Crivella vence no Rio com quase 60%, e esquerda é varrida do mapa eleitoral

Crivella agradece pelo apoio no discurso da vitória, em Bangu, no Rio, 30 de outubro de 2016 (Afp)

O senador e bispo evangélico licenciado Marcelo Crivella (PRB-RJ), de 59, foi eleito prefeito do Rio de Janeiro, após a realização do segundo turno das eleições municipais neste domingo (30), as quais confirmaram a derrocada da esquerda em nível nacional.

Com 99,97% das urnas apuradas, Crivella registra 59,37% dos votos, contra 40,63% de seu oponente, o dissidente do PT e ex-deputado estadual de extrema esquerda Marcelo Freixo (PSOL), de 49.

Simpatizantes e correligionários receberam Crivella, à noite, em Bangu, na Zona Oeste da cidade, para ouvir o discurso da vitória.

Depois de passar a campanha tentando convencer os cariocas de que não era mais o intolerante bispo pentecostal que, nos anos 1990, exorcizava católicos e via a homossexualidade como uma doença, agradeceu “à Igreja Católica que nos apoiou, vencendo uma onda enorme de preconceitos”.

Já Freixo falou na Cinelândia, no Centro do Rio, para uma multidão de militantes que se reuniu para acompanhar a apuração. Para ele, a derrota foi apenas um tropeço em uma luta de maior envergadura, uma luta de caráter nacional.

“O Rio de Janeiro é, neste momento, um exemplo para todo o Brasil, para aqueles que não se renderam”, declarou à militância.

Marcelo Freixo se referia à onda conservadora que tomou o país com a chegada de Michel Temer (PMDB-SP) ao poder, após o impeachment sofrido pela então presidente Dilma Rousseff em agosto deste ano.

Os partidos que votaram a favor da saída de Dilma foram amplamente favorecidos nas urnas nessas eleições municipais. O próprio Freixo chegou ao segundo turno, superando a candidata apoiada por um desprestigiado PT, Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

No Rio, a abstenção chegou a 26,85% neste domingo, superior aos 24,82% registrados no primeiro turno, em 2 de outubro. O percentual de votos brancos foi de 4,18% (contra 5,50% no primeiro turno), e nulos, 15,90% (contra 12,72%).

Com as zonas eleitorais abertas desde as 8h, cerca de 33 milhões de brasileiros votaram nos municípios onde nenhum candidato obteve a maioria absoluta no primeiro turno.

O dia transcorreu sem incidentes graves, com mais de 10.000 militares mobilizados em 12 cidades. A campanha do primeiro turno foi marcada por episódios de violência, com 16 assassinatos apenas em municípios fluminenses.

Igreja x socialismo no Rio

Sobrinho do fundador milionário da Igreja Universal do Reino de Deus e ex-ministro da Pesca e da Aquicultura do governo Dilma, Crivella manteve seu favoritismo, apesar de uma campanha marcada por escândalos. Entre outros momentos polêmicos desse também cantor de gospel e poeta, estão a sessão de exorcismo em católicos quando era missionário na África na década de 1990, ou suas declarações, nessa mesma época, sobre o “mal terrível” da homossexualidade.

O senador alegou que essas posições radicais ficaram no passado e, ao votar hoje em Copacabana, prometeu se dedicar “como nunca na vida a cuidar, sobretudo, da saúde, da educação, dos transportes e da segurança”.

As pesquisas já antecipavam sua vitória diante da crescente influência da Igreja evangélica nas zonas mais pobres do Rio.

Implosão da esquerda

Essas eleições confirmaram o recuo da esquerda em todo o país desde o primeiro turno de 2 de outubro e, em particular, do PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e da presidente recém-destituída Dilma Rousseff, sob o impacto da pior recessão econômica em um século e do escândalo de corrupção da Petrobras.

Se, em 2012, o PT conseguiu conquistar quatro das 26 capitais de estados, hoje ficou sem nenhuma. No Recife, a única que disputava neste domingo, seu candidato, o economista João Paulo, alcançava apenas 38,93% dos votos, após a apuração de 77% das urnas.

No primeiro turno, o Partido dos Trabalhadores já havia perdido quase dois terços de suas prefeituras. O maior golpe foi em São Paulo, agora nas mãos do PSDB, com João Doria, uma aposta do governador tucano Geraldo Alckmin.

Ainda pior, neste domingo, com quase 80% dos votos, o PSDB também levou Santo André, uma das cidades do ABC paulista, histórico reduto eleitoral petista.

O PMDB foi o partido que ganhou mais prefeituras, como já havia acontecido em 2012. A diferença é que, neste ano, também ganhou em grandes cidades. Já o PSDB não apenas tomou São Paulo, como derrotou o PMDB em Porto Alegre e em Maceió. Como prêmio de consolação, os peemedebistas venceram os tucanos em uma acirrada disputa em Cuiabá.

Com esses resultados, vai-se começar a estabelecer a correlação de forças e o xadrez político para a eleição à presidência em 2018.

“A base do governo Temer sai amplamente vitoriosa das eleições, especialmente com o resultado do Rio de Janeiro e do interior de São Paulo, onde o PT perdeu o reduto histórico de São Bernardo do Campo e Santo André”, disse à AFP o especialista Fernando Schüler, doutor em Ciência Política e professor do Insper, de São Paulo.

“O PSDB foi realmente o vencedor. Se tornou o partido com maior número de cidadãos sob sua administração desde as eleições de 2002. Tomou esse lugar do PMDB, que não é tanto um partido político como uma grande aliança de lideranças regionais”, acrescentou. (Afp)

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