Grupo Odisseias e Deco apostam em consultas médicas low cost

(Foto: D.R.)

Oferecem, entre outros serviços, consultas médicas de especialidade a menos de 40 euros. Tudo começou com uma ideia de dois jovens, mas já há outros serviços a funcionar.

Propõem-se ser uma alternativa para quem não tem seguros, cartões ou subsistemas de saúde, não quer pagar mensalidades nem estar sujeito a fidelizações, precisa de ir esporadicamente ao médico e não pode suportar os elevados preços convencionais.

Oferecem, entre outros serviços, consultas médicas de especialidade a menos de 40 euros. Foram dois jovens que decidiram avançar com a ideia — com uma startup chamada FacultaTempo —no final de 2013 e o conceito entusiasmou de tal forma os responsáveis pelo grupo Odisseias que estes decidiram criar a sua própria plataforma onlinepara a marcação de consultas e também de exames e tratamentos a preços que, nalguns casos, correspondem a metade do valor praticado pela medicina privada.

A funcionar em pleno desde Junho passado, a Saúde Livre permite que as pessoas marquem consultas de forma simples pela Internet e a preços que vão desde os 39 euros, para a maior parte das especialidades, sendo apenas mais elevados no caso da pediatria e da psiquiatria (45 euros), por ser necessário nestes casos mais tempo de atendimento.

Uma consulta de medicina dentária fica por 19 euros. “É um booking de consultas, exames e tratamentos”, sintetiza Paulo Manique, director-geral da Saúde Livre, cujo principal accionista é o grupo Odisseias, marca líder na venda de pacotes de experiências (de estadias em hotéis, a viagens em balão de ar quente), e que, com a nova plataforma, ambiciona entrar em força na área da saúde em Portugal.

Na FacultaTempo, o método é diferente: os clientes marcam a consulta e recebem um voucher através de email e depois escolhem as clínicas e os médicos.

As consultas de especialidade custam 35 euros, à excepção da psiquiatra (41 euros). Foi depois de ter tentado adquirir esta startup, sem sucesso, que o grupo Odisseias avançou com um projecto próprio alicerçado num conceito mais alargado.

São preços low cost? “São preços mais simpáticos, o mais competitivos que conseguimos”, responde Paulo Manique.

Ao mesmo tempo, a associação de defesa dos consumidores Deco tem em curso, desde Maio e até ao final deste mês, uma campanha muito menos ambiciosa, mas que visa “facilitar” igualmente o acesso a consultas baratas sem mensalidades.

A grande diferença é que apenas dá acesso a quatro especialidades e só duas destas são especialidades médicas (oftalmologia e saúde oral). As outras são a psicologia clínica e a nutrição. Os preços das consultas oscilam entre os 20 e os 35 euros.

A este pacote da Deco, que é gratuito, soma-se um outro, em que associação cobra já uma mensalidade e que, portanto, nada tem a ver com o conceito do acesso a consultas médicas sem pagamentos prévios. Este é, na prática um plano ou cartão de saúde semelhante a muitos outros existentes no mercado, com um custo de 5 euros mensais, para os associados da Deco, e de 6,5 euros, para os outros. Abrange todas as especialidades médicas disponibilizadas pela rede do parceiro da associação, com um universo de 25 mil prestadores.

As consultas custam entre 30 a 40 euros. “Assemelha-se a um cartão de saúde”, admite Bruno Santos, da Deco, que reconhece que a adesão à campanha não tem sido “tão robusta como o esperado” — 8252 pessoas até ao final de Agosto.

São ofertas que Paulo Manique considera que não se podem comparar com a proposta da Saúde Livre — que “tem o valor acrescentado de fazer a marcação e articula com os prestadores, além de disponibilizar uma linha de apoio das 9h00 às 19h00 e supervisão de direcção clínica”.

Na prática, porém, todas estas alternativas têm, pelo menos por enquanto, uma cobertura limitada — os parceiros, que ainda são poucos, estão localizados nos grandes centros urbanos.

“Este é um sector muito conservador”, justifica o director da Saúde Livre, que afirma que ainda é cedo para traçar o perfil do cliente porque têm sido procurados por “um grupo heterogéneo de pessoas, algumas das quais, curiosamente, têm seguro de saúde”.
Tratamentos dentários adiados
Na base de todas estas iniciativas está a constatação de uma necessidade que é sentida por uma franja considerável da população portuguesa: há muitas pessoas que não têm seguro de saúde, nem são beneficiárias de subsistemas (como a ADSE) e que, com os constrangimentos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), como as listas de espera para consultas e a não cobertura da áreas como a saúde oral, precisam de ser vistas por especialistas com rapidez e vêem-se confrontadas com valores que representam um autêntico rombo no orçamento mensal.

As consultas privadas de marcação directa têm “preços que rondam os 70/80 euros e nalguns casos podem ir até aos 120 euros”, acentua Paulo Manique. “É incomportável para muitos portugueses pagarem 70, 80 ou 90 euros por uma consulta de especialidade, ainda que hoje algumas clínicas já pratiquem valores mais baixos. Muitas pessoas, para irem ao médico, deixam de poder fazer outras coisas importantes. O ideal é que os preços baixem muito mais”, defende Frederico Baptista, co-fundador da FacultaTempo.

No ano passado, a Deco divulgou os resultados de um inquérito (1763 famílias) em que metade dos inquiridos afirmava não ter conseguido pagar cuidados de saúde considerados essenciais por falta de dinheiro. Este estudo — que pretendeu analisar o impacto dos custos não reembolsáveis no orçamento das famílias — permitiu perceber que, no topo dos gastos que foram sendo adiados ou postos de lado em 2014, estavam os tratamentos dentários e oftalmológicos, as consultas médicas e só depois os medicamentos.

Na Saúde Livre, além das consultas, que representam cerca de 75% da procura, também é possível aceder a uma panóplia de exames, como ecografias, raios X e tratamento e actos simples como excisão de sinais benignos, por exemplo, a preços mais reduzidos do que os convencionais.

O que está excluído são cirurgias e partos. A responsabilidade da prestação dos serviços é sempre das clínicas onde os pagamentos são efectuados.

“Desde Junho deste ano” no mercado, depois de a equipa ter passado um ano e meio a desenvolver uma rede de prestadores convencionados, a plataforma disponibiliza 300 clínicas e cerca de 2400 médicos, distribuídos por 13 distritos do país. “Desenvolvemos uma tabela de actos médicos (perto de 900) que inclui também a medicina dentária.”

Baixar mais os preços não seria aconselhável: “Há o problema da depreciação da qualidade de serviço, não quisemos ‘esmagar os valores'”.

Ainda são poucas as pessoas a aderir a estas alternativas. Mas, inesperadamente, uma parte dos que têm usado a Saúde Livre  — e foram cerca de meia centena desde Junho — até tem seguro de saúde. Como Carlos Gaspar, 78 anos, ex-director executivo de um grupo financeiro.

Sujeito a quatro cirurgias em hospitais privados e obrigado a constantes consultas médicas, Carlos percebeu que a plataforma existia através de “uma newsletter do grupo Odisseias”. Usou-a para ir a um urologista e gostou do método que apelida de “rápido e fácil”.

“Fiz a marcação e, passado uma ou duas horas, recebi a informação; depois, só tive que pagar a consulta na clínica”, descreve.

No caso de Carlos Gaspar compensou porque o seu seguro de saúde apenas o reembolsa em 30 euros um mês após a ida ao médico. Mas há muitos seguros de saúde (já para não falar dos subsistemas de saúde como a ADSE) e cartões de desconto que permitem consultas a preços bem mais em conta.
Descida de preços pode ter impacto na qualidade?
Sem querer pronunciar-se sobre questões relacionadas com preços, o bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, observa que a medicina liberal “é para quem quiser e puder”, mas lembra que no Serviço Nacional de Saúde (SNS) há “a obrigação constitucional” de responder às necessidades dos cidadãos.

“Só há oportunidades para o sector privado se o sector público não funcionar e este último não responde por estar dramaticamente sub-financiado”, lamenta o bastonário que nas últimas semanas reclamou um aumento do financiamento do SNS na ordem de mais 1,2 mil milhões de euros anuais.

Só assim é que a despesa pública em saúde passaria a ser idêntica à média da OCDE (6,5% do PIB), alega, enquanto lembra que os portugueses recorrem cada vez mais ao sector privado e gastam cada vez mais dinheiro do seu bolso. “Um terço das despesas em saúde já sãoout of pocket, acima da média da OCDE”, diz.

De resto, e ressalvando o facto de precisar de esperar para ver como funcionam estas iniciativas, José Manuel Silva considera que, por introduzirem “factores de concorrência, é de esperar que sejam positivas para os cidadãos”. Mas deixa um aviso: “A descida progressiva de preços terá um impacto, há valores abaixo dos quais não é possível prestar um atendimento de qualidade.”

A Entidade Reguladora da Saúde respondeu ao PÚBLICO que “não recebeu qualquer exposição” sobre estas duas plataformas. Mas adiantou que está acompanhar a campanha da Deco, depois de ter sido informada pela Administração Central do Sistema de Saúde do arranque desta iniciativa. (publico)

Por: Alexandra Campos

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