“Brexit” ofusca Holocausto: judeus reclamam de volta a cidadania alemã

(Euronews)

Por causa da anunciada saída do Reino Unido da União Europeia, cujo “divórcio amigável” deverá iniciar-se até final de março, centenas de judeus britânicos e os respetivos descendentes começaram há meses a tentar recuperar a cidadania alemã que lhes foi retirada à família pelos nazis durante a II Guerra Mundial.

Os “fantasmas” do Holocausto não vão desaparecer, mas para já reassumir a cidadania do país que um dia os perseguiu e expulsou parece menos importante do que manter a possibilidade de livre circulação e trabalho no seio da União Europeia.

O escritor Thomas Harding é um destes casos. Há cerca de 80 anos, o avô teve de fugir da Alemanha. Agora, através desse familiar tornado refugiado, Harding tenta manter a ligação à União Europeia, aproveitando a abertura na lei germânica para solicitar o passaporte alemão.

“Após o ‘Brexit’”, o escritor percebeu “que iria haver uma grande perda”. “Era previsível que eu e a minha família viéssemos a perder o direito de viver e trabalhar nos outros 27 países da União Europeia”, afirmou Thomas Harding

O escritor explica que, “por não ser necessário abdicar do passaporte britânico, não precisar de viver na Alemanha nem falar ou aprender alemão, não tinha nada a perder” em abrir o processo junto da Embaixada da Alemanha, em Londres: “para mim, (pedir a cidadania alemã) não era tanto como dizer adeus ao Reino Unido, mas sim, olá à Europa.”

O procedimento legal que permite pedir o passaporte alemão aos judeus não alemães, mas com ascendência germânica e/ou que ficaram sem essa ligação, está consagrado no artigo 116 da Constituição Alemã, embora limitado a “antigos cidadãos alemães a quem tenha sido retirado esse estatuto entre 30 de janeiro de 1933 e 8 de maio de 1945, por motivos políticos, raciais ou religiosos, e aos respetivos descendentes.”

O documentarista Ben Lewis é outro dos candidatos. “Tenho várias razões para querer adotar a cidadania alemã. Em boa parte é por causa do meu filho. Quero que ele tenha as mesmas vantagens na vida que eu tive como poder trabalhar no território europeu”, destaca, acrescentando a possibilidade de poder ter trabalhado “pela Europa toda a vida.”

“Adoro Berlim. Posso imaginar-me a viver ali. Talvez isso venha a acontecer no futuro”, perspetiva Ben Lewis, sublinhando pretender, sobretudo, “assumir uma posição firme, bem documentada e clara”: “estou contra o ‘Brexit’.”

Estima-se que tenham fugido à perseguição nazi, do centro da Europa para o Reino Unido, cerca de 70.000 judeus. A Associação britânica de Refugiados Judeus estima que ainda vivam no reino de Isabel II cerca de 5000 vítimas do regime nazi e, contando com os descendentes, serão dezenas de milhares os candidatos britânicos à cidadania alemã.

É possível e compreensível que uma parte dos mais de 250.000 judeus a viver no Reino Unido não queira reatar os laços eventualmente perdidos com a Alemanha, mas, logo na primeira semana após o referendo que ditou no final de junho o “Brexit”, a embaixada germânica em Londres revelou ter recebido cerca de 200 pedidos por dia por oposição aos habituais 20. Um deles, foi a rabina da sinagoga de Londres Oeste, Julia Neuberger.

“Foi o ‘Brexit’ que me alertou, mas agora, a meio dos meus ‘sessenta’ anos, sinto que já fiz as pazes com a Alemanha e este passo apenas me vai aproximar mais um pouco”, afirmou a rabina Neureberger, também membro da Câmara dos Lordes (a câmara alta do parlamento britânico), cuja mãe fugiu da Alemanha em 1937 para escapar aos nazis.

A filha chegou a questiona-la porque iria pedir a cidadania alemã “depois de tudo” o que aquele país lhes havia feito. Julia Neuberger explicou: “Ainda há algo de alemã em mim, apesar de tudo, e é algo muito profundo.” (Euronews)

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