Síria: Assad deve estar rindo

Björn Blaschke dirige estúdio de rádio da emissora pública alemã WDR no Cairo (WDR)

Se o cessar-fogo na Síria perdurar, EUA e Rússia pretendem, juntos, bombardear terroristas. Dessa forma, o governo americano pode acabar por se tornar um agente do ditador sírio, opina o jornalista Björn Blaschke.

Certamente haverá retrocessos; troca de tiros que colocam o cessar-fogo em cheque. Pois o acordo russo-americano é tão complicado que, na verdade, deve fracassar. Só um exemplo: se – disse literalmente o secretário de Estado dos EUA, John Kerry – “houver uma redução real da violência”, então Estados Unidos e Rússia pretendem instalar, num prazo de sete dias, uma central de comando conjunta, “identificar” terroristas e agir de forma coordenada contra eles.

No caso do “Estado Islâmico” (EI) isso é fácil, pois ele é visto como grupo terrorista por quase todo mundo. Mas e a Frente Fateh al-Sham? Sobre ela, as opiniões são muito divergentes. Só para recordar: no início da guerra, a Fateh al-Sham (Frente para a Conquista da Síria), antes chamada de Frente al-Nusra, era composta por um punhado de islamistas próximos da Al Qaeda.

Na ocasião, os EUA, entre outros, reiteraram que apoiariam o moderado Exército Livre da Síria (ELS) em sua luta contra o regime de Bashar al-Assad. O que, aliás, eles não fizeram nem de conta. Por esse motivo, ao longo dos anos, muitos combatentes do ELS passaram para Frente al-Nusra, que recebia apoio verdadeiro de algumas fontes obscuras. Dessa forma se expandiu a atual Frente Fetah al-Sham.

O grupo tornou-se hoje a principal força na disputa por Aleppo – contra as tropas fiéis ao regime. E ele é apoiado por mais de uma dúzia de outras milícias rebeldes. Algumas delas são consideradas moderadas. E são essas que os Estados Unidos pretendem convencer, num prazo de sete dias, a se distanciarem da ex-al-Nusra para que jactos de combate americanos e russos possam bombardear “terroristas” em paz?

Isso vai ser difícil. Só não será mais difícil do que convencer a população desse plano. Embora a liderança da antiga Frente al-Nusra permaneça ideologicamente próxima à Al Qaeda, os seus combatentes, em geral, são cidadãos sírios comuns, enraizados na população.

É preciso deixar claro mais uma vez: inicialmente, os EUA deixaram de apoiar os chamados combatentes moderados, fazendo com que fossem levados para os braços de terroristas islâmicos. Então, os Estados Unidos declararam todos os combatentes da Frente al-Nusra de terroristas e pretendem agora – de forma coordenada com a Rússia – bombardeá-los.

O presidente Bashar al-Assad deve estar a rir: há cinco anos ele combate uma grande parte de sua própria população, mas diz sempre estar lutar apenas contra “terroristas”. Se o cessar-fogo realmente perdurar, se e somente se, então os EUA podem acabar por se tornanr agentes de Assad! (DW)

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