Moisés Kafala: Requiem para um cantador de história(s)

Moisés Kafala (Foto: D.R.)

A Fundação António Agostinho Neto atribuiu-lhe, a título póstumo, o título honorífico da Ordem Sagrada Esperança, pelo seu contributo à exaltação da música nacional.

Um cantador de História(s). Assim se pode definir aquele a quem hoje rendemos homenagem. Moisés Kafala traduziu na canção parte da História de Angola e muitas histórias que atravessaram a sua marcha neste mundo.

Se, como disse Pessoa, “a trova é o vaso de flores que o povo põe à janela da sua alma”, então o músico conseguiu, ao longo da sua carreira, cantar o espí- rito dos angolanos, em temas cujas letras reflectem a identidade, a riqueza das tradições e africanidade. Escrever versos para a alma e iluminá-los com a guitarra é um desafio para qualquer criador.

É um género que, como disse Fernando Pessoa espelha o melhor da música. Este mês, o país perdeu uma das vozes, cujo trabalho, em anos, elevou a trova nacional. Num dueto, os Irmãos Kafala (ou Kafala Brothers) levaram à World Music o melhor da trova nacional. Conquistaram um espaço e conseguiram mantê-lo ao longo dos anos, com fãs de várias gerações.

Um feito que precisa ser recordado e lembrado com frequência, por representar o legado de um género musical muito próprio, exaltado durante anos por poetas como Jorge Amado. “É através da Trova que o povo toma contacto com a poesia e sente a sua força. Por isso mesmo, a Trova e o Trovador são imortais”.

É certo que não viveremos para sempre, mas o “peso” do legado deixado às gerações vindouras, através do trabalho, é uma forma de perpetuar quem fomos e buscar um lugar no “hall” da imortalidade. Moisés Kafala merece um lugar no panteão dos criadores angolanos.

Embora os Irmãos Kafala não tenham sido como os trovadores ou os compositores itinerantes do início do século XX, que percorriam as cidades, cantando baladas tradicionais, as suas músicas ficaram conhecidas a partir dos anos 80 e 90, em especial pela musicalização de poemas de autores consagrados, como “Renúncia Impossível”, de Agostinho Neto.

Em músicas que evocam sensações, impressões e emoções emanadas de sons, harmonias e ritmos, vocábulos metafóricos, em kimbundo, umbundu e português, os “Kafala Brothers” conseguiram refazer a beleza da poesia, por anos, e deixar um vasto trabalho, no campo da trova, a ser melhor inovado pelas próximas gerações de trovadores.

A trova, enquanto poema autónomo de quatro versos com rima e sentido completo, está intimamente ligado à poesia desde a Idade Média, onde era sinónimo de poema e letra de música. Hoje, a jovem geração de autores angolanos do género têm procurado se associar aos declamadores e poetas para criar uma nova simbiose e revolução.

É uma iniciativa louvável, mas que ainda precisa de apoios e incentivos para vincar e ajudar a manter no activo a “harmonia da guitarra e da voz”. Para os Kafala Brothers’, esta harmonia esteve assente durante anos na liturgia religiosa, mas, com o tempo, muitos dos temas passaram a ter um cunho mais humanista e social.

Como destacou o governador do Bengo, João Miranda, no elogio fúnebre de Moisés Kafala, as suas músicas também ficaram marcadas por evocar a dor, o sofrimento, a conflitualidade étnica e amorosa, “a eterna esperança de um mundo melhor, onde a harmonia social, política, tribal e regional era possível.”

Moisés Kafala, que foi a enterrar dia 5, no cemitério do Benfica, em Luanda, morreu, no dia 1, na Namíbia, vítima de doença, foi, para o Ministério da Cultura, um “destacado homem de cultura, que pautou a sua vida artística a defender e valorizar a identidade cultural angolana, com a criação de canções que marcaram o quotidiano.”

Além de músico e também director da Cultura no Bengo, Josué de Campos (de nome próprio) teve uma longa passagem pelo sector da Cultura onde foi delegado da União Nacional dos Artistas e Compositores em Benguela e membro da comissão de avaliação de projectos culturais e artísticos do Ministério da Cultura.

Ao longo da sua carreira artística, os Irmãos Kafala criaram três obras discográficas, que se tornaram referências incontornáveis na evolução da trova angolana: “Ngola”, gravado e apresentado na Inglaterra, em 1988, “Salipo”, produzido nos EUA, em 1995, e “Bálsamo”, feito em França, em 2000. No passado dia 10, a Fundação António Agostinho Neto atribuiu-lhe, a título póstumo, o título honorífico da Ordem Sagrada Esperança, pelo seu contributo à exaltação da música nacional.

“Poesia da alma” Dar vida à poesia, com uma guitarra e voz é um desafio para qualquer um que queira ser músico. Em Angola, mesmo entre os artistas de renome, são poucos os que conseguem realizar este desafio. Portanto, a trova representa o primeiro passo na “construção” de futuros bons músicos.

Porém, apesar de existirem projectos como o Festival Nacional de Trova e outros que ajudem a promover este género, assim como a descobrir jovens talentos, é preciso ainda um trabalho mais acentuado em torno deste género, actualmente pouco referenciado na música angolana.

Nomes sonantes da trova, como os Kafala Brothers, Duo Canhoto, Ruy Mingas, Waldemar Bastos, Gabriel Tchiema, Totó, Ângela Ferrão e Filipe Mukenga conseguiram, durante alguns anos, trazer nova vitalidade ao género. Porém, as inovações dos arranjos tecnológicos ou a “ascensão” do mercado das bandas, têm retirado parte do prestígio destes criadores, que fizeram/fazem da voz e da guitarra a manifestação real da sua arte.

Nesta era da supremacia tecnológica, do comportamento globalizado e do vanguardismo a qualquer preço, como defendeu o escritor brasileiro Sérgio Bernardo, a trova resiste, mas continua a encontrar inúmeras dificuldades.

Apesar de, como defende o próprio Sérgio Bernardo, “os autores já não estarem presos a temas fixos como nas cantigas de exaltação a campanhas militares, feitos reais ou mesmo um relato da vida quotidiana”, a trova angolana ainda continua com um número reduzido de praticantes.

“Status” social Melhorar a condição do artista angolano, em particular no campo social, é uma luta que precisa ser travada por todos os integrantes da sociedade, em especial aqueles que vêm o brilho das artes como algo excepcional.

A morte de Moisés Kafala, por doença, é um problema que não aflige somente uma classe, mas sim todos, e apesar dos esforços de diversas institui- ções ligadas ao sector e do próprio Ministério da Cultura, o artista ainda continua a ser visto como um pedinte, uma imagem deplorável a ser invertida.

Embora as culpas possam ser atribuídas aos próprios músicos, que ainda têm muito para aprender sobre os seus direitos e como os fazer valer, a outra parte da responsabilidade deve ser incutida aos agentes e promotores destes que nada fazem em sua defesa.

A questão da saúde, assim como a habitação, devem constar entre as prioridades das instituições que velam pelos artistas angolanos, porque são fundamentais e têm sido as principais dificuldades destes nas últimas décadas, em especial agora com a crise económica mundial. (cultura)

Por: Adriano de Melo e José Luís Mendonça

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