As línguas, o património literário e o renascimento africano

JOSÉ LUÍS MENDONÇA Escritor e poeta, Director do jornal Cultura (Foto: Valentino Yequenha)

Na sua ode triunfal A Voz Igual, o poeta Agostinho Neto antevira “Um amanhecer vital/ agora construindo a nossa pátria/ falando nas nossas línguas a tradição da nossa terra/ Reencontrar a África no sorriso/ na consagração da sabedoria e da paz/ o amor à cultura à investigação à criação/ à explicação do cosmos/ a forma e o âmago/ do estilo africano de vida/ e entrar no concerto harmonioso do universal/ digno e livre/ povo independente com voz igual.”

A fundação da Academia Angolana de Letras (AAL), no passado dia 15 de Setembro de 2016, em Luanda, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, retira destes versos a sua metáfora histórico-cultural. Na linha do percurso de vida da nação angolana, a AAL aparece num momento crucial de grandes expectativas e desafios sociais, políticos, económicos e culturais.

A crise económico-financeira coloca às instituições nascentes como a AAL, o dilema de como se tornar materialmente visível, num tempo de escassos mecenas. A Globalização dos nossos dias resulta do fascínio que os países da periferia nutrem pelo brilho da civilização ocidental: desde a anglofonização das grandes urbes, à americanização musical, ou ao próprio uso da técnica mais avançada que nos vem de fora, tudo concorre para um “esquecimento” de quem somos.

O fenómeno da monetarização do pensamento e do “homo mediaticus”, resultantes do liberalismo económico e da proliferação do andróide, vem lançando por terra os nobres valores da elevação cultural e científica do indivíduo, para os quais o livro contribuiu ao longo da História da Humanidade.

Quarenta e um anos depois da Independência de Angola, e catorze anos decorridos desde o fim da guerra que durou 27 anos, aparece a AAL com o “compromisso secular de trabalhar para a dignificação das Línguas Nacionais, da Literatura e dos Estudos Sociais Nacionais, honrando o génio criador e inventivo do Homem Angolano, e baseados na brilhante tradição das gerações precedentes”.

Está aqui plasmado o princípio da valorização do legado literário das mulheres e homens da pena, ensaístas e historiadores da literatura que é hoje um património material e imaterial incalculável em permanente construção, e do qual boa parte se encontra guardada fora de portas. O seu fim social, que passa pelo estudo e a investigação da literatura angolana, da língua portuguesa, das línguas nacionais e das disciplinas correlatas, representa um compromisso muito particular para com a promoção das línguas.

Ao assumir-se como espaço “de renovação, projecção e consolidação do nosso destino e imaginário colectivos – A ANGOLANIDADE”, a AAL pugna, tal como vem descrito na Carta do Renascimento Cultural Africano, pela “expressão dos valores africanos e a contribuição da África e da Diáspora africana na construção de uma civilização universal.”

O jornal Cultura, que tem estes três pilares fundacionais da AAL inscritos na sua linha editorial, regozija-se pela criação desta nobre instituição cultural e augura-lhe uma vida longa, extensiva a todos os seus membros. (CULTURA)

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