sol desaparecer do horizonte do rio Tejo e dos sonhos que ainda faltam concretizar. Prevenir e corrigir, dialogar e implementar medidas vinculativas, poderá ser o ponto de partida para uma nova ordem de conceitos e estratégias neste e noutros domínios do Desenvolvimento Humano e do Desenvolvimento Sustentável.

Gabriel Baguet Jr

Jornalista/ Escritor e Padrinho da Campanha ” JUNTOS CONTRA a FOME”, uma iniciativa da CPLP e da FAO para combater a Pobreza e a Fome nos 9 Estados Membros da CPLP em exclusivo para o Portal de Angola.

3 COMENTÁRIOS

  1. Um Artigo de Opinião inteligente e abrangente. De facto entre a realidade e o sonho, há que mudar atitudes no domínio político, económico, da educação e de novas e emergentes políticas públicas. O mundo não mudará com burocratas, com acções concretas como este acto de escrita e cidadania activa. Aliás, o Autor deste prosa há muito que nos mostra a sua qualidade narrativa e analítica. E sobretudo uma cidadania activa.

  2. Um brilhante artigo de análise sobre uma questão tão preocupante no mundo actual. Admiro o destaque que o Portal de Angola, sua Redacção e estrutura Editorial dão a estes artigos tão valiosos para o nosso quotidiano. O autor tem tido ao longo dos anos uma preocupação com as questões do Desenvolvimento Humano e isso é muito enriquece-dor. Por não se pode ficar alheio à realidade mundial.
    Clara da Conceição Barreto, Investigadora.

  3. Mas como ignorar que cerca de 3 milhões de crianças passam Fome no mundo? Como meu Deus? O que fazem os políticos? O que fazem os Governos? Ninguém pede para nascer, nem para morrer. Mas como é possível tanta evolução nuns domínios e noutros, nada se faz. BASTA. BASTA. Felicito o autor pela coragem de tocar nesta ferida. Eu sei o que foi a Fome na minha vida. Fui ajudada, mas se não fossem pessoas com coragem e coração já não não estava aqui. Maria Assis Kiluange, estudante angolana em Coimbra.

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