Bengo: Mito e superstição em torno do Jacaré Bangão

Bengo: emblemático jacaré na entrada da provincia (Foto: Cedida a Angop)

A história do jacaré, que terá “pago” o imposto ao chefe do posto na vila de Caxito como forma de a população local repudiar a imposição do regime colonial, consta de uma lenda popular para evidenciar e justificar a existência de feitiço (uanga) no Bengo.

A abordagem deste tema aconselha-nos a fazer uma incursão nos domínios da História, da Sociologia e da Antropologia, bem como compreender que, cientificamente, o jacaré nunca terá pago imposto à administração colonial na vila de Caxito.

Desta maneira, afirma-se que o episódio terá sido uma ficção lendária para enaltecer e personificar o jacaré, através do sortilégio ou feitiço (uanga).

Nesta esteira, as comunidades angolanas inscreveram, na sua história centenária, várias estórias sobre insignes entidades que se distinguiram como possessores de “feitiço ou uanga” e desafiaram a autoridade colonial.

Nesta vereda, o Bengo ficou inscrito nos anais da história do feitiço, da qual se destaca a estória de um réptil (jacaré) que foi pagar imposto, obrigação fiscal anual dos habitantes locais, numa atitude de intimidar a administração colonial, na vila de Caxito, actual capital da mesma província.

Ao reivindicar o pagamento de imposto, odiado pela forma injusta como era cobrado, por representar um modo de opressão pelo governo colonial, as comunidades do concelho do Dande não tinham hipóteses nem alternativas, senão embolsar o preito.

Segundo fontes credíveis, o inconformismo da comunidade diante da situação reinante redundou no refúgio a tradição cultural local, metamorfoseando um indivíduo num jacaré, que foi pagar imposto ao implacável chefe do posto (senhor branco ou ngana mundele), demonstrando-lhe a existência do poder tradicional ou feitiço.

Sobre este mito ou lenda, a Angop efectuou uma pesquisa que resultou na recolha de várias versões, das quais escolhemos duas narrativas que se aproximam mais da realidade histórica, social e cultural, bem como dos usos e costumes das populações do Bengo, sendo que a primeira enaltece o feitiço como poder local e a segunda evidencia a luta de resistência pela liberdade e autodeterminação do povo angolano.

A primeira versão, que realça a existência do feitiço, explica que o insólito aconteceu quando o chefe do posto, feroz, arrogante, petulante e desumano, na insistência de cobrança do imposto, viu sair, numa manhã, das águas do rio Dande, um enérgico jacaré saracoteando (Jacaré Bangão) com um saco de dinheiro à boca para pagar o imposto indígena.

Segundo relatos, nesse dia, o jacaré ou ngandu, com fama de muito mal-humorado e sempre zangado, mesmo com a própria sombra, entrou pelo posto civil adentro, obrigando o chefe do posto a fugir com os seus sequazes da administração.

A população de Caxito, informada sobre a fuga do chefe do posto e camarilha, bateu palmas de alegria, enquanto o Jacaré Bangão ou ngandu ya ukumbu regressava fleumático e intimidador ao seu lar, às margens do rio Dande.

Para confirmar esta tese, outras fontes sustentam que um cidadão de nome Pacote Dya Ngongo, que morava na Açucareira, sempre se recusou a pagar imposto, por considerar injusto e oneroso aos seus rendimentos.

No seu protesto, o velho Pacote Dya Ngongo usou o poder sobrenatural, feitiço, transformou-se em jacaré, levando o dinheiro na boca até à administração, para pagar o imposto, o que obrigou a fuga dos trabalhadores daquela superintendência, que não conseguiram conter o medo e receber a verba que o réptil levava.

A segunda versão narra que, na vila de Caxito, morava um cidadão que se chamava Kingandu, palavra em Kimbundu que significa “jacaré gigante”, que tinha a fama de desrespeitar a autoridade colonial e não pagava o imposto que era cobrado a todos os habitantes de Caxito, povoado, na época, por populações provenientes de várias regiões de Angola.

De acordo com a população, Kingandu, que fazia parte da comunidade laboriosa da Tentativa da cana-de-açúcar e do palmar de dendém, em determinada ocasião foi obrigado por um chefe do posto, metido numa farda de cor caqui, menos condescendente, a pagar o imposto.

Esta narrativa esclarece que o chefe do posto se gabava, dizendo que “se Kingandu, que é o mais bravo dos homens da povoação, pagou o imposto, já ninguém escaparia desta imposição”.

As fontes sustentam que, após o pagamento do tributo por Kingandu, que foi cozinheiro de Almeida Chaves e proveniente da região do Cuanza-Sul, nunca mais houve nenhum registo de recusa de pagar imposto.

A primeira versão aconselha a preservar a tradição cultural das populações da região, devendo ser difundidas as gerações vindouras e mostrar que o feitiço existe como “arma” que serve para defender e proteger a comunidade dos adversários e dos fenómenos naturais adversos.

A segunda sugere uma reflexão profunda sobre a consciência política da população local que se mostrava contrária ao pagamento do imposto, cuja resistência reclamava liberdade e autodeterminação do povo angolano, conquistada a 11 de Novembro de 1975.

Entre o mito e a realidade das duas versões apresentadas, deverá ser cientificamente aceitável a segunda, que esclarece que o jacaré (Kingandu) era um cidadão que se recusava a pagar imposto ao chefe do posto e não um réptil.

A história do Jacaré Bangão, que consta do cancioneiro angolano e inspira exímios compositores e cantores nacionais, constitui uma lenda que evidencia o feitiço associado à tradição cultural angolana.

Em obediência e respeito à tradição local, ligada ao mito do Jacaré Bangão, o Governo do Bengo ergueu um monumento histórico, no triângulo situado na antiga ponte entre Porto Quipiri e a antiga Açucareira, para simbolizar a preservação da cultura local e a luta de resistência contra o regime colonial.

O mito tornou o Jacaré Bangão numa figura de menção indispensável, cartão-de-visita e símbolo dos usos e costumes das populações do Bengo, no contexto nacional e internacional.

Para os mais velhos (as autoridades tradicionais e as populações locais), “o mito ou verdade” pode trazer benefícios para a província.

A circunscrição do Dande passou a ter Posto Civil em 1927, em Caxito, onde existiam os serviços para o apoio aos fazendeiros e agricultores, e contava com fazenda de cana-de-açúcar, palmar, bananal, citrinos, cafezal, pecuária,
fábrica de extracção de óleo de palma, louça sanitária e elásticos, bem como algumas serrações.

As primeiras habitações definitivas na vila de Caxito datam de Janeiro de 1930. Caxito, que significa pedaço de carne, era uma localidade de passagem de emigrantes, comerciantes, caçadores e pescadores, provenientes de regiões circunvizinhas, que acabavam por fixar residências na circunscrição. (Angop)

por João Francisco

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