Documentos confirmam história de agente espanhol que enganou Hitler

Imagem do desembarque da Normandia, no dia 6 de junho de 1944 (AFP)

Documentos tornados públicos nesta quarta-feira (horário local) pelo governo britânico destacam a importância do agente duplo espanhol Joan Pujol, conhecido como “Garbo”, que convenceu os alemães de que o desembarque aliado aconteceria em Pas-de-Calais, e não na Normandia.

Pujol foi um dos agentes mais importantes do MI5, o Serviço de Inteligência britânico, enganando Berlim com uma rede fictícia de espiões na Grã-Bretanha.

O regime de Hitler nunca descobriu a trama e entregou a Pujol a Cruz de Ferro, quase ao mesmo tempo em que também era condecorado pelos britânicos.

“Garbo” convenceu os alemães de que o desembarque na Normandia, em 6 de Junho de 1944, era uma manobra de distracção, e que o grosso das tropas aliadas atravessaria o canal em Pas-de-Calais, no noroeste da França.

Pujol disse à Berlim que “o ataque (na Normandia) era uma operação de distracção em grande escala com o propósito de atrair o máximo das reservas alemãs e retê-las ali para aplicar um segundo golpe, com sucesso garantido”, revela Tomas Harris, o agente encarregado de assessorar Garbo, em um relatório de 13 de Junho de 1944.

“Ele lhes deu motivos para acreditar que um segundo desembarque ocorreria em Pas-de-Calais”, acrescentou Harris.

A importância de Pujol já era conhecida através dos testemunhos de Harris e de outros protagonistas do momento, mas os documentos divulgados nesta quarta-feira confirmam e ampliam sua participação.

Aparentemente motivado por seu ódio ao fascismo adquirido na Guerra Civil espanhola, Pujol começou sua actuação transmitindo aos alemães informação falsa sobre a Grã-Bretanha a partir de Lisboa.

Após ser formalmente recrutado em uma visita à embaixada da Alemanha em Madrid, quando informou que iria se estabelecer em Londres, Pujol passou a transmitir informações de uma rede fictícia de espiões, que incluíam basicamente dados desfasados, revela um documento do MI5 de 12 de Julho de 1943.

Nascido em Barcelona no ano de 1912 em uma família de classe média, Pujol viveu a Guerra Civil espanhola (1936-1939) nos dois lados do conflito: republicano e franquista.

Os britânicos, que rejeitaram a contribuição de Pujol a princípio, concluíram que poderiam aproveitá-lo como agente duplo e receberam-no em Londres em Abril de 1942.

Araceli González, mulher de Pujol, não se adaptou à nova vida em Londres e, em 21 de Junho de 1943, telefonou para Harris ameaçando revelar as actividades do marido na embaixada espanhola, caso não retornasse para a Espanha.

Descrevendo Araceli como uma mulher “altamente sensível e neurótica”, Harris revelou como Pujol armou um plano para convencê-la de que havia sido detido por sua ameaça.

Araceli foi levada a um centro de interrogatório para visitar Pujol simuladamente preso, e dois dias depois pediu desculpas aos britânicos, prometendo “jamais” comprometer o trabalho do marido como espião.

Após a guerra, Pujol se mudou para Angola e lá simulou sua morte, um recurso tradicional dos Serviços de Inteligência.

Pujol foi morar na Venezuela, onde iniciou uma nova vida. Faleceu em 1988, mas antes retornou à Espanha, onde revelou sua história em uma série de entrevistas.

O historiador britânico Christopher Andrew, biógrafo oficial do MI5, descreveu Pujol como “o agente duplo mais importante da Segunda Guerra Mundial e, possivelmente, de todo o século XX”. (AFP)

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