Portugal: aliados de António Costa criticam ‘inoportuno’ encontro com Temer

(AFP 2016/ NELSON ALMEIDA)

Líderes do principal partido da base do Governo dos socialistas investem contra encontro do primeiro-ministro com o presidente brasileiro.

Para a líder do Bloco de Esquerda (BE), deputada Catarina Martins, “inoportuno é uma boa palavra” para descrever o encontro marcado para esta quarta-feira (7) entre o primeiro ministro de Portugal, António Costa, do Partido Socialista, e o presidente brasileiro Michel Temer (PMDB). A declaração feita à Sputnik no final do show do cantor brasileiro Caetano Veloso, na noite de terça-feira (6), em Lisboa, repete o tom da dura nota divulgada pelo partido na véspera do encontro entre os dois líderes.

Quando questionada sobre o assunto, Catarina Martins disse que nada teria a acrescentar à posição divulgada pelo seu partido, mas ponderou que se a visita de Costa ao Brasil tem o objetivo de apoiar os atletas Paralímpicos de Portugal parece bem. A mesma consideração havia feito horas antes à Sputnik a também deputada do Bloco de Esquerda Joana Mortágua. A posição do BE é de que a viagem de Costa para a cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos do Rio “não aconselha nem justifica o encontro com Temer”.

O BE, maior partido entre os que sustentam o atual governo de esquerda em Portugal, divulgou um comunicado nesta terça-feira no qual “lamenta o inoportuno encontro” e diz que Temer é “um político que chega à presidência da República do Brasil sem legitimidade e a braços com a justiça”.

“Tal como muitos dos seus ministros e dos deputados e senadores que o apoiaram, Temer está no centro de várias suspeitas, investigações e casos de corrupção. O Governo português não desconhece que um dos objetivos dos promotores da destituição da anterior presidente é precisamente o de garantir impunidade perante o combate à corrupção e, particularmente, travar o caso Lava-Jato, em que muitos estão implicados”, diz o partido.

No mesmo texto, o BE critica a posição oficial do Governo Costa após a confirmação do impeachment de Dilma pelo Senado brasileiro. Diz que “o Bloco também se demarca claramente” das declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, no sentido de uma legitimação do novo governo brasileiro. Na semana passada esse ministério emitiu um comunicado reiterando “vontade de continuar e aprofundar as relações bilaterais” e dizendo que a posse de Temer aconteceu “no cumprimento das disposições constitucionais brasileiras”.

Agenda no Brasil

Costa chegou ao Brasil na segunda-feira e um de seus primeiros compromissos foi uma reunião de trabalho com o governador de São Paulo, Geraldo Alckimin (PSDB), no Palácio dos Bandeirantes, à qual avaliou como “boa” em mensagem publicada no Twitter.

(DR)
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Nesta quarta-feira, o primeiro-ministro participará da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos no Maracanã e da recepção preparada por Temer para os chefes de Estado. Fontes do Palácio da Ajuda afirmaram à Sputnik que a agenda não prevê “encontro formal” entre os dois. Costa e Temer se conheceram quando o primeiro, ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa, recebeu a visita do então vice-presidente brasileiro.

No início de agosto o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, passou uma semana no Brasil e não cruzou com o então presidente interino Michel Temer. Na ocasião, a presidência informou que a visita de Marcelo era por ocasião da abertura das Olimpíadas e para cumprir uma agenda cultural. Uma nova viagem ao Brasil acontecerá em novembro, quando o presidente português participará da cúpula bilateral na capital federal.

Brasil divide a “geringonça”

Dos quatro partidos que sustentam o governo do socialista António Costa em Portugal apenas o grupo político do próprio, o Partido Socialista (PS), não condenou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. As posições do Bloco de Esquerda (BE), do Partido Comunista Português (PCP) e dos Verdes (PEV) são claras: Dilma foi vítima de um golpe. No último final de semana, durante a Festa do Avante, no sul de Lisboa, o PCP voltou a marcar posição contra a destituição de Dilma. Semana passada o BE recebeu o deputado brasileiro Jean Wyllys (PSOL), que pediu que o governo português não reconheça Temer. Os Verdes condenaram o golpe no Brasil em nota publicada em seu site. Os partidos da coalização esquerdista, apelidada ironicamente de “geringonça” pelos opositores da direita, não fazem parte da gestão Costa, mas acordaram em não se opor à formação do governo socialista no ano passado. (Sputnik)

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