Após estreia tímida no G-20, Temer ainda precisa acertar tom do discurso internacional

Michel Temer e Xi Jinping, na reunião do G-20 (J. C. Hidalgo EFE)

Novo Governo tem tarefa de consolidar a legitimidade no exterior e dizer a que veio no curto mandato que herdou.

A participação do presidente Michel Temer na cúpula do G20 em Hangzhou, na China, trouxe um saldo positivo para o novo Governo, mas a tarefa de consolidar a sua legitimidade no exterior e, principalmente, dizer a que veio no curto mandato que herdou demandará um ajuste de discurso da gestão peemedebista num cenário de pouco espaço para a expansão do comércio exterior brasileiro.

Na China, além de se apresentar às maiores economias do mundo, o presidente conseguiu realizar cinco encontros bilaterais com líderes do Japão, da Arábia Saudita, Espanha, Itália e da anfitriã China, a maior parceira comercial do Brasil. Na reunião com o presidente chinês, Xi Jinping, Temer buscou transmitir pessoalmente a mensagem de que o Brasil continuará sendo um sócio confiável de Pequim.

Analistas ponderam, no entanto, que a mensagem do peemedebista aos líderes mundiais sobre a troca de comando no Brasil poderia ter sido mais enfática. O presidente desembarcou em solo chinês apenas dois dias após o julgamento final do afastamento de Dilma Rousseff, em meio à fortes críticas sobre a legalidade do processo.“Temer se comunicou pouco e mal. Os jornais americanos e europeus reproduziram muito mais a ideia de que há uma divisão grande na sociedade sobre a legitimidade do impeachment do que uma estabilidade. O que acho exagerado. Ele não aproveitou a chance do G-20 para se expressar sobre o tema com a amplidão que a questão merece”, explica o economista e cientista político Marcos Troyjo.

Embora concorde que o discurso do debút internacional de Temer tenha sido aquém do esperado, o economista Claudio Frischtak ressalta que nenhum país da cúpula colocou em dúvida a legitimidade do presidente. “Quando Temer chegou à China, havia a névoa de críticas, acusações de golpe e manifestações de rua contra o seu Governo no Brasil. Mesmo assim, nenhum ator relevante o questionou”, explica. A resistência ao novo Governo partiu principalmente dos vizinhos do eixo bolivariano. Equador, Bolívia e Venezuela chamaram seus embaixadores no Brasil para consultas após a conclusão do impeachment, em protesto a cassação de Dilma.

O peemedebista terá, ainda neste ano, uma agenda intensa de viagens ao exterior para afinar melhor o seu discurso. No final deste mês, ele irá para Nova York participar da Assembleia Geral da ONU e depois para a Índia no âmbito da reunião dos BRICs, o grupo econômico de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Durante os encontros bilaterais que teve no G-20, o presidente recebeu também convites para visitas de Estado a China, Japão e Espanha, todos ainda sem data marcada.

“Na ONU, com um público muito mais amplo que o do G-20, Temer terá uma nova oportunidade de mostrar uma posição mais enfática. É o momento de fortalecer a presença do Brasil, que foi muito acanhada com a Dilma”, explica Frischtak.

O retorno aos tempos dourados de protagonismo do Brasil no cenário internacional, como nos anos do Governo Lula (2003-2010), no entanto, pode demorar. O país possui hoje o pior desempenho econômico do bloco e pode atravessar o terceiro ano de recessão em 2017. As perspectivas para o próximo ano também não são animadoras, e Temer tem pouco tempo para tocar reformas importantes em um cenário político ainda incerto. “O mundo quer decifrar a esfinge Temer. O principal ponto que ele precisa mostrar é em que medida ele terá força política para colocar as reformas estruturais em andamento no Brasil”, explica Troyjo.

Além de enfrentar uma conjuntura econômica desfavorável, Temer carece de carisma, avaliam analistas. “É um político mais introspectivo, muito parlamentar e nunca assumiu uma a posição no Executivo. Mas a principal questão é se ele vai conseguir explicar melhor a que veio”, avalia Frischtak.

Nos encontros com os líderes mundiais, Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, frisaram a intenção do Governo em implementar reformas para retomar a atividade econômica do país. Os dois também tentaram atrair novos investimentos para o Brasil. “Foram oportunidades para falar de planos de investimento em infraestrutura e da agenda de crescimento. Não foram reuniões para assinar acordos, mas foram encontros importantes para contatos iniciais entre Temer e os líderes”, afirmou o subsecretário-geral de assuntos econômicos do Itamaraty, embaixador Carlos Márcio Cozendey.

Ao falar a empresários chineses em seminário em Xangai, Meirelles declarou que o país tem projetos de infraestrutura de 269 bilhões de dólares para os próximos quatro anos. Já em conversa com com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, Temer falou sobre o interesse do Brasil em exportar carnes e frutas ao Japão, bem como outros produtos agropecuários e em aprofundar a cooperação nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inovação, aproveitando a experiência japonesa.

No encontro com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, Temer também tratou sobre o fortalecimento das relações comerciais bilaterais e manifestou interesse em atrair ainda mais os investidores do país europeu para a agenda de infraestrutura.

A criação de um fundo bilateral de investimento no Brasil, na ordem de 20 bilhões de dólares, em que a China poderá colocar até 15 bilhões (3/4 do montante total), também voltou à pauta na conversa que o peemedebista teve com o premiê chinês. (El Pais)

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