Mao representa herança incómoda para o PC chinês 40 anos após a sua morte

(1961) O líder chinês Mao Tsé-Tung (AFP)

Ele morreu há 40 anos, mas a figura de Mao Tsé-Tung ainda aparece por toda parte na China, das cédulas de dinheiro até seu enorme retrato na praça Tiananmen de Pequim, uma herança cuja gestão continua sendo incómoda para o Partido Comunista Chinês (PCC).

“Mao é ao mesmo tempo o Lenin e o Stalin do PCC”, declarou à AFP Frank Dikötter, especialista do período maoísta da Universidade de Hong Kong.

“Como Lenin, levou o Partido Comunista ao poder. Como Stalin, cometeu crimes chocantes contra a humanidade”.

Filho de um agricultor abastado, Mao buscava transformar seu país em um paraíso socialista, um sonho pelo qual não cedeu minimamente.

Cofundador do PCC em 1921, chegou ao poder 28 anos depois, após ter lutado contra os japoneses e vencido o exército governamental chinês.

Em 1º de Outubro de 1949, proclamou a instauração da República Popular diante da Praça de Tiananmen.

Mas os abusos não demoraram a chegar.

Obcecado para perseguir os “contra-revolucionários”, Mao ordenou múltiplos expurgos, que deixaram centenas de milhares de vítimas.

No fim dos anos 1950, seu “Grande Salto Adiante”, uma campanha económica de objectivos irreais, acabou com a agricultura e provocou uma fome que custou a vida de dezenas de milhares de chineses.

Na década anterior a sua morte, lançou e dirigiu a Revolução Cultural (1966-1976), uma orgia de violência física e psicológica que comoveu o PCC e que traumatizou o país durante anos.

Depois que Mao faleceu, o PCC fez um balanço de sua gestão, chegando à conclusão de que foi “um grande marxista e um grande revolucionário, estrategista e teórico proletário”, mas que cometeu “graves erros”.

“O mais importante são suas conquistas. Depois vêm seus erros”, concluiu o partido na época, uma postura “que não mudou verdadeiramente”, apesar das reformas realizadas por seu sucessor, Deng Xiaoping, que transformaram a China profundamente, segundo Dikötter.

“Uma pessoa não pode evocar a credibilidade, a reputação e a imagem de Mao sem minar as bases do Partido Comunista chinês”.

– Uma ‘amnésia’ –

O atual presidente chinês, Xi Jinping, o dirigente mais poderoso desde o antigo Grande Timoneiro, denuncia tanto o “niilismo histórico” quanto o “neoliberalismo”, acusando tanto os idolatras quanto os opositores do período maoista.

“Constata-se uma amnésia, gerada pelo poder, do balanço real de Mao”, disse Fei-Ling Wang, especialista da China no Instituto Tecnológico da Geórgia.

Qualquer crítica direta continua sendo perigosa: em 2015, um apresentador da televisão pública foi suspenso após a divulgação de um vídeo no qual aparecia cantando uma música que ridicularizava Mao durante uma festa particular.

Por sua vez, alguns elogiam a ideologia maoista para criticar o rumo capitalista que a economia chinesa tomou.

“Os cidadãos, os artistas e os militantes devem navegar constantemente entre as fronteiras difusas do que é politicamente aceitável”, estimou Jessica Chen Weiss, especialista em política chinesa da Universidade Cornell de Nova York.

No entanto, a herança de Mao continua sendo muito subjetiva, destacou Jeff Wasserstrom, historiador e autor de uma obra sobre a China moderna.

Um trabalhador desempregado estará mais inclinado a idealizar “o Mao heroico dos anos 50, falando dos agricultores como de ‘donos’ naturais da sociedade e prometendo aos homens como ele empregos para a vida toda”, explicou Wasserstrom.

Pelo contrário, as vítimas da Revolução Cultural o considerarão “um personagem senil, culpado de decisões ruins, que afundou a China no caos”.

– Mais forte que Jesus –

No entanto, alguns chineses conservam uma sincera veneração por Mao, às vezes considerado um semideus, explicou Li Yaxing, professora de “pensamento Mao Tsé-Tung” na Universidade de Xiangtan, na cidade natal do ex-líder.

“Ninguém é perfeito. A Revolução Cultural foi um erro cometido no caminho ao socialismo de características chinesas”, declarou.

Naquela época, o mundo havia conhecido poucos personagens dotados de uma aura como essa, segundo Li. “Nem mesmo Jesus gozava de uma reputação tão grande”.

Para Dikötter, a relação entre os líderes chineses atuais e Mao descansa mais nas considerações pessoais que no respeito.

Para eles, o caos do período maoista é como um segredo de família. “A maioria dos dirigentes e suas famílias estavam envolvidos naquela época, incluindo a família de Xi Jinping”, declarou.

“Todos os membros do Partido têm interesse que não seja feita uma análise real da história”, acrescentou.

“Todos se interessam em garantir que o retrato de Mao continue bem preso” na praça Tiananmen. (AFP)

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