Governos de esquerda da América Latina condenam cassação de Dilma; Brasil convoca embaixadores

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, presidente do Equador, Rafael Correa, e presidente da Bolívia, Evo Morales (Reuters)

Governos de esquerda da América Latina condenaram o afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência da República, nesta quarta-feira, e o classificaram como um golpe de Estado, mas a Venezuela foi além e suspendeu suas relações com o Brasil e retirou “definitivamente” seu embaixador do país.

As manifestações contrárias à decisão do Senado de declarar Dilma culpada de crime de responsabilidade por violar leis orçamentárias também vieram de Bolívia, Cuba, Equador e Nicarágua, países próximos à primeira mulher presidente do Brasil.

“O governo da Venezuela, em defesa da legalidade internacional e solidária com o povo do Brasil, decidiu retirar definitivamente seu embaixador na República Federativa do Brasil, e congelar as relações políticas e diplomáticas com o governo surgido desse golpe parlamentar”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela em comunicado.

Pouco depois, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro disse ter convocado embaixadores na Venezuela, Bolívia e Equador por causa das críticas ao processo de impeachment.

“O governo brasileiro lamenta as manifestações de incompreensão dos governos da Bolívia, do Equador e de Cuba sobre a conclusão do processo de impedimento da ex-presidente da República. O processo foi conduzido em estrito respeito ao que estabelecem as leis e a Constituição brasileiras”, disse o Itamaraty em comunicado.

Sobre a Venezuela, afirmou que “repudia os termos do comunicado emitido pelo governo”.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, acusou os Estados Unidos de estarem por trás do “golpe” contra Dilma, durante discurso em rádio e televisão, no qual alertou os outros governos da região.

“Que ninguém pense que está fora…É um ataque contra o movimento popular, progressista, de esquerda”, disse Maduro, observando que falou por telefone com a presidente cassada. “Esse golpe não é só contra Dilma, é contra a América Latina e Caribe, é contra nós”, disse ele.

Durante o processo de impeachment que polarizou o país, Dilma negou veementemente as acusações e denunciou o processo como um golpe de Estado.

Por 61 votos a favor e 20 contra, o Senado pôs fim a 13 anos de governo do PT, e colocou Michel Temer no comando do país até o fim de 2018. [nL1N1BC1YC]

A voz contrária na região foi da Argentina, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, que disse que “respeita o processo” de impeachment e “reafirma a sua vontade de continuar no caminho de uma integração real e efetiva”.

Desde que Temer assumiu interinamente, em maio, a Venezuela afastou-se do Brasil, depois de um relacionamento forte na última década, quando governaram Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva.

“GOLPE DE ESTADO”

Bolívia, Cuba, Equador e Nicarágua também condenaram o impeachment de Dilma, chamando-o de “golpe”.

“O governo da República de Cuba rejeita fortemente o golpe de Estado parlamentar-judicial que foi consumado contra a presidente Dilma Rousseff”, disse o governo cubano em uma declaração oficial lida na televisão estatal.

O Brasil, aliado político próximo de Cuba, é também um dos seus principais parceiros comerciais na região e fonte de crédito da ilha caribenha.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, convocou seu embaixador no Brasil e escreveu em sua conta no Twitter: “Condenamos o golpe parlamentar contra a democracia brasileira. Acompanhamos Dilma, Lula e seu povo neste momento difícil #FuerzaDilma”.

O Equador, por sua vez, pediu consultas ao seu encarregado de negócios no Brasil e disse que os “acontecimentos lamentáveis representam um sério risco para a estabilidade da nossa região”.

“Nunca corroboraremos essas práticas, que nos lembram os momentos mais sombrios da nossa América. Toda a nossa solidariedade com a companheira Dilma, com Lula, e todo o povo brasileiro. Até a vitória sempre!”, escreveu o presidente equatoriano, Rafael Correa, em sua conta no Twitter.

(Reportagem adicional de Nelson Acosta, em Havana, Alexandra Valencia em Quito, Daniel Ramos em La Paz e Ivan Castro em Manágua) (Reuters)

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