Tômbwa: Pesca artesanal à espera de melhores dias

Pesca artesanal no Tômbwa (Foto: Rosário dos Santos)

A pesca artesanal tem merecido, do Ministério de tutela, atenção particular, pelo número de operadores envolvidos, a influência na vida das populações e a sua contribuição na estratégia de combate à fome e redução da pobreza.

Recentemente, por exemplo, foi realizada uma acção de formação de formadores para o melhor controlo estatístico da produção (importante para a planificação das acções) e há preocupação com a perda pós-captura.

No entanto, os seus actores enfrentam uma “maré” de problemas e dificuldades, que apresentam sério risco de “naufrágio”.

Neste momento, está em reabilitação o Centro de Apoio à Pesca Artesanal, para se adequar às necessidades deste segmento dos operadores pesqueiros. Também destaca-se a implantação de uma ponte de descarga e câmaras de congelação.

No município estão registadas 196 chatas (35 delas inoperantes), envolvendo 579 marinheiros, perfazendo um agregado familiar de 3.345 pessoas. Cada chata tem uma média de quatro a cinco marinheiros. Nisso estão envolvidas 161 mulheres no transporte e processamento de pescado.

Nesta actividade estão também as “bimbas”, que são pequeninos e rudimentares botes confeccionados pelos próprios utentes, geralmente em esferovite ou outro material, de metro ou metro e meio, também chamadas bóias, cuja produção é residual e escapa ao controlo.

A produção diária de cada chata está à volta de quatro a seis caixas de peixe/dia, de 35 kg cada uma, o que perfaz 140 kg/dia.

Esta operação consome, no mínimo, 126 mil litros de gasolina por mês e quanto ao gasóleo, não há elementos que permitem controlar o consumo, conforme frisou uma responsável do sector.

Por falta de condições no Centro, estes operadores fazem venda directa, sujeitos ao risco de acentuar a perda pós captura e de perda de qualidade do produto, o que tem constituído preocupação das autoridades locais.

Daí que a coordenadora adjunta da pesca artesanal no Tômbwa, Ernestina Chipita, sublinhe a importância do Centro de Apoio. Contudo, mostrou-se entusiasmada com a conclusão, em 2017, do porto pesqueiro.

“Com o porto pesqueiro, tudo vai melhorar. Vão pescar, terão já o porto de destino, onde fazer a sua descarga; e assim estaremos bem”, observa.

Há consciência e evidências de que a pesca artesanal está a crescer muito, porém escasseiam os dados. A responsável tem como referência o ano de 2015, em que havia 186 chatas. “A tendência é crescer”, sublinhou.

Quando os pescadores não conseguem vender e para não perderem, entregam à Associação da Mulher Processadora de Salga e Seca, que existe há três anos, com seis cooperativas criadas e 61 membros. O trabalho deste grupo de mulheres é adquirir o peixe, transformá-lo em salmora; seguem-se sete etapas de pré-tratamento do produto e por fim a comercialização.

Mulheres Processadoras querem barco próprio

Esta associação, que chegou a ter 180 membros – mas foram desistindo por encontrarem emprego nas empresas do município – começou a produzir há dois anos e queixa-se de dificuldades na obtenção da matéria-prima, porque não tem um fornecedor permanente.

“Temos de ir à pesca artesanal, nas chatas, nas bóias e algumas empresas. Somos a maior estrutura de salga e seca, com um universo de 61 mulheres”, refere Ernestina Chipita, também presidente do grupo de gestão da associação de mulheres processadoras de salga e seca.

A Associação, de acesso livre, já beneficiou de um crédito pelo Fundo de Apoio à Pesca Artesanal (FADEPA), no valor de 100 mil kwanzas, para um período de seis meses e sem juros de mora.

“É uma grande vantagem e estávamos mesmo a precisar deste financiamento”, afirma Chipita.

A produção das seis cooperativas, em 2014, rondou (só num semestre) as 14 toneladas de produto acabado (o peixe pronto para entrega ao consumidor). Já no ano seguinte, ela foi insignificante, baixou consideravelmente. Foram apenas nove toneladas, por escassez de matéria-prima.

“A nossa maior dificuldade é mesmo a aquisição da matéria-prima”, sublinhou Ernestina Chipita, há mais de 20 anos no sector, acrescentando que a solução será adquirir uma embarcação própria.

“Fora disso, não conseguimos; porque cada um dos fornecedores já tem o seu compromisso”, refere e assegura que, se tivessem a matéria-prima a tempo e horas, conseguiriam atingir as metas.

“Podemos planificar, mas enquanto não resolvermos isso, nada feito. A associação tem uma capacidade para receber 12 toneladas/dia para as seis cooperativas, mas, às vezes, só conseguimos uma tonelada/mês”, reforça.

Para a associação produzir 14 toneladas de produto acabado são necessárias 42 toneladas de peixe (matéria prima). O grupo tem uma contribuição mensal de dois mil kwanzas. No entanto, actualmente tem no banco um fundo no valor de 350 mil kwanzas, considerado pouco pela responsável.

“Neste momento, a matéria-prima está muito cara. Estamos a comprar 500 kgs de cavala a 90 mil kwanzas e para uma produção, no mínimo, de três toneladas, são necessárias nove toneladas de matéria-prima, que custam hoje 810 mil kzs”, explica.

O produto é comercializado no mercado livre, sendo os principais destinos Luanda, Huambo, Lubango, Bié, Lunda Norte e Lunda Sul.

Financiamentos precisam-se

Os pescadores artesanais têm carências de vária ordem. Além das infra-estruturas apropriadas (centro de apoio), precisam de linhas, gaiolas (meio de captura), redes, estremalho, motores de 40 cavalos HP, entre outros materiais para faina, além de que os combustíveis não são subvencionados.

Acresce-se a isso a necessidade de um porto de descarga e locais para a primeira venda do pescado.

Os homens das chatas ainda não beneficiaram de qualquer financiamento, ao contrário das mulheres processadoras, através do Fundo de Apoio à Pesca Artesanal.

Ernestina Chipita reiterou a necessidade de um barco para a associação, para o qual o pedido de financiamento já foi encaminhado: “Estar a depender é complicado. Às vezes passamos quase 15 dias sem conseguirmos tratar 200 quilogramas de peixe e temos rendas por pagar, trabalhadores, energia e água. Sem produção, não será possível”.

Este grupo deu um forte sinal do seu potencial para o negócio, quando, em menos de 30 dias, algumas cooperativas associadas já tinham conseguido o valor para o reembolso do primeiro financiamento, cujo período de graça era seis meses.

Aguarda já pelo segundo financiamento para os próximos meses, do Banco de Comércio e Indústria, com dois pacotes opcionais: de 360 mil kwanzas e 500 mil, com juros de dois por cento.

Rostos cobertos de esperança

O apelo por um barco próprio é um sentimento muito presente naquelas que estão directamente afectadas pelo “drama” da escassez da matéria-prima para o seu trabalho.

Natália Benga é uma delas. Para ela, a associação “é um sítio bom” porque tem as melhores condições de tratamento do peixe. Há outros, mas são impróprios ou pouco adequados.

Esta processadora aponta os benefícios já conseguidos desde a criação da entidade, a 1 de Agosto de 2013: “A nossa ministra deu-nos 100 mil kwanzas, compramos o peixe, fazemos as vendas, para depois devolvermos o dinheiro que a ministra deu para nos ajudar.”.

Alguma coisa já mudou na vida de Natália Benga desde que se inscreveu na associação. Diz que consegue sustentar a família e está a construir a sua casa com os lucros do peixe.

Questionada sobre o que gostaria de ver melhorado no futuro, pediu mais apoio no sentido de persuadir as empresas a vender peixe à associação.

“Apoio das empresas, para nos venderem com facilidade; ou uma embarcação”, acrescenta.

Natália relata o que passam no dia-a-dia: “Temos dificuldade na aquisição do peixe. Quando vamos às empresas comprar não somos atendidas com sucesso, porque os armadores já têm os seus próprios clientes”.

A processadora assegurou que, caso seja dado o apoio solicitado, estariam em condições de gerir a embarcação. “Podemos. Nós estamos a pagar a renda da casa. Mensalmente depositamos um valor”.

Mostrando estar muito bem informada sobre os assuntos das pescas, indicou já onde poderão atracar a futura embarcação: “já que está aí a ser construído o porto pesqueiro, vai facilitar-nos muito”.

Outra processadora, Rosária Brito procurou a Associação porque queria organizar-se melhor.

“Fui peixeira e ainda sou. Mas agora estou a trabalhar. Fiz a inscrição no centro de salga e seca, como mulher peixeira, para melhor me organizar no meu negócio, trabalhar legalmente”, sublinha.

Como não podia deixar de ser, está em sintonia com as companheiras: “Temos dificuldades em obter matéria-prima. Mas, com uma organização, creio que o governo vai nos ajudar nesse aspecto.”

Entre os ganhos conseguidos com a adesão à cooperativa, Rosária destaca um motor. “A minha mudança pessoalmente é que eu fui beneficiada com um motor à popa (motor com uma ou mais hélices, destinado a possibilitar o deslocamento de bote ou canoa).”

Mas ela tem outros objectivos, que espera alcançar tão logo seja superada a questão da carência de peixe para o seu trabalho; não deixou de pedir um barco “para não depender mais de outras empresas”.

“De momento não consegui, porque estamos com carência de matéria-prima. Precisamos que o governo nos ajude neste aspecto, porque os nossos armadores municipais já têm os seus clientes e fica um pouco difícil conseguir matéria-prima”, aponta Rosária Brito.

Na expectativa da chegada do barco e do porto pesqueiro, esta mulher processadora, apesar das dificuldades actuais, terminou a conversa com optimismo, no discurso e no semblante; e esperança nas palavras. “A nossa vida vai mudar”. (Angop)

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