Ortega, o milionário discreto que ameaça destronar Bill Gates

(Foto: D.R.)

Vive a 200 km de Portugal o homem que é patrão da Inditex. Esta semana, por três dias, ascendeu ao lugar de mais rico do mundo

Cerca de 12 quilómetros separam a Corunha, onde vive Amancio Ortega, do município de Arteixo, onde instalou o quartel-general da Inditex. Aos 80 anos, o milionário ainda os percorre diariamente, com a discrição de sempre. Raramente é visto fora da empresa. Almoça com os trabalhadores na cantina, dispensa restaurantes luxuosos. É um homem “simples, discreto e reservado”, dizem os poucos que ousam falar sobre o magnata que disputa com Bill Gates – diariamente segundo as variações da Bolsa – o primeiro lugar na lista dos mais ricos do mundo, elaborada pela Forbes.

Recentemente, o espanhol esteve três dias na frente, mas foi ultrapassado pelo gigante da Microsoft. Às 16.00 de ontem, era o segundo mais rico do mundo, com um império avaliado em 76,2 mil milhões de euros. Mas no ranking em tempo real, a “luta” com Gates (79,5 mil milhões) é constante.

A sede corporativa da Inditex – que detém a Zara, Pull & Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Uterqüe, Kiddy”s Class e Zara Home – situa-se na zona industrial de Sabón, em Arteixo, muito perto do mar. Destaca-se das restantes indústrias pela arquitetura. Os edifícios mais antigos convivem com uma construção moderna, espelhada, rodeada por um grande relvado. Nas imediações, no café A Saga, ninguém quer falar sobre Amancio Ortega. À porta, enquanto fuma um cigarro, Diego, 36 anos, aceita colaborar com o DN. “É ele que me dá de comer. Só tenho bem a dizer”, afirmou prontamente.

É funcionário da Inditex, onde muitas vezes se cruza com o magnata. “É um homem discreto, que facilmente passa despercebido. Não aparece em revistas, nem em jornais. Não veste roupas muito elegantes. Nem sequer usa gravata”.

Amancio Ortega “trabalhou a vida toda. É uma pessoa muito humilde”. Nasceu em 1936, em Busdongo de Arbas, uma pequena localidade da província de Leão. Filho de um ferroviário e de uma dona de casa, muda-se aos 13 anos com a família para a Corunha, onde começa a trabalhar numa camisaria, a Gala. Aos 17 passa para outra empresa ligada ao setor têxtil, experiências que viriam a culminar em 1963 na criação da sua própria empresa, a Confeções Goa (iniciais de Amancio Ortega Gaona, ao contrário). Doze anos mais tarde, abre a primeira loja Zara, na Corunha. E começa, assim, a nascer um império.

Em 1985, instalam-se em Arteixo as primeiras fábricas da Zara. “O senhor Ortega trouxe para cá uma indústria muito grande, que não para de crescer. É impressionante”, disse ao DN Manolo, um reformado que trabalhou para uma empresa com ligações à Inditex. Fala-nos de um homem “extremamente humilde”. “Se vê um papel no chão da fábrica, baixa-se para o apanhar. Quando me cruzava com ele nos corredores, cumprimentava-me sempre.” É conhecida a sua paixão por carros desportivos, mas não é visto em veículos exuberantes. “Não anda num Fiat 600, mas aparece em carros discretos. É um homem que não chama a atenção.” Manolo acredita que Amancio Ortega acabará por destronar permanentemente Bill Gates na lista da Forbes. “Ele não para.”

Desde 2011 que já não é presidente do grupo Inditex, mas continua a ser o maior acionista. Pablo Isla foi o escolhido por si para presidir o maior grupo de moda do mundo. Para A., empregado na sede da Zara, em Arteixo, Ortega “é provavelmente o melhor profissional do mundo. Dedicou a sua vida inteira ao grupo”. Mesmo já não sendo presidente do conselho de administração, vai todos os dias à sede da Inditex, onde também está sediada a Fundação Amancio Ortega, a que preside. “Apesar de ter 80 anos, é a última pessoa a sair do escritório.” E continua a almoçar na cantina. “Tem sempre um sorriso para toda a gente, mas, ao mesmo tempo, transmite respeito.”

Um milionário filantropo

Na taberna Baiuca, em frente à Casa do Concelho, um jovem contou ao DN que a Inditex é conhecida por oferecer “boas condições e bons salários”. Perante o crescimento de 5% em 2014, Ortega distribuiu, no ano passado, 50 milhões de euros pelos 70 mil trabalhadores com mais de dois anos de antiguidade. Amigo e familiar de muitos funcionários, o jovem diz que o milionário também “dá trabalho a pequenos costureiros da região” e contribui bastante para a economia local. “Há muitos restaurantes em Arteixo que vivem da Inditex”. E além do emprego que gera, o espanhol apoia milhares de pessoas através da Fundação Amancio Ortega. “Foi ele que introduziu os computadores nas escolas públicas da região”, revelou.

Fonte da Fundação explicou ao DN, por e-mail, que esta foi criada com o objetivo de “contribuir para a construção de uma sociedade que ofereça oportunidades iguais a todos os que fazem parte dela”, focando-se em duas grandes áreas: educação e assistência social [ver caixa]. Desde 2001, adianta a mesma fonte, foram investidos cerca de 235 milhões de euros em ação social. Na área da educação, destaca-se o programa de bolsas para jovens pré-universitários de Espanha poderem estudar nos EUA e no Canadá e um programa para o “uso educacional da tecnologia”. No âmbito da assistência social, a Fundação financia a aquisição de equipamentos de última geração para o tratamento do cancro, apoia a construção de creches da rede pública e tem em marcha um projeto para a criação de um centro para pessoas altamente dependentes. Entre 2012 e 2014, ofereceu 40 milhões de euros à Cáritas.

O grande empregador

Se em Arteixo já não é fácil encontrar quem queira falar sobre o gigante da moda, na Corunha é ainda mais difícil. Na marina, onde tem um apartamento, muitos viram costas quando se fala no nome de Ortega. “Tenho uma opinião muito boa, mas não quero falar”, frisou uma mulher. Alguns explicam que não sabem “mais do que aquilo que aparece nos jornais”. “Nunca o vi, não sei nada dele”, atiram outros.

À porta da recém-inaugurada Zara da rua de Compostela, uma imponente loja de cinco andares, Dolores Palla acede a dizer o que pensa. “Não é só o mais rico, é o melhor do mundo. Começou do nada e nunca perdeu as raízes”, frisa. Qualquer empresário com a dimensão dele, prossegue, “teria ido viver para Nova Iorque ou para Paris”. Ortega permaneceu onde começou. “Cria muitos postos de trabalho, diretos e indiretos, desde as fábricas, passando pelos empregados das lojas, eletricistas, informáticos. Será uma das pessoas que mais emprego gera na Corunha”, destacou. E não podia ser mais discreto. “De certeza que já me cruzei com ele e não me apercebi.”

O milionário que ameaça Bill Gates tem passado a sua vida longe dos holofotes mediáticos. Só em 1999 surgiu a sua primeira foto pública. Tem dois filhos do primeiro casamento, Sandra e Marcos, e uma do segundo, Marta. Além de ser um gigante do setor têxtil, tem negócios em áreas distintas, como a imobiliária e a financeira. (dn)

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