Um ano após abertura a refugiados, populistas alemães vencem Merkel

Leif-Erik Holm (dir.), da AfD, e Lorenz Caffier, do CDU, participam de debate pós-eleitoral, em Schwerin, Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, em 4 de setembro de 2016 (AFP)

Um ano depois de Angela Merkel abrir as portas da Alemanha aos refugiados, o partido anti-imigrantes alemão AfD ficou em segundo lugar nas eleições regionais em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com 21% dos votos, atrás apenas dos sociais-democratas e superando o CDU da chanceler.

De acordo com pesquisas de boca de urna e com 21% dos votos já apurados neste domingo (4), o SPD (Partido Social-Democrata) liderava a disputa, com 30%, cinco pontos a menos em relação a 2011. Já o Partido Cristão-Democrata (CDU) de Merkel aparecia em terceiro lugar, com entre 19% e 20% dos votos, de acordo com pesquisas das emissoras de televisão públicas ARD e ZDF.

“O bom é que deixamos a CDU atrás de nós (…) Talvez isso seja, inclusive, o início do fim para a chanceler Merkel”, afirmou o líder do partido populista nessa região da ex-República Democrática Alemã (RDA) comunista, Leif-Erik Holm.

Criado em 2013, o Partido Alternativa para Alemanha (AfD) reforça sua posição na cena nacional, agora representado em nove dos 16 “Länder”. As eleições deste domingo, assim como as de Berlim em 18 de Setembro, tornam-se, desse modo, um ensaio geral a um ano das legislativas.

O partido baseou sua campanha no caos provocado, segundo a própria AfD, pela política pró-refugiados adoptada por Angela Merkel.

O secretário-geral da CDU, Peter Tauber, reconheceu uma derrota “amarga” e classificou a votação a favor da AfD de “protestatória”.

“Nós a vemos com o debate sobre os refugiados”, corroborou.

O fato é que a integração de um milhão de solicitantes de asilo em 2015 monopolizou a campanha eleitoral nesse estado-região da ex-RDA comunista, abrindo terreno para os populistas de direita da AfD.

Apesar de haver apenas alguns milhares de refugiados em Mecklemburgo, “a política migratória provocou uma grande sensação de insegurança nas pessoas”, explicou à AFP Frieder Weinhold, candidato da CDU em Wismar, uma cidade de 42.000 habitantes às margens do mar Báltico.

“Voto na AfD. A principal razão é o tema dos solicitantes de asilo”, admitiu um aposentado de Ludwig, que pediu para não ser identificado.

“Para eles, há dinheiro, para os aposentados, não”, protestou.

Em vídeo divulgado na sexta-feira (2), a líder desse partido, Frauke Petry, convocou os eleitores: “façam História, não apenas no estado-região, mas em toda a Alemanha”, votando em massa na AfD.

‘Popularidade aterradora’

Em um comício no sábado (3), nesse estado regional onde fica sua própria circunscrição eleitoral, Merkel advertiu para o perigo do voto nos populistas.

“Essa gente que provoca, mas que nunca fez nada por esse (estado federado)”, denunciou.

“Quero reforçar a união contra a direita (…) Sobre a AfD, tenho apenas uma coisa a dizer: a raiva leva a decisões ruins”, justifica Ulrike Zschunke, de 31 anos.

Na semana que passou, a chanceler, que está na China para a cúpula do G20, multiplicou seus apelos nesse sentido.

A popularidade crescente da AfD é considerada “aterradora” pelo Conselho Central dos Judeus da Alemanha.

“Agora, a Alemanha tem o que não existia desde o final da guerra (em 1945, em uma referência à Segunda Guerra Mundial): um partido de extrema-direita”, lamentou o jornal Die Welt.

Além do tema dos refugiados, a AfD se nutre “das dificuldades do SPD e da CDU para se diferenciar”, reconheceu o candidato Weinhold, acrescentando que “muitos não se sentem representados”.

Desamparados diante do êxito dos populistas, alguns políticos culpam Merkel directamente.

Essa política “provocou uma cisão na nossa sociedade”, criticou o chefe do governo regional em fim de mandato, Erwin Sellering, do SPD.

“O clima na Alemanha mudou completamente”, reconheceu ele, alarmado.

Em uma imediata reacção externa, a presidente do partido francês de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, felicitou neste domingo à noite os “patriotas da AfD”.

“O que era impossível ontem se tornou possível: os patriotas da AfD varriam o Partido de Merkel. Minhas totais felicitações!”, tuitou Le Pen. (AFP)

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