Bernardino Pedroto: “Nunca rejeitaria a possibilidade de ser seleccionador nacional de Angola”

Bernardino Pedroto (Foto: D.R.)

Bernardino Pedroto é o técnico estrangeiro que mais títulos conquistou no Girabola. Três consecutivos ao serviço do ASA e dois pelo Petro de Luanda. No seu regresso ao país, pelas mãos do Recreativo da Caála, não foi muito feliz. Deixou o clube logo no início da época, mas está pronto para um possível regresso a Angola, país que ama. E mais: Pedroto afirmou que não rejeitaria um convite para orientar os Palancas Negras.

Na qualidade de técnico que já orientou duas equipas de topo do futebol angolano, como caracteriza o futebol que e é praticado em Angola na actualidade?

Como sabe, já não estou em Angola há bastante tempo e tenho convivido com algumas dificuldades em acompanhar o Girabola pela TV que, como também sabe, os jogos passam na ZAP e não na TPA, que é o único canal que vemos na televisão por cabo. Assim, fica muito complicado responder com exatidão à sua questão.

Contudo, pelo que me tenho apercebido, quer pelos resultados bem como pela classificação, os níveis competitivos estão altos, quer na discussão pelo título de campeão (D’agosto; Libolo e Petro……), quer pela manutenção. Posso concluir, com toda a naturalidade, que o futebol Angolano está no bom caminho.

Desejo e espero, que assim continue por muito tempo. Entretanto, deve ser reconhecido, que a colaboração, cooperação e a cultura de compromisso que é adicionada à competição pelos diversos agentes desportivos (dirigentes; empresários; árbitros; imprensa – falada, escrita e visual – treinadores e jogadores; e todos os anónimos que trabalham com grande dedicação à causa…..), tem sido um factor essencial para o seu desenvolvimento e, um garante extraordinário para gerar um equilíbrio dinâmico, harmonioso e envolvente ao futebol Angolano. Parabéns a todos pelo excelente contributo.

Especula-se muito sobre a saída do senhor do Recreativo da Caála. O que se passou de concreto?

Sobre esse assunto já tudo foi dito. Nada mais há a acrescentar. Apenas, mais uma vez, digo que lamento imenso não ter sido possível concluir o contrato com Recreativo da Caála.

Espera voltar tão cedo ao futebol angolano?

Não sei, com toda a sinceridade, se um dia regressarei ao Futebol Angolano. Sabe, Angola e o futebol angolano estão no meu coração. Só tenho excelentes recordações, como deve calcular. Não é fácil esquecer tudo o que me foi propiciado ao longo da minha estada em Angola.

Criei grandes amizades com todos aqueles com quem convivi, profissional e socialmente. Mas regressar ao futebol Angolano? claro que sim que penso um dia regressar, mas infelizmente não depende exclusivamente de mim, se assim fosse, estaria aí amanhã!!!!!! Bem hajam todos aqueles (dirigentes; colaboradores; jogadores; e todos os demais…..) que me ajudaram a crescer e a desenvolver as minhas competências, como homem e como profissional.

E se me permite, devo acrescer que, num contexto meramente profissional, tenho perfeita convicção da importância que tiveram na minha carreira desportiva. Estou muito, muitíssimo grato a todos.

Depois de ter saído da Caála recebeu novos convites?

Quem me conhece bem sabe perfeitamente que não sou um homem de aceitar e muito menos sugerir especulações. Ao falar de uma ou outra situação, estaria a ser indelicado com colegas de profissão, e neste profundo sentimento, por uma questão de ética, não farei qualquer comentário a esta questão. A si, bem como a todos os leitores, espero que compreendam.

O que acha dos dirigentes desportivos angolanos? No seu entender, têm experiência suficiente para que o futebol em Angola dê o salto qualitativo de que se espera?

Os dirigentes desportivos, bem como todos os outros agentes com intervenção directa ou indirecta no desenvolvimento, organização, planeamento, regulamentação e capacidade estrutural estão, na minha opinião, numa profunda e harmoniosa (s) atividade(s), na tentativa de reestruturar todo o futebol, quer do ponto de vista técnico (mais e melhores condições para os seus profissionais…), quer financeiro. Não são, como facilmente se compreende, tarefas de resolução simples, antes pelo contrário.

Neste contexto, estas dificuldades que se vão encontrando de uma forma sistêmica e que, invariavelmente não era o que se desejava, mas que ao reconhecê- las, torna-se inevitável a estes (quem dirige o futebol e os clubes), sugerir a todos os outros agentes que, para o bem de todos, é necessário que haja imensos compromissos desportivos e culturais na procura de sensatas, sensíveis e racionais soluções e que, sem estes compromissos, não será de todo possível resolver os profundos problemas que afectam o futebol.

Mas, quando se determinam objectivos, é necessário antes de tudo, saber se existe potencial (técnico e financeiro) e qualidade (técnica e humana) para executar esses objectivos. Por vezes, terá que se dar passos atrás para se percorrer o caminho desejado.

No entanto, é indispensável reconhecer os erros cometidos ao longo dos anos (sabendo nós que esta é a única forma de aprender e melhorar) que, por reflexo e reconhecimento desta postura irá, inevitavelmente, num futuro muito próximo, melhorar a intervenção pública e gestionária de cada um.

É, de todo o interesse para o futuro do futebol Angolano, que se implemente uma rejuvenescida e criativa política desportiva, e que esta vá ao encontro dos superiores interesses do Futebol, da sua organização e da sua criteriosa gestão. E, sem qualquer tipo de dúvida, os dirigentes do Futebol em Angola, ao emprestarem ao “SEU”Futebol uma justa, agradável e harmoniosa dinâmica acabará, de certeza absoluta, por serem reconhecidas e valorizadas as suas extremosas e cooperantes intervenções.

Exige-se superiores e construtivas reflexões. A não qualificação de Angola para a CAN 2017, vem, creio eu, um pouco na sequência do explanado atrás. Não tenho, como devem calcular, dados suficientes para uma resposta melhor.

Se fosse convidado para trabalhar na selecção nacional de Angola, o senhor estaria disponível?

Nunca por nunca, poderia rejeitar essa tão grandiosa possibilidade. Apenas isto.

Na equipa angolana que esteve no mundial muitos dos atletas eram do ASA, equipa que era orientada por si. Sentiu que o seu trabalho foi reconhecido naquele momento?

O trabalho é de todos. Mas claro que me sinto co-responsável pela convocatória de muitos jogadores do ASA ao mundial de 2006. Mas o mérito vai inteiramente para eles. Os jogadores são, no meu entender, o mais importante no Futebol. Não podemos esquecer de mencionar o maior responsável de todos para que isto fosse possível, o selecionador Nacional, Oliveira Gonçalves.

A credita que o futebol angolano pode voltar tão cedo a um mundial?

Voltar a um Mundial não constitui, para nenhuma Seleção Nacional, tarefa fácil. O Futebol Angolano, como já referi atrás, necessita de profunda reflexão e desenvolvimento organizacional; De reformular os quadros competitivos; de formar formadores; de mais e maior disponibilidade financeira (a este nível, poderá promover-se e criar fontes de receita extraordinárias, etc.) e gestão adequada; intervenção qualitativa nos quadros competitivos da formação; criação e aplicação de infraestruturas tecnológicas, humanas e espaços físicos perfeitamente adequados às exigências competitivas que se procurar implementar; etc. Enquanto não se proceder a estas profundas, necessárias e indispensáveis alterações, fica muito mais difícil alcançar esse objetivo.

O central Bastos está agora na Lazio de Itália. Acha que vai abrir uma janela para outros futebolistas angolanos?

BERNARDINO1PEDROTOAcha que os italianos passarão a prestar mais atenção ao futebol angolano? Bastos? Incrível a sua evolução, extraordinário. Se vai abrir portas para outros jogadores Angolanos? Não tenho qualquer dúvida sobre isso aliás, na minha modesta opinião, já se tinham aberto há bastante tempo. Os casos de Mateus; Flávio e Gilberto; Manucho Goncalves; e tantos outros espalhados por esse Mundo fora.

No passado muitos jogadores angolanos se transferiram para Portugal. E muitos dirigentes angolanos aplaudiam. No seu entender, Portugal é o melhor destino para os futebolistas angolanos?

Se Portugal será o país mais indicado para os jogadores Angolanos, não poderei dizer que sim nem que não, porque os jogadores que mencionei apenas Mateus(?) está no futebol Português. Lógico que a língua ajuda bastante a uma adaptação mais adequada e rápida, mas o futebol é universal e a qualidade quando existe, aplica-se em todos os lugares do Mundo. Primeiro que tudo, como já mencionei, é necessário ter qualidade, competência, alta capacidade profissional, e muita força de vontade de vencer. “Cozinhadas” estas características, é meio caminho andado, como se costuma dizer, o resto vem por acréscimo.

O atacante Gelson, ao serviço do 1º de Agosto, vai representar o Sporting de Portugal no próximo ano. Que opinião tem sobre a transferência do avançado?

O Gélson, tenho a certeza absoluta que irá ter bastantes oportunidades. É um jovem com qualidade, competente e com uma margem de progressão enorme. Terá, como referi atrás, que ser um excelente profissional, ter uma enorme vontade de trabalhar para vencer, ser humilde, uma forte capacidade de sofrimento e uma personalidade muito segura. Se conseguir reunir este conjunto de predicados, tenho a certeza que vai vencer mais esta etapa da sua vida, depois, seguramente, surgirão outras. (opais)

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