Regime sírio avança em Aleppo e ONG denuncia ‘banho de sangue’

Forças pró-governo sírio participam de uma operação para tomar o controle de um bairro de Aleppo (AFP)

O regime sírio avançou nesta sexta-feira na cidade sitiada de Aleppo, uma campanha denunciada como um “banho de sangue” pela organização não governamental Médicos sem Fronteiras.

O avanço do exército sírio coincidia com a degradação das relações entre Estados Unidos e Rússia, que apoiam respectivamente a oposição e o regime sírio, à beira da ruptura sobre este conflito, que devastou o país durante cinco anos e deixou mais de 300.000 mortos.

Washington ameaça interromper sua cooperação diplomática e Moscovo segue determinado a continuar com sua campanha de bombardeamentos em apoio ao presidente sírio, Bashar al-Assad.

Mais de uma semana depois de ter anunciado uma grande ofensiva para reconquistar a parte rebelde, o exército sírio avançava nesta sexta-feira em dois fronts, no norte e no centro da metrópole, ganhando espaço em território rebelde.

O regime tem o objectivo de conquistar a totalidade de Aleppo, dividida desde 2012 em um sector governamental (oeste) e bairros rebeldes (leste).

No norte, “depois de ter recuperado das mãos dos rebeldes o antigo acampamento de refugiados palestinianos de Handarat, as forças do regime capturaram na manhã desta sexta-feira o antigo hospital Kindi” nas mãos dos insurgentes desde 2013, explicou Rami Abdel Rahman, director do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

A tomada desta posição chave pode permitir que o regime “avance a Hellok e Haydariyé”, dois bairros rebeldes no nordeste da cidade, segundo o director do OSDH.

Enquanto isso, no centro de Aleppo, eram travados duros combates entre os dois grupos em Suleiman al Halabi, bairro localizado na linha de demarcação, segundo o OSDH. O exército tenta tomar o controle da parte rebelde.

Segundo a agência oficial Sana, 15 civis perderam a vida e 40 ficaram feridos pelos foguetes lançados pelos rebeldes contra a zona governamental.

Desde o início da ofensiva do exército em 22 de Setembro, os bombardeamentos provocaram a morte de 216 pessoas, entre elas mais de 40 crianças, segundo o OSDH.

O presidente americano, Barack Obama, e a chanceler alemã, Angela Merkel, condenaram na quinta-feira “os bárbaros bombardeamentos aéreos dos russos e do regime sírio contra o leste de Aleppo, uma zona onde vivem centenas de milhares de civis, a metade deles crianças”.

– Mais de 9.300 mortos em um ano –

Por sua vez, desde 30 de Setembro de 2015, os ataques russos deixaram 9.364 mortos, informou o OSDH.

O balanço inclui 3.804 civis, 2.746 combatentes do grupo extremista Estado Islâmico (EI) e 2.814 milicianos dos outros grupos rebeldes e islamitas que lutam contra o regime de Assad, indicou esta ONG baseada no Reino Unido e que conta com uma ampla rede de informação na Síria, com fontes médicas, militares e civis em seu país.

Além disso, 20.000 civis ficaram feridos nos bombardeamentos russos, segundo o OSDH, cujo director Rami Abdel Rahman indica que este balanço pode ser mais elevado, levando-se em conta o número de pessoas mortas por aviões não identificados.

No entanto, o Kremlin rejeitou estas acusações. “Não consideramos confiáveis as informações do que ocorre na Síria provenientes de organizações situadas na Grã-Bretanha”, disse à imprensa o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Além disso, apesar das pressões internacionais, em especial dos países ocidentais, Peskov disse que a aviação russa manterá “sua operação de apoio à luta antiterrorista das forças armadas sírias”.

“Todo o leste de Aleppo se converteu em um alvo gigante”, denunciou o director de operações da MSF, Xisco Villalonga, em um comunicado, no qual exigia que Damasco e seus aliados colocassem fim “aos bombardeamentos que provocam um banho de sangue entre os civis”.

“Todos os serviços de cuidados intensivos estão cheios. Os pacientes precisam esperar que outros morram para obter uma maca”, lamentou o doutor Abu Wasim, que dirige o hospital apoiado pela MSF no leste de Aleppo.

Por sua vez, a ONG Save The Children denunciou que as crianças de Aleppo não têm onde se refugiar dos bombardeamentos, nem mesmo nas escolas subterrâneas, devido às “bombas antibunker”. (AFP)

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