Rajoy volta a fracassar investidura e Sánchez surge à espreita

(Reuters)

Foi precisamente com o mesmo resultado da primeira votação que nesta segunda tentativa Rajoy voltou a falhar a investidura como primeiro-ministro. Já Sánchez apelou às “forças da mudança” apoio para ultrapassar bloqueio político.

Confirmou-se o resultado pré-anunciado. Mariano Rajoy fracassou a segunda tentativa de investidura, com os números obtidos na votação de há dois dias a repetirem-se esta sexta-feira, 2 de Setembro: 170 votos a favor (PP, Cidadãos e deputado da Coligação Canária) e 180 votos contra (dos restantes partidos).

Assim, o presidente do PP e ainda chefe do Governo espanhol em funções tornou-se mesmo no primeiro vencedor de eleições gerais espanholas a não conseguir ser investido primeiro-ministro. Mesmo tendo vencido as eleições de 20 de Dezembro de 2015 (20-D), Rajoy recusou em Janeiro deste ano a responsabilidade de formar governo por falta de apoio parlamentar.

E apesar de esta vez o PP ter sido o único partido a sair reforçado, em votos e mandatos, das legislativas de 26 de Junho (26-J), e de Mariano Rajoy ter aceitado a incumbência atribuída pelo rei Felipe VI, a verdade é que nem mesmo o apoio do Cidadãos bastou para que o líder popular renovasse o seu mandato de primeiro-ministro. Rajoy continuava dependente da remota hipótese de que pelo menos 11 deputados socialistas se abstivessem e, em contraposição à cúpula directiva do PSOE, viabilizassem assim a investidura do presidente do PP.

Este era um resultado mais do que esperado, especialmente depois de esta semana o PSOE e o seu secretário-geral, Pedro Sánchez, terem reiterado a rejeição ao nome de Rajoy. Resultado este que coloca Espanha ainda mais próxima de novas eleições, o terceiro acto eleitoral em 12 meses.

E agora?

Confirmada a vigência do impasse político que mantém Espanha sem um governo em plenitude de funções há mais de oito meses, Felipe VI terá agora oportunidade de voltar a ouvir os partidos com assento parlamentar e, eventualmente, voltar a convidar um líder partidário – Rajoy ou Sánchez – a tentar formar governo.

Os 60 dias para que seja formado governo começaram a contar na quarta-feira e terminam em 31 de Outubro. O rei pode realizar consultas e podem ser agendadas sessões de investidura até que haja primeiro-ministro ou até que termine o prazo. Nesta altura é a segunda opção a mais provável, perspectivando-se o agendamento de novas eleições para 25 de Dezembro, pese embora PP e PSOE já tenham demonstrado a intenção de antecipar em uma semana esse hipotético acto eleitoral de forma a que o mesmo não aconteça no dia de natal.

Sánchez à espreita

Se Rajoy ficou com as possibilidades de eleição quase esgotadas, Pedro Sánchez surgiu a assumir – mesmo que indirectamente e pela primeira vez desde 26 de Junho – a hipótese de voltar a ser candidato, isto depois de na sequência de 20-D ter também ele falhado as duas tentativas de investidura.

Num discurso muito duro face a Rajoy e ao PP, Pedro Sánchez surgiu esta tarde no Congresso espanhol a pedir às “forças da mudança” que assumam a “responsabilidade” de juntarem esforços na prossecução de uma solução governativa que permita superar o bloqueio institucional, afiançando que o “PSOE fará parte” da mesma.

Já Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos, a principal força de mudança a que Sánchez se referiu, voltou a instar o líder socialista a decidir se quer ou não fazer parte da solução, optando entre governar “connosco ou com o PP”. “Aproveitem estrategicamente a possibilidade”, atirou Iglesias que na sessão de investidura em que Sánchez foi chumbado votou contra o candidato socialista.

Contudo, apesar de reavivada a possibilidade de um governo das esquerdas, a verdade é que a concretização do mesmo pressupõe que estas forças garantam também o suporte de forças independentistas tais como o Partido Democrata da Catalunha (PDC) e os nacionalistas bascos (PNV). Porém, tal solução é vista com grandes reticências no seio do PSOE, com o ex-secretário-geral socialista, Pérez Rubalcaba, a classificá-la de “governo Frankenstein” e o antigo primeiro-ministro socialista, Felipe González, a pedir mesmo à direcção do partido que viabilize um Executivo do PP.

Rajoy arrasta Rivera para bloco dos derrotados

Os discursos de Rajoy e de Albert Rivera, presidente do Cidadãos, coincidiram na responsabilização dos socialistas pela actual situação. Rajoy acusou Sánchez de ter o “desejo pouco confessável de repetir eleições”, acrescentando que “se [os socialistas] persistem na política do não, não e não, permitam ao menos que Espanha forme um governo”. Deixando ainda o alerta de que haverá um “preço a pagar pelos espanhóis” pelo prolongar do impasse.

Perante o imobilismo no “não” da parte do PSOE, Rivera assumiu as críticas da esquerda – que acusam o Cidadãos de ter passado de um veto a Rajoy ao apoio ao político conservador – dizendo que “nós somos do sim, sim às reformas que o país necessita”. Mas Rivera avisou que o Cidadãos não vai continuar a “participar neste teatro”, pedindo ao PP que encontre outro candidato que tenha “uma investidura viável”. Aparentemente o acordo PP-Cidadãos só se manterá se Rajoy abdicar de continuar como chefe de governo.

Por fim, Rivera concluiu a sua intervenção pedindo “perdão aos espanhóis” pelo prolongamento da actual situação e pelo facto de não terem sido encontradas soluções. No fundo, PP e Cidadãos responsabilizam o PSOE pela não formação de governo, acusando os socialistas de apenas pretenderem novas eleições, acusação rebatida por Sánchez com os mesmos argumentos.

Sem certezas no horizonte, Espanha parece caminhar para eleições que poderão reincidir num Congresso polarizado, assim como aconteceu nos dois últimos actos eleitorais. (Negocios)

por David Santiago

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