ONU suspende distribuição de ajuda humanitária na Síria

As Nações Unidas decidiram “suspender todas as movimentações de camiões com ajuda humanitária até ser reavaliada a situação de segurança”, afirmou o porta-voz Jens Laerke. O anúncio foi feito depois de uma coluna com ajuda humanitária ter sido atacada e de 18 dos seus camiões terem ficado destruídos. Os Estados Unidos apontam o dedo à Rússia, acusando o país de não ter controlado as forças de Bashar al-Assad.

Os camiões do Crescente Vermelho da Síria transportavam alimentos fornecidos pelas Nações Unidas para acudir a 78 mil pessoas que estão isoladas pela guerra, numa zona rural a oeste da cidade de Alepo. O ataque, perto da cidade de Urm al-Kubra, terá feito pelo menos 12 mortos (o número ainda não foi oficialmente confirmado) e deixou 18 dos 31 camiões destruídos. Uma testemunha afirmou à Reuters por telefone que os veículos estavam parados num centro do Crescente Vermelho quando foram atingidos por cinco mísseis.

Jens Laerke adiantou que a ONU tinha recebido autorização do Governo sírio para distribuir ajuda nas áreas cercadas do país.

“Isto é muito preocupante. Vemos o retomar da violência, uma intensificação dos combates em muitos locais”, comentou à Reuters Robert Mardini, director do Comité Internacional da Cruz Vermelha no Médio Oriente e Norte de África. “Tínhamos [distribuição] planeada para quatro cidades, mas para já foi suspenso para reavaliar a situação de segurança”, acrescentou, referindo-se às cidades de Foua e Kefraya em Idlib, nas mãos dos rebeldes, e Madaya e Zabadani, controladas pelo Exército.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, o raide foi lançado por aviões russos ou sírios, poucas horas depois de ter sido declarado o fim das tréguas negociadas entre os Estados Unidos e a Rússia.

Washington pretende agora “reavaliar as perspectivas de cooperação” com Moscovo: “O destino desta coluna era do conhecimento do regime sírio e da Federação Russa”, afirmou o porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, citado pela BBC. “E mesmo assim, estes funcionários humanitários foram mortos enquanto tentavam levar ajuda ao povo sírio.”

Em declarações ao Guardian, um alto responsável norte-americano foi mais longe: “A esta altura ainda não sabemos se foram os russos ou o regime. Em qualquer dos casos, os russos têm certamente a responsabilidade de contenção – a contenção de fazerem eles próprios actos destes, mas também a responsabilidade de impedir o regime de os fazer”, afirmou.

Por seu lado, o Exército russo prepara “um inquérito sobre estas informações”, declarou aos jornalistas o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov, citado pela AFP.

Damasco não comentou ainda o incidente, que para o responsável da ONU pelo auxílio humanitário Stephen O’Brien será um crime de guerra caso se conclua que foi um ataque intencional. “Apelo a uma investigação imediata, imparcial e independente a este incidente mortal”, declarou O’Brien, citado pelo diário britânico. “Os autores devem saber que um dia serão responsabilizados pelas violações às leis humanitárias e de direitos humanos internacionais”.

O secretário de Estado americano, John Kerry, tinha apresentado a trégua como a “última hipótese para salvar uma Síria unida”. Mas os seus sete dias de vida chegaram ao fim na segunda-feira, com Damasco a acusar os rebeldes de não terem respeitado “nem uma das disposições” do acordo alcançado pelos EUA e a Rússia – e com os militares de Moscovo a declarar que “não tem sentido” o exército sírio cumprir unilateralmente o cessar-fogo.

O ataque que por engano matou mais de 60 soldados sírios em Deir Ezzor (Leste), que a coligação internacional liderada pelos EUA confundiu com combatentes do Estado Islâmico, deu o golpe de misericórdia no acordo já frágil.

Horas depois do anúncio do colapso do cessar-fogo, já Alepo (a segunda cidade do país) estava a ser novamente fustigada por ataques aéreos lançados pelas forças do Governo com o apoio da aviação russa. Segundo a agência RIA, citando a Defesa de Moscovo, foram mortos 40 rebeldes. Um correspondente da AFP afirma que as bombas caíram até às duas da manhã desta terça-feira (meia-noite em Lisboa), com a população fechada em casa, e que de manhã os ataques foram retomados de forma intermitente.

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