Delírio em Las Vegas: Trump admite não aceitar o resultado das eleições

(Reuters)

Foi o momento mais marcante de um debate onde o candidato republicano voltou a marcar pontos no comércio, mas pode ter perdido ainda mais apoios junto de mulheres e minorias.

Nem tudo o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas. No debate de ontem, muito daquilo que foi dito vai assombrar a campanha eleitoral nos 19 dias que faltam até os norte-americanos irem às urnas. No terceiro e último debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, o milionário admitiu a possibilidade de não aceitar o resultado das eleições e defendeu que a democrata não devia sequer ser autorizada a ser candidatada. Um momento inédito na História recente dos Estados Unidos.

A pergunta era simples: no dia 8 de Novembro vai aceitar o resultado das eleições? A resposta foi problemática: “Vou pensar nisso na altura.” Numa só frase, Trump implodiu a tradição democrática basilar. Mas foi ainda mais longe. Depois de falar da parcialidade dos media e de problemas no registo para votar, o republicano sublinhou. “Ela não devia poder ser candidata. Ela é culpada de um crime muito, muito grave. Ela não devia poder ser candidata. E só por aí eu digo que [o sistema] está viciado.”

O moderador, Chris Wallace, jornalista da Fox News, insistiu. Lembrou que um dos princípios dos EUA é uma transição pacífica do poder, independentemente de quão dura seja a campanha. “O que estou a dizer é que vou pensar nisso na altura. Vou deixar-vos em suspense, ok?”.

Ou seja, não só está a dar a entender que poderá dizer aos seus milhões de apoiantes que não devem aceitar uma Presidência Clinton, como parece fazê-lo com alguma leveza. Algo com que Stephen Colbert, apresentador do Late Show, brincou minutos depois no seu programa.

Hillary aproveitou para atacar. “Sempre que o Donald acha que as coisas não estão a correr bem para seu lado, ele começa a dizer que está viciado”, afirmou. “Houve até uma vez em que ele não ganhou um Emmy pelo seu programa de televisão durante três anos seguidos e começou a tuitar que os Emmys estavam viciados.” A resposta de Trump? “Devia ter ganho.”

Este tom desafiante do candidato republicano espelha aquilo que têm sido os seus últimos dias. Perante uma queda significativa nas sondagens – desde os debates e a divulgação da gravação em que admite beijar e apalpar mulheres sem o seu consentimento – a campanha de Trump tem atacado os media e o próprio sistema eleitoral, dando a entender que a eleição pode ser falseada.

A segunda parte sobre Clinton dever ser proibida de correr à Presidência está em linha com uma frase que marcou o último debate – “estarias presa” – e com os gritos “lock her up!” nos seus comícios.

E este não é um mau momento ou uma posição isolada de Trump. No final do debate, o seu candidato a vice-presidente deu uma resposta semelhante, contradizendo até uma resposta sua horas antes. “Se a votação for justa, tenho confiança que a vamos aceitar”, disse Mike Pence. Sarah Palin fez uma declaração semelhante: “Se forem resultados legítimos, claro que serão aceites.” Já Kellyanne Conway, uma das líderes da campanha de Trump preferiu fugir: “Donald Trump aceitará o resultado da eleição, porque ele vai ganhar a eleição. Por isso vai ser fácil de aceitar.”

O receio de muitos é acordar na manhã de 9 de Novembro num país ainda mais dividido, onde milhões de eleitores sejam incentivados pelo seu candidato a desafiar a legitimidade do Presidente que acaba de ser eleito e a não confiar nas instituições.

Esta atitude também não cai bem entre os republicanos. O senador Lindsey Graham escreveu no final do debate que o milionário está a “prestar um mau serviço ao partido e ao país”. Recorde-se que Trump está em guerra aberta com algumas das principais figuras do Partido Republicano desde a divulgação da já referida gravação, com muitos congressistas a retirarem o seu apoio a Trump. Sem a estrutura do partido será muito difícil competir com a máquina que os democratas têm o terreno.

Não deixa de ser algo estranho que o frente-a-frente tenha descambado para algo tão grave. Os primeiros minutos foram provavelmente os mais calmos de todos os debates até agora, com o moderador a exigir respostas sobre assuntos de política – e não polémicas – em torno da nomeação de juízes para o Supremo Tribunal de Justiça, legislação sobre o direito à interrupção voluntária da gravidez e ao porte de armas.

Foi quando chegou o tema da imigração que Trump cometeu o primeiro deslize. Para alguém que precisa desesperadamente do voto da comunidade hispânica, referir-se a alguns imigrantes como “bad hombres” pode não ser a estratégia mais eficaz. “Um dos meus primeiros actos como Presidente é livrar-nos dos reis do tráfico. Temos pessoas muito más neste país. Vamos expulsá-las. Vamos proteger a fronteira. Assim que a fronteira estiver protegida, vamos decider sobre o resto. Mas temos alguns maus “hombres” aqui e vamos expulsá-los”, prometeu Trump.

O momento seguinte ilustra os problemas do republicano neste tipo de debates. Começa disciplinado, mas à medida que o tempo passa vai perdendo a concentração e mordendo os anzóis de Clinton. O moderador deixou a democrata numa posição desconfortável ao perguntar-lhe sobre os discursos que fez para audiências de banqueiros, revelados pelo WikiLeaks. Como seria de esperar, Clinton tentou mudar de assunto para o facto de terem sido hackers russos a fazerem estes ataques – algo que o próprio Trump notou. No entanto, em vez de insistir no tema, deixou-se provocar. “Pelo que eu vejo, Putin não tem respeito por esta pessoa”, disse Trump. “Isso é porque prefere ter uma marioneta como Presidente dos EUA”, disparou Hillary. “Tu é que és a marioneta”, respondeu Trump. O debate avançou, a oportunidade foi perdida.

No final do debate, as sondagens voltaram a dar a vitória a Hillary Clinton (embora deva sublinhar-se que a amostra nestas sondagens tende a ser mais democrata que republicana). 52% dos inquiridos pela CNN dizem que a Clinton ganhou vs. 39% para Trump. No inquérito da YouGov, a distribuição foi: 49% para a democrata, 39% para o republicano.

Porém, a maioria dos que viram o debate não parecem ter mudado a sua intenção de voto. Segundo a CNN, 54% dizem que não terá impacto no seu voto e aqueles que dizem que vai mudar alguma coisa distribuíram-se praticamente de forma igual entre Trump (23%) e Clinton (22%). Isto são más notícias para o candidato republicano. A média das sondagens dá-lhe uma desvantagem de cerca de sete pontos percentuais, portanto “ficar na mesma” não chega. Era preciso mudar radicalmente o curso desta eleição e é muito duvidoso que isso tenha sido conseguido esta noite. (Negocios)

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