China quer alterar relação com Angola

O modelo de financiamento por troca de petróleo pode ser coisa do passado para os chineses, que querem evoluir para os investimentos directos em território angolano. (Reuters)

As autoridades chinesas pretendem um novo modelo de negócios que se estenda para além do modelo financiamento por troca de petróleo. A informação foi avançada recentemente pelo vice-director dos Assuntos Africanos do Ministério das Relações Exteriores da China, He Meng, quando recebia um grupo de jornalistas angolanos no seu país. Descrevendo Angola e a China como bons parceiros, o responsável chinês salientou que o seu país não pode ajudar os angolanos somente com recursos financeiros.

Por esta razão, prosseguiu o diplomata que considera a África como sua ‘segunda casa’, depois de vários anos vivendo no Zimbabwe, é importante que se mobilize a participação de outras instituições financeiras nesta cooperação. Recuando um pouco na história, Meng recordou que o seu país apoiou Angola num momento particularmente difícil. Período este em que o Ocidente recusou-se a dar a mãos às autoridades angolanas, depois do longo conflito armado.

Durante mais de 10 anos, a ajuda chinesa possibilitou a reconstrução da mais de 1.030 quilómetros de estradas, construção de novas vias, restauração de alguns portos, electricação com o Ciclo Combinado do Soyo e a construção da nova barragem de Caculo Cabaça. O alto responsável chinês explicou, por exemplo, que o seu país está envolvido num projecto de plantação de cereais em 35 mil hectares de terra. Por isso, considera alguns dos projectos que enunciou como sendo apenas o início da cooperação.

‘Se a parte angolana quiser, com as terras férteis e as áreas amplas que possui, a cooperação entre os dois países vai dar mais resultados’, garantiu. Actualmente, segundo o vice-director dos Assuntos Africanos do Ministério das Relações Exteriores da China, gostariam de aprofundar a cooperação de financiamento e apoiar Angola a melhorar a sua economia. A parte chinesa, de acordo com o nosso interlocutor, diz almejar uma relação onde os benefícios recíprocos sejam cada vez mais evidentes.

Passos neste sentido foram dados, em 2015, durante a visita à China do Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Na ocasião, explica He Meng, chegou-se a consensos importantes entre as duas partes sobre a cooperação a nível de financiamentos e noutras.

Os acordos, que estão a ser analisados pelas partes angolana e chinesa, contemplam mais de 130 projectos. Abrangem as áreas da agricultura, pescas, saúde, habitação social e tratamento médico. Com a baixa que se observa no preço do barril do petróleo há algum tempo, os chineses também estão conscientes de que o modelo de cooperação financiamento por troca deste recurso possa enfrentar algumas dificuldades. Neste contexto, os chineses realçam que o modelo mais sustentado passaria por uma cooperação sustentável assente na atracção de investimentos.

‘Achamos que devemos encontrar formas de organizar investimentos em Angola’, explicou Meng Ho, acrescentando que ‘durante a visita do Presidente José Eduardo dos Santos, os dois líderes (de Angola e da China) avançaram para a cooperação da capacidade produtiva e de investimentos. Por isso, estabeleceram a comissão orientadora para a cooperação e investimentos em Angola’. Neste capítulo, investidores chineses estariam já de olhos em áreas como as da petroquímica, electricidade, manufacturação e agricultura. Estas poderão ser as áreas mais apetecíveis para as centenas de empresas e empresários orientais que no próximo mês deverão participar no Fórum de Negócios Angola-China.

O encontro visa promover a cooperação de investimentos e dar um novo impulso no desenvolvimento sócio-económico de Angola. Com o novo modelo, a julgar pelas explicações do responsável do Ministério das Relações Exteriores chinês, as empresas do seu país conseguirão empréstimos com os seus próprios esforços para participarem na construção de infra-estruturas e outras obras em solo angolano. Trata-se de um modelo que os chineses dizem ter utilizado quando se abrir a mao mundo nos melhores anos da sua economia. Com ele conseguiram atrair para o território chinês investimentos avaliados em 100 biliões de dólares todos os anos. ‘O nosso país tem um bom ambiente de negócios’, justificou.

Custos altos

A inexistência de um bom ambiente de negócios em muitos países africanos, entre os quais Angola, tem sido uma das queixas apresentadas pelos empresários chineses. Em muitos casos, os investimentos acabam por se tornar demasiado onerosos por falta de infra-estruturas nas áreas em que são implementados. Ocorrem grande parte em zonas inóspitas, sem estradas, energia eléctrica e água potável. He Meng garantiu que houve situações em que os empresários encontraram locais onde até foram obrigados a removerem as pedras existentes para estabelecerem os seus negócios.

O encontro de negócios de Novembro, em Luanda, servirá também de base para que os investidores chineses conheçam melhor o mercado angolano. ‘A parte angolana vai ouvir as questões que a parte chinesa tem’, disse. A Etiópia foi o país mencionado pelo nosso interlocutor como um dos bons exemplos em África, em termos de ambiente de negócios. Apesar de não possuir muitos recursos naturais, este país tem criado um ‘bom ambiente legal e políticas de investimentos’, na visão de Ho.

Estas alterações resultaram numa correria de empresas chinesas que já se instalaram no seu território, culminando na edificação de um grande complexo industrial. ‘Para atrair mais investimentos, na China precisamos de fazer mais trabalho. Não podemos obrigar pela força os outros a investirem no nosso país’, explicou o dirigente chinês, alertando que os bons negócios só acontecem ‘quando se tem boa qualidade para os outros. Neste aspecto, a China gostaria de compartilhar com os outros países africanos. E para aplicarmos esse modelo precisamos de um bom ambiente no exterior’. (O Pais)

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